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Boletim Letras 360º #277

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Gostamos tanto da experiência de 2017 em trazer novos colunistas para o Letras, que, em breve, divulgaremos outra chamada; agora para garantir outros nomes no ano vindoura. Então, aqueles que guardam interesse em compor um grupo cujo trabalho é escrever sobre temas, formas e obsessões da literatura, falar sobre livros e filmes assumidamente interessados em compor parte no amplo universo que considera a arte enquanto expressão estética e política, estejam muito atentos – uma oportunidade baterá à sua porta. Recado dado, eis então as notícias desta semana divulgadas em nossa página no Facebook:  Reivindicam um prêmio Nobel de Literatura para Federico García Lorca Segunda-feira, 04/06 >>> Brasil: Três novos títulos da poesia completa de Max Martins Há três anos, cf. temos acompanhado, a Editora da Ufpa tem apresentado aos leitores brasileiros a reedição obra a obra do poeta paraense numa coleção de luxo que inclui inéditos e ensa...

Quando a conjuntura me força a rever um ponto de vista

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Por Rafael Kafka Um aluno me entrega uma atividade em minha mesa. Era uma interpretação de texto de dois textos – uma HQ e um trecho de um ensaio – sobre a colonização brasileira e as políticas escravagistas. Não consigo entender bem sua letra, mas percebo que suas palavras possuem relação com um pensamento não concretizado em frases com lógica. Minha melancolia cresce: – Deverias cuidar mais de tua letra. Não consigo entender o que escreves aqui. O aluno volta para o lugar nitidamente intimidado. Percebo, então, que passei o dia todo lidando com situações que estavam me minando. Sem querer, descontei em um aluno e percebi que acabei descontando em alguns outros, fazendo discursos tolos cheios de moralismo e me irritando facilmente em situações que em outros contextos resolvo rapidamente. Não sei se isso tem alguma influência com a tentativa de reduzir o café iniciada por mim nos últimos dias. Mas olhar para a caligrafia de um aluno e perceber suas dificul...

A aranha negra, de Jeremias Gotthelf

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Por Pedro Fernandes Ao tratar sobre a simbologia da casa Mircea Eliade observa o valor da fundação do que então constituirá uma reinauguração do episódio mítico da origem do mundo; como pensador que define o homem enquanto complexidade aberta a várias dimensões, entre elas a de se incluir num âmbito da repetição ritual ou da reatualização dos gestos paradigmáticos que o constitui desde sua origem, na construção da casa reúne-se todas as atribuições de reafirmação do cosmos. Na antiguidade, a pedra de fundação do lar reunia todo o valor dessa ordem – por isso, os ritos de sagração que são repetidos até hoje de alguma maneira pelo homem moderno, seja o registro fotográfico da concepção do novo lar, seja o festejo da inauguração, a benzedura das chaves etc. A pedra de fundação era para o homem primitivo sempre o elemento sagrado, disposto no umbral da casa e se constituía o centro do novo cosmos.   Em A aranha negra , de Jeremias Gotthelf, é em torno desse elemento que...

Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi, de Dee Rees

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Por Pedro Fernandes O enredo desse filme de Dee Rees parece saído de algum dos romances de William Faulkner; não é pelo tema ou mesmo pelas situações narradas e sim pela complexa e dramática atmosfera que dão coloração a um impasse de relações familiares e coletivas, sobretudo as hierarquias entre brancos e negros no sul profundo dos Estados Unidos no período de meados para o fim da Segunda Guerra Mundial. É claro que, no âmbito das primeiras relações e porque de uma alguma maneira se retrata uma decadência do poder hegemônico branco, a narrativa de Mudbound bebe das criações do escritor estadunidense. Figura fracassada, Henry McAllan tenta arranjar sua vida depois de se casar com uma solteirona que à primeira vista preenche todas as condições da figura ideal para manutenção da ordem do lar. Tudo começará a ruir com a necessidade de McAllan deixar a cidade para ir morar numa fazenda no delta do Mississipi, onde vivem como meeiros a família Jackson, negros que trab...

Machos nus: Walt Whitman, José Martí e Thomas Eakins

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Por Daniel Céspedes Góngora O século XIX começa já dominado por homens e – herdado da cultura judaico-cristã mediada pelo catolicismo – teve suas preferências pelo nu feminino “ao natural” contra a tradição acadêmica historicista e de assuntos mitológicos. Esquecia que a Adão – embora coberto por uma vestimenta de graça ou de luz, como recorda Giorgio Agamben – se deve a primeira “ostentação inconsciente” de sua natureza num mundo onde logo surgiria Eva, quem o acompanhará em sua ingênua nudez. Sem dúvida, o arquétipo machista e hétero-sexista do cânone humano provinha do olhar masculino. Uma mulher nua numa academia de belas artes no século XIX? Uma projeção imoral, sem dúvida. Mas as mulheres se desnudaram nos estúdios de pintores e fotógrafos. E fez-se acreditar que a sensualidade e a erotização eram apenas propriedades delas. O artista estadunidense Thomas Eakins mudará tudo ao reconsiderar o nu na própria academia. Eakins experiencia o quanto pode na Paris do ...

O fracasso de escrever

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Por Manuel de Lorenzo Liev Tolstói, autor do gigantesco Guerra e Paz Sempre pensei que há algo de aberrante em escrever. Em tentar passar para o papel uma história. É uma dessas coisas que nunca, jamais, saem como se quer. Assemelha-se, suponho, a criar um filho ou plantar um jardim. O texto sempre parece ir dizendo seu próprio caminho à margem da vontade do seu autor. É um processo utópico e infeliz. Repleto de insatisfações. O escritor nunca consegue estar à altura de suas próprias aspirações. Do que esperava de si mesmo como autor. Por isso, escrever é, sobretudo, fracassar. Fracassar uma e outra vez com a absurda esperança de não morrer na tentativa de vencer algum dia. Como se Sísifo tivesse alguma possibilidade de alcançar no futuro o alto da colina. Philip Roth escrevia em Pastoral americana sobre uma conversa entre as personagens Nathan Zuckerman e Jerry Levov em que este comenta que “a sala de cirurgia transforma a gente em uma pessoa que nunca está errada”, a...