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Maldição e dessacralização: elogio da realidade em Angiolieri e Pasolini

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Por André Cupone Gatti Pier Paolo Pasolini. Foto: Dino Pedriali   I. O termo “poète maudit” surgiu séculos após a morte daquele que o inspirou. Aceita-se que foi Alfred de Vigny, em pleno romantismo, o primeiro a empregar a expressão, ao se referir ao poeta francês do fim da Idade Média, François Villon, na sua obra Stello . Ao discutir os problemas da relação entre os poetas e a sociedade, o romantismo conferiu um significado inflamado ao “poeta maldito”, personagem trágico, desventurado e errante, à beira da loucura. Paul Verlaine, ainda no século XIX, revitalizou o termo, ao inseri-lo no contexto dos poetas finisseculares de inclinação simbolista e decadentista. Ainda personagens desventurados, mas não tão trágicos como inicialmente, os “poètes maudits”, no entendimento de Verlaine, eram aqueles obscurecidos e incompreendidos no meio literário, provocativos no comportamento e muitas vezes herméticos no estilo. Corbière, Rimbaud e Mallarmé foram os principais paradigmas do poeta ...

Ricardo Piglia em busca do tempo perdido

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Por Patricio Pron Ricardo Piglia. Fotograma do documentário 327 Cuadernos , de Andrés Di Tella   “Gostaria de editar este diário em sequências que sigam as séries de acontecimentos”, escreve Ricardo Piglia: “todas as vezes que me encontrei com amigos em um bar, todas as vezes que fui visitar minha mãe. [...] Não uma situação despois da outra, senão uma situação igual a outra”. A doença degenerativa que foi diagnosticada três anos antes de sua morte em 2017 impediu o escritor argentino de dar forma a esta tentativa pereciana de esgotar a experiência; porém, alterar o que seu autor denomina “a causalidade cronológica” é um dos propósitos mais habitualmente repetidos ao longo de Los diarios de Emilio Renzi , cujo terceiro e último volume permite agora vislumbrar o que Piglia poderia ter feito com seus diários se tivesse obtido um adiamento da sentença: em sua segunda seção, “Un día en la vida” [“Um dia na vida”], o autor ordena as situações narradas ao longo de vários anos em u...

Boletim Letras 360º #415

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DO EDITOR   1. Saudações, leitor! Na segunda-feira, 25, retornamos com as postagens diárias aqui no blog. E com este Boletim, as seções criadas há algum tempo que acrescentam outras atividades, além das informativas: as dicas de leitura; vídeos, versos e outras prosas; e baú de letras.   2. Termina no dia 1º o prazo para o envio de candidaturas para ser um dos colunistas no Letras. Você que guarda interesse para tanto, saberá todas as informações necessárias neste endereço . Os resultados devem sair até o final de fevereiro.   3. Ainda sobre a seleção referida acima, nesta semana, foi disponibilizada em nossa página no Facebook uma post com respostas às três dúvidas mais frequentes entre os leitores. De repente, pode ser também a sua. Então, informe-se aqui . Se ainda restar alguma questão, basta escrever ao blog através do correio eletrônico blogletras@yahoo.com.br ou nas nossas redes: Instagram, Facebook ou Twitter.   4. Espero que você se encontre são e seguro. ...

Peixe-frito: o nome e o sensível para a diáspora

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  Por Wagner Silva Gomes Em Os vivos, o morto e o peixe-frito (2014) o contexto de uma fila de repartição pública que resolve assuntos documentais de cidadania reúne a diáspora africana com moradia em Portugal, estando principalmente, os nascidos em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, enfim, pessoas de países de Língua Portuguesa.  Nesse cenário é derrubado o muro que separa palco e plateia, arte e vida real, como na estética do oprimido, de Augusto Boal, em que todos, como agentes sociais, produzimos também efeito sensível sobre a vida.   Na fila a dificuldade burocrática só é superada pelo sensível, da convivência entre as pessoas, que ali criticam a vida em Portugal, as dificuldades, com bom astral, ora gozando do modo do português falar, ora apontando para os absurdos de exigências, como o caso da mãe que para ter um filho registrado como português além de ter que morar seis anos em Portugal e ter que mostrar a comprovação disso, não podendo faltar um dia, tem que ter...

Desvio, de Juan Francisco Moretti

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Por Pedro Fernandes Juan Francisco Moretti. Foto: Martín Lucesole.   A narrativa de Desvio inicia com uma sentença que, dispersa num episódio de total desorientação do narrador e personagem, funciona como se um marco de orientação para este jovem quase tragado pela força das circunstâncias: “Abre os olhos, Nicolás, ele vai te matar.” No final, a força reativa do chamado é ainda um eco e se amplifica para fora da narração ao ponto de se integrar na apalermada consciência do leitor. Sim, este romance é um chamado. Sem subterfúgios, sem meios-termos, por vezes visceral, desbocado, alucinado, feito de uma urgência necessária; não é um piparote mas um soco, qual o tomado por este Nicolás que, num ímpeto de fúria, rompe com os limites da domesticação, e avança para o homem de qualidades reprováveis, o tipo-gado que, mesmo depois de tantas circunvoluções terrestres, sente-se autorizado para o insulto racista, vil, da mesma ou pior violência que a atitude homicida despertada do asco ao qu...

Lendo o escuro é que encontramos a luz

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Por Tiago D. Oliveira Ana Luísa Amaral. Foto: Eduardo Martins.   Lendo Escuro , de Ana Luísa Amaral, encontramos a inegável influência de Fernando Pessoa, como se a poesia desse acesso a uma nova forma de convivência com o poeta. Assim como a presença do um tempo e espaço históricos de Portugal e da Europa. Há também releituras e reinvenções imaginativas que passam por outros nomes da literatura e da história. Ela consegue esse alcance; é o que vibra quando a leitura de cada poema chega ao fim. A presença de diversas vozes coloca-se também como parte definidora da razão deste livro, que apresenta um cotidiano como tema para diversos poemas, mas reflete sobre a própria literatura, o mundo e sobre o indivíduo, pontos que são desenhados diante de um contínuo desconforto, uma certa inquietude, ou a palavra mais oportuna a definir o percurso, desassossego. Diante desta constatação, percebemos a grandeza da poeta e de seus versos regados pela presença viva de uma herança que se coloca co...