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Sergio Leone – entre a fábula e a história

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Por Davi Lopes Villaça frame de O Bom, o Mau e o Feio  (1966) Ao analisar o filme Shane , num texto para este mesmo blog, observei um fato bem conhecido a respeito dos clássicos faroestes americanos: neles, Bem e Mal constituem muitas vezes categorias históricas. Vilões são aqueles que atrapalham a chegada do progresso; heróis, os que lhe permitem seguir seu curso “natural”. É grande a diferença com relação ao universo retratado pelo italiano Sergio Leone em seu faroeste spaghetti. Herdeiros do cinema americano, do qual foram tanto a homenagem quanto a sátira, seus filmes diferem-se dele, entre outras coisas, por uma abordagem bastante diferente da história. A ação de O Bom, o Mau e o Feio (1966) se passa no contexto da Guerra Civil Americana (1861-1865). Não é necessária uma percepção maniqueísta do conflito para simpatizar com o lado vitorioso, com o Norte progressista, em oposição ao Sul escravocrata. Mas Leone não só não fez desta uma história de moc...

Feridas que são espinhos

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Por Rebeca García Nieto Se Milena Jesenská foi a navalha sobre a qual Kafka, em alma, se lançou, para o poeta Georg Trakl, esse papel foi desempenhado por sua irmã. Como Kafka e Milena, Georg e Grete se amaram por correspondência; mas ao contrário deles, as palavras não foram suficientes. Segundo se diz, seus primeiros contatos físicos foram tão intensos que nenhum relacionamento subsequente com outras pessoas conseguiu estar à altura. Boa parte de Blesse, ronce noire – um magnífico romance de Claude Louis-Combet que recria a relação incestuosa dos dois irmãos – está centrado precisamente nas cartas que trocaram por anos e que desapareceram misteriosamente depois da morte do poeta. O livro não possui nenhuma pretensão biográfica e o autor se permitiu algumas licenças. Por outro lado, não se sabe ao certo qual foi a verdadeira extensão do relacionamento entre Georg e Grete. Os depoimentos daqueles mais próximos a eles são contraditórios¹ e, embora alguns especialista...

As heroínas de Jane Austen

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Por Virginia Higa Vamos propor um desafio de leitura: encontrar uma cena em algum romance de Jane Austen em que dois ou mais homens conversem sem uma mulher assistindo aos eventos. Será difícil, até impossível, porque nos romances desta escritora inglês, sobre a qual tudo já foi dito, só parece existir uma história se uma personagem feminina estiver como testemunha do que acontece. Essas personagens assumem formas diferentes, são as famosas heroínas austenianas e também suas amigas, irmãs, parentas, conhecidas e rivais. O papel dessas mulheres é duplo no mundo da ficção; não são apenas personagens, mas emprestam olhos e ouvidos a uma autora que escreveu apenas sobre o que conhecia verdadeiramente. Jane Austen nasceu em 1775 e viveu um período de transição entre duas formas do romance. Os seus parecem mais com sátiras sociais e comédias de costumes do século XVIII diferente dos romances do romantismo e do século seguinte. Tudo foi dito sobre ela, é verdade, mas não é ...

Boletim Letras 360º #344

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Este boletim deveria iniciar dizendo sobre a realização do sorteio no nosso Instagram no último dia 20 de setembro, mas, três dias antes, as duas páginas (a desta rede social e do Facebook) estiveram com problemas: não se deixavam atualizar e quando isso acontecia não carregava nenhum tipo de imagem. As coisas só normalizaram no fim da tarde de ontem, mas já havíamos adiado o fim da promoção. Bom, até a publicação deste boletim, os leitores do Letras no IG saberão que realizaremos o sorteio no fim do domingo, 22. Se até lá, você encontrou esse BO e ainda não participa da promoção, tem chance de  se inscrever. Sorteamos um exemplar de O quarto de Jacob , a belíssima edição com tradução nova proposta pela parceira Autêntica Editora. Recado dado, abaixo encontra as notícias que passaram durante a semana em nossa página no Facebook. Boas leituras! Livro coloca leitor brasileiro ante as memórias de Herta Müller. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 16 de set...

Do porquê sou professor e não “ensino” gramática

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Por Rafael Kafka Uma das coisas mais curiosas com que me deparo em meu cotidiano de professor há dez anos são as pessoas as quais pensam poder me dizerem como devo fazer meu trabalho. Não há mal algum em opinar sobre qualquer assunto e a carreira de educador deve ser a mais aberta possível para debates sobre metodologia e currículo. Todavia, fico impressionado com a quantidade de pessoas que se sentem no direito de proferir este ou aquele juízo sem ao menos se prontificarem a criar um arcabouço teórico mínimo, o qual garantiria um debate ético, limpo e com objetivo construtivo. Dentro desse mal maior há outros menores. Percebo que pessoas ligadas às áreas de ciências humanas e de linguagem sofrem mais com isso. Professores de ciências exatas e naturais ainda contam com o estatuto de “científico” a seu lado e sofrem, ao que me parece, menos questionamentos no tocante ao que ensinam e como ensinam. Humanidades e linguagens parecem o tempo todo serem confundidas com meras ...

Serotonina, de Michel Houellebecq

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Por Pedro Fernandes Michel Houellebecq é, sem dúvidas, um dos romancistas contemporâneos com melhor faro para dizer sobre o longo período de intermitência para o fim dessa civilização. Não são poucos os escritores que ocupam esse lugar, mas o francês tem uma vantagem própria: está entre os mais originais pela precisão com que consegue capturar no interior da volubilidade ou da multiplicidade das questões o ponto fundamental capaz de nos colocar frente a frente com a versão mais amarga e cruel de nós mesmos. Por essa razão, sua obra é sempre de inquietação e marcada por uma leitura que coloca todo o projeto civilizatório, sobretudo o estágio vigente cujas provas estão por toda a parte, em suspeição. Ou melhor, o compreende como o maior dos nossos fracassos e a pior das nossas covardias. Fracasso porque nem mesmo toda beleza do que criamos é capaz de vencer o mal e a barbárie que praticamos; covardia, porque, apesar de sabermos as soluções para o mal e a barbárie, continuam...