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Boletim Letras 360º #459

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, falta pouco e divulgamos quais os três títulos da Pontoedita disponíveis para o sorteio no segundo bimestre do nosso clube de apoios. Aliás, dois deles, porque um aparece recomendado neste Boletim. Leia e já saberá.   2. Para 2022, nosso ano de debutante, pensamos uma série de coisinhas para os leitores fora do clube e que são especiais para nós tanto quanto. Falamos de alguns sorteios avulsos. Acompanhe o blog em todos os recantos da web . Enquanto isso, você pode se inscrever nas promoções aqui realizadas. Saiba como aqui .    3. Obrigado por sua companhia e pela disseminação do nosso trabalho. A seguir parte das notícias que circularam em nossa página no Facebook e outras mostradas primeiramente por aqui. Cecília Meireles. Publica-se livro com inéditos da poeta.   LANÇAMENTOS   Um catálogo a altura da exposição dedicada a Clarice Lispector .   O Instituto Moreira Salles publica Constelação Clarice . Organi...

Futebol de literatura periférica

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Por Wagner Silva Gomes Ilustração: Giovanna Jarandilha.    Pasolini, escritor, poeta e cineasta italiano, escreveu em 1971 o ensaio intitulado “O futebol”. Nele o escritor analisa as diferenças entre o que ele chama de futebol de prosa (cerebral, esquemático, técnico) e futebol de poesia (imprevisível, gingado, inventivo). Ele diz que o primeiro tipo de futebol tem mais a ver com a realização europeia e o segundo com a realização latino-americana, mais especificamente a brasileira. Refiro-me a Pasolini pra trazer a minha constatação de que há um futebol de literatura periférica (esquemático e imprevisível; cerebral e gingado; técnico e inventivo) que, para além dos gêneros literários narrativo e lírico, é realizado por uma literatura em que as palavras e frases são pensadas, enchidas, energizadas, por construtos estéticos-sociais (escola de samba, dança de quadrilha, futebol, capoeira, música, principalmente o rap, a cultura hip-hop em geral etc.) realizados e exercitados fort...

Mãe, de Hugo Gonçalves

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Por Pedro Fernandes Hugo Gonçalves. Foto: Manuel Manso. Caso curioso o do romance, descrito algumas vezes como a forma mais instável da prosa. E isso é notável quando encontramos livros que assim se designam sendo apenas o romanesco enquanto possibilidade. Mãe , de Hugo Gonçalves, que por razões óbvias recebeu um título diferente do original no Brasil — em Portugal, saiu como Filho da mãe — é um desses casos. Trata-se do itinerário de um escritor às voltas por reconstituir a memória da mãe que morreu vitimada de um câncer quando ele ainda criança. A obsessão por essa ideia assume direções variadas e a de descrevê-la se demonstra nascer, primeiro como silêncio e fuga, e depois como fala e compreensão do acontecido, a história possível. Esses dois movimentos fundem-se e oferecem o conteúdo do livro, mas o conteúdo procurado, este se realiza — e daí porque falamos de um romance enquanto possibilidade — apenas como imaginação. Agora, não será isso mesmo um romance, o vivido perspectivado?...

Rubén Darío e o destino político da lírica americana

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Por Edgardo Dobry   Toda uma fase da obra de Rubén Darío, e mesmo de toda a poesia latino-americana, tem como pórtico um parágrafo do ensaio que José Enrique Rodó publicou em Montevidéu em 1899 intitulado “Rubén Darío, sua personalidade literária, sua última obra”:   “A poesia inteiramente antiamericana de Darío também produz certo efeito de descontentamento, ao se destacar no pano de fundo, ainda sem expressão e sem cor, de nossa Cosmópolis americana, toda feita em prosa. Incenso de boudoir que pretende ser diluído numa baforada de fábrica; pó de ouro parisiense o novaiorquismo portenho” (p. 37).   O léxico de Rodó é levemente agressivo: ofende precisamente pela estudada suavidade do “incenso de boudoir ” e do “pó de ouro”. Essa acusação condensava parte do que Juan Valera já havia dito sobre ele (“Vejo, então, que não há autor em castelhano mais francês do que você”), Clarín (“Coloridos e trombetas”) e Unamuno (“Eternismo e não modernismo é o que eu quero”) em termos e...

O poeta que inspirou a pirataria

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Por Martín Sacristán Protegido da noite que me encobre, Escura como o vão entre os mastros, Eu agradeço a quaisquer deuses que acaso existam Por minha alma inconquistável. Nas garras das circunstâncias, Não estremeci ou chorei em voz alta. Sob os golpes do acaso Minha cabeça sangra, mas não curvada. Além deste lugar de ira e lágrimas, Agiganta-se o horror das sombras, E, ainda assim, a ameaça dos anos Me encontra, e me encontrará, sem medo. Não importa quão estreito seja o portão, Quão cheio de punições o pergaminho, Eu sou o mestre do meu destino, Eu sou o capitão da minha alma.¹ William Ernest Henley, 1899. Arquivo Constable and CO. Ltd.ª Nelson Mandela, preso por defender o fim do racismo na África do Sul, repetiu os versos deste poema durante vinte e sete anos. De acordo com sua biografia, suas palavras o ajudaram a tolerar seu longo confinamento. Lidas no contexto de uma prisão, qualquer prisão, adquirem um significado profundo, ainda maior se, como o líder sul-africano, alguém fo...