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Do Globe para o globo: Shakespeare in loco

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Por Guilherme Mazzafera Gonçalo Viana. William Shakespeare´s portrait for a feature marking the 400th anniversary of his passing. Toda biografia é uma espécie de ficção: há um esforço inato da imaginação para preencher as lacunas deixadas pela história com o intuito de compor uma imagem una, concreta e factível do ser representado. Toda biografia é uma aspiração ao verossímil, e não à verdade, que não há, sendo sempre uma construção interessada e erigida sobre pontos de vista específicos que cabe ao leitor rastrear. Posto de outro modo, o biógrafo é como um poeta que tem ao seu dispor um arsenal de recursos materiais (as palavras em estado de dicionário ou em imanência no corpo de outras obras), cabendo ao artista a capacidade de unir, alijar e ressignifcar tais palavras, daí a importância de preposições, conjunções e espaços de não palavra na composição e leitura de um poema.   Não é à toa que o mais difícil em decorar versos está em internalizar estas p...

Boletim Letras 360º #273

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Uma edição turbinada de informações excelentes que fizeram a semana em nossa página no Facebook . Reabra espaço nas listas de leitura – é impossível sair daqui sem querer ler mais. E, por falar em listas de leitura, na segunda-feira, 14 de maio de 2018, esteja atento  à nossa conta no Instagram : publicaremos nossa nova promoção.  Eduardo Lourenço em cena do novo filme de Miguel Gonçalves Mendes. Mais informações ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 07/05 >>> Brasil: Quem dedurou os Frank? A pergunta cuja resposta alguma suspeita foi recentemente revelada, cf. dissemos por aqui noutra post, dá forma a um novo livro sobre Anne Frank Quem se dedica à resposta é Vincent Pankoke, um agente aposentado do FBI. Ele lidera uma investigação que envolve uma equipe multidisciplinar, novas técnicas e moderna tecnologia – e que promete novos resultados para 4 de setembro de 2019, 75 anos depois de o esconderijo da família Frank e de outros quatro ...

Henriqueta Lisboa: ressonâncias de uma leitura

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Por Márcio de Lima Dantas  Para Daura, prima minha Uma das maiores alegrias que tive na minha vida foi quando um funcionário da Poty Livros me ligou dizendo que tinha conseguido o volume número I das Obras Completas: poesia geral (1929-1983) da poetisa mineira Henriqueta Lisboa. Esse acontecimento me evocou a personagem do conto "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector, cuja alegria maior foi conseguir emprestado, após se submeter a uma série de perversas humilhações de uma amiguinha, o livro de Monteiro Lobato As Reinações de Narizinho .  Diferente da personagem, menina pobre ávida por leituras, meses antes fizera eu o pedido à livraria, mais uma das inúmeras tentativas impetradas de localizar alguma coisa da poetisa, pois tudo o que lera fora através de antologias. Sempre que ia a algum sebo ou livraria repetia inexoravelmente as mesmas palavras: - Você teria alguma coisa da Henriqueta Lisboa? Mas eu vou segredar uma coisa; agora, não digam a ningué...

Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron

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Por Pedro Fernandes Há pelo menos três instantes de corte metalinguístico – não explícito – que estabelecem três possibilidades de leitura sobre Noite dentro da noite . O primeiro deles remete a ocasião quando o narrador tece uma explicação (e são muitas) para um termo que é recorrente na sua narrativa; esclarece que pyhareryepypepyhare para os mbyá-guarani corresponde a um instante mais denso da noite, uma vez o tempo para eles pertencer a outra dimensão diferente desta forjada pelo homem branco – “o instante mais denso de escuridão que antecede o alvorecer incerto, o instante mais negro de toda existência, pois não se sabe se haverá o seguinte”. Depois, o segundo, a exposição metafórica sobre a história narrada: uma “saga pantanosa que, como tudo que se origina no pântano, não tem bons alicerces, não tem fundamentos que a sustentam, é feita de lama movediça que engole tudo e às vezes devolve, às vezes não”. E, por último, o registro de uma fita K7 da rata, personag...

Garotos do Leste, de Robin Campillo

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Por Pedro Fernandes Um passeio pela filmografia de Robin Campillo servirá para que possamos perceber o quão diverso pode ser um criador que não mede esforços para se reinventar a cada trabalho. Com quase uma dezena de produções uma prova que poderíamos utilizar para comprovar isso – e outros textos que porventura vierem sobre algum outro título do cineasta dirão a mesma coisa – é a distância entre o premiado 120 batimentos por minuto , um de seus trabalhos mais recentes e Garotos do Leste , de 2003. Naquele, a atenção da narrativa é pela construção de uma historiografia da luta pela humanização do Estado em relação aos soropositivos; e neste uma encenação de alta carga dramática e tensional sobre uma condição que estava no início de tudo, os fluxos de migração dos povos que continuamente atravessam condições adversas em seus territórios de origem para a Europa abastada.  Em 120 batimentos Campillo dispõe do material do qual irá compor sua narrativa: a históri...

Sonhos do insone Vladimir Nabokov

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Por Ignacio Vidal-Folch Vladimir Nabokov. Foto: Philippe Halsman O professor da Universidade de Missouri, Gennady Barabtarlo, tradutor para o russo dos últimos romances de Vladimir Nabokov por escolha do filho do escritor, Dmitri, organizou, comentou e editou os sonhos que o autor de Lolita anotou durante o ano de 1964 e seus comentários sobre reunidos em seus Diários . São materiais atualmente preservados pela Biblioteca Pública de Nova York e até agora inéditos. A publicação (da Princeton University Press) intitula-se de forma alusiva à persistente insônia do romancista russo-estadunidense que apenas uma forte medicação diária conseguia resolvê-la: Insomniac dreams. Experiments with time by Vladimir Nabokov (algo como: Sonhos insones. Experiências com o tempo por Vladimir Nabokov).   Se Nabokov desenvolveu interesse especial pelas visões e os relatos que vivemos quando estamos dormindo não foi, que se diga, uma consequência das teorias da interpretação...