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Boletim Letras 360º #249

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Um filme sobre Lygia Fagundes Telles estreia no cinema. Mais sobre, ao longo deste Boletim. O blog Letras in.verso e re.verso entrou na última semana dos 10 anos. E como gostaria de ter feito, pelo menos neste ano cabalístico, novas coisas! Ter encontrado novas vozes para engrossar o fraco coro dos despossuídos! Ter alimentado novas expectativas! Ter presenteado mais seus leitores! Mas não deu. Trabalho sobre pressão, sobretudo de tempo, e não é fácil. As mãos que ajudam são escassas e eu não tenho mais que palavras para dizer-lhes o quanto elas me fazem feliz porque tocam este projeto a respirar. As que apedrejam são tantas! Sobre essas não tenho nada a dizer. Quem muito apedreja pouco faz. E eu prefiro ficar ao lado dos que alguma coisa faz. Na próxima segunda-feira o Letras terá atravessado a fronteira para mais uma década. Mais uma – será? Não sei. O futuro não nos pertence. Mas, tomara! Neste tempo, o blog teve suas altas e muitas baixas. E se contar os...

Esculpindo o tempo nas recorrências da existência

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Por Rafael Kafka Frame de O sacrifício , de Andrei Tarkovsky De 2014 para cá, comecei a me interessar mais por questões ligadas ao estilo das obras. A presença desta ou daquela figura de linguagem, o uso de frases mais secas ou adjetivadas, a construção de um enredo linear ou alinear, os parágrafos longos ou curtos e outros recursos me chamaram a atenção em especial nas obras autobiográficas por indicarem marcas dos autores responsáveis pela produção do texto. Sinto que desenvolvi desde então uma forma de perceber o autor a partir de seu estilo dentro da obra, algo que pode soar óbvio para muitos leitores mais experientes, mas que para mim revela a profunda dimensão existencial da leitura. Esse efeito se tornou ainda mais interessante para mim após ler obras de autores consagrados que decidiram em um lapso de emoção se transformarem em obra. Nesse sentido, os diários de Saramago lidos por mim recentemente muito revelam de uma dimensão poética que se expressa na forma d...

A noite da espera, de Milton Hatoum

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Por Pedro Fernandes A primeira referência que saltará aos olhos do leitor diante o nome do protagonista do romance de Milton Hatoum é a personagem de Iracema , de José de Alencar. É possível que não haja quaisquer determinações propostas pelo romancista, mas na tessitura textual, ou mesmo no nosso imaginário literário, essa relação, tal como a dos irmãos Yakub e Halim que remetiam aos irmãos Esaú e Jacó de Machado de Assis, não deve ser desprezada. No romance do escritor cearense, que trata sobre a formação do ideal de nação no Brasil, Martim refere-se à figura histórica do primeiro colonizador da colônia do Ceará e significava a presença do colono português e suas tradições na constituição desse ideal – do que muito mais tarde chamaremos de identidade. É cedo para apontar relações mais concretas entre a personagem de Milton Hatoum e a de José Alencar. A noite da espera é o só o primeiro dos três volumes de O lugar mais sombrio . Este lugar mais sombrio, entret...

O outro Drácula de Bram Stoker

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Por Bruno Pardo Porto Fotograma de Drácula , de Tod Browning e Karl Freund (1931). Durante mais de cem anos passou despercebido, descansando num idioma que não era o seu, parecendo que era o mesmo de sempre, esse que passou pelo mundo literário em 1897 e inaugurou a febre pelos vampiros. Mas não. O Drácula  que chegou à Islândia era diferente do de Bram Stoker. Mas além do título – ali se chamou Makt Myrkranna  –, o livro era diferente, com uma estrutura nova, personagens desconhecidas e fragmentos de mitologia nórdica salpicados por suas páginas. Na tradução algo ficou pelo caminho e outro tanto floresceu, mas ninguém levou em conta até que Hans Corneel de Roos a cotejou com o original, despertando assim o morto, que apenas estava hibernando. Agora, esta outra versão do mito reaparece com um novo nome – Os poderes da escuridão * – e assinada por Bram Stoker. Mas como? A história é complexa e talvez existam mais perguntas que respostas. Estamos ante um relato...

Visões de Joseph Conrad

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Por Antonio Muñoz Molina Quanto mais o tempo passa, mais contemporâneo nosso é Joseph Conrad. Vivemos num mundo de identidades culturais tão heterogêneas que o último escritor que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura é um japonês que escreve em inglês e é autor de um dos romances mais densos e premeditadamente ingleses que alguém poderia escrever – Os vestígios do dia . Mas, essa tradição de entrecruzamento a que pertence Kazuo Ishiguro quem a iniciou foi Joseph Conrad, o primeiro romancista transnacional de que temos notícia: nascido na Ucrânia, filho de pais poloneses, educado em alemão, francês e russo – só começou a mergulhar na língua inglesa a partir dos 20 anos, quando se alistou como marinheiro num batalhão britânico. Um dos filmes mais universais das últimas décadas, Apocalypse Now , procede de Coração das trevas . O romance de Conrad é tão poderoso que se deixa adaptar sem perder nada de sua atmosfera nem de seu sentido desde o rio Congo nos primeiros anos da colon...

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

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Por Neiva Dutra Cecília Meireles em Ouro Preto. Mário de Andrade, referindo-se a Cecília Meireles, disse que ela passou – não necessariamente incólume –  pelas diversas experiências do Modernismo, mas com uma resistência firme a qualquer tipo de adesão passiva. Esta serenidade com que sua sensibilidade se moveu talvez explique a sobrevivência do pós-romantismo (muito mais simbolista que parnasiano) de sua poesia. Esta poesia, que não se enquadra nos movimentos literários pelos quais transcorreu, conserva o culto às abstrações e à beleza incorpórea, uma profunda e refinada visão da vida, os efeitos musicais e pictóricos da palavra. Propõe uma nova forma de espiritualidade, com um desapego expresso na intuição de uma realidade que transcende o afastamento, tendendo a enunciar sempre uma verdade que apenas pode ser expressada através do que não é, inclinando-se a desestabilizar os mecanismos pelos quais se compreende o sagrado. Essa forma de arte poética, bas...