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No Brasil, ninguém lê Pagu!

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Por Renildo Rene Registros fotográficos de Pagu descobertos em dossiês da polícia francesa revelados pela escritora Adriana Armony.   Exatamente 100 anos depois da Semana de Arte Moderna me dirijo à biblioteca da minha universidade, procuro por um exemplar de Parque Industrial e acho somente um único exemplar. Ele está em ruínas, despedaçado e segundo consta minhas pesquisas é uma edição particular de 1933, quase centenária que nem a semana. Não observo nenhum cuidado para que sequer a obra seja enviada para o acervo especial de preservação.¹   A verdade é que com o centenário do pontapé inicial do modernismo brasileiro, estou estudando os desdobramentos desse movimento e suas vertentes nos anos posteriores; a disciplina é Literatura Brasileira e junto com a docente e a turma, me debruço sobre as linguagens transformadoras dos Andrades — o Oswald e o Mário —, os romances ditos engajados no decênio de 1930 e todo aquele cenário efervescente que movimentava o país no século XX...

Todos os santos, de Adriana Lisboa

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Por Gabriella Kelmer Talvez seja lugar-comum introduzir um romance da escritora Adriana Lisboa pontuando sua prosa de alto teor lírico, em que encadeamentos simbólicos dão força motriz às narrativas, e ainda assim é preciso fazê-lo. Enquanto leitora, persiste, em mim, na leitura de suas obras, a impressão latente de uma compreensão a ser obtida na junção e repetição de imagens e afetos; de segredos que persistem nas dobras da linguagem, apenas ligeiramente fora de alcance. A borboleta sobre a pedreira de Sinfonia em branco , a sensação à beira-mar no Rio de Janeiro em Azul corvo , os corpos d’água de diferentes continentes de Todos os santos : de repente, uma coisa esbarra em outra, em um outro momento, e os espaços, perdas e traumas subitamente se interligam, indicando concatenações que sugerem menos a unicidade das diversas temáticas abordadas do que o árduo trabalho interpretativo de narradores sensíveis e ordenadores.   Todos os santos , lançado em 2019, é o romance mais recent...

Boletim Letras 360º #524

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DO EDITOR   1. Duas novidades para abrir a edição 521 do Boletim Letras 360º: na semana seguinte, você conhecerá os quatro novos colunistas que enriquecerão os nossos trabalhos; e no dia 7 de março, o nome dos dois ganhadores do sorteio entre os apoiadores do Letras .   2. Para o sorteio, você pode enviar sua inscrição. Disponibilizamos Lições , de Ian McEwan (Companhia das Letras) e Aniquilar , de Michel Houellebecq (Alfaguara). Para registrar seu apoio é simples. Basta enviar a partir de R$20 através do PIX blogletras@yahoo.com.br e em seguida fornecer o comprovante por este mesmo endereço de e-mail. Se quiser outros detalhes, acesse aqui .   3. Outra forma de apoio a este projeto é a aquisição de qualquer um dos livros apresentados pelos links ofertados neste Boletim ou mesmo qualquer produto que você adquirir online usando este link .     4. Um rico fim de semana para todos nós! Gertrude Stein. Foto: Man Ray.   LANÇAMENTOS   Chega ao Brasil o lo...

A limpeza de Roald Dahl

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Por David Rieff Roald Dahl. Foto: Dmitri Kasterine   A revelação de que as obras do famoso escritor de livros infantis Roald Dahl, reconhecido por Matilda , A fantástica fábrica de chocolate e As bruxas , foram sistematicamente expurgadas de linguagem que poderia ser considerada ofensiva para a sensibilidade da burguesia esclarecida da anglosfera provavelmente não deveria ter sido uma surpresa. A nossa não é apenas a segunda grande era de Bowdlerização, e as semelhanças entre os argumentos que Thomas, Jane e Henrietta Bowdler ofereceram quando apresentaram The Family Shakespeare em 1807 e aqueles agora oferecidos pela Random House/ Penguin’s Puffin Seal e Roald Dahl Estate para a completa desfiguração e “saneamento” moral da obra de Dahl são virtualmente indistinguíveis uma da outra.   Em ambos os casos, o objetivo declarado não foi relegar Shakespeare ou Dahl à lata de lixo da história (literária), mas salvar cada um desses autores de um tão ignóbil destino editando e reesc...

A vida futura, de Sérgio Rodrigues

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Por Pedro Fernandes Sérgio Rodrigues. Foto: Bel Pedrosa.   A biografia e a obra de Machado de Assis se transformaram num extenso manancial onde poetas e prosadores visitam com alguma frequência e dele retiram substrato para suas criações. E isso é uma das qualidades que nos leva a colocar o escritor brasileiro numa camada do imaginário por onde circulam os elementos que resultam no mito. Claro, não o mito enquanto entidade superior, impenetrável e por isso mesmo sinonímia de falsidade como a que se empregou corriqueiramente no Brasil para designar certo político, mas aquela substância imaterial que participa livremente das nossas vidas, entidade porosa e portanto matéria em contínua expansão, verdade indissociável de uma cultura.   O romance de Sérgio Rodrigues é uma peça extremamente sensível porque captura esse instante de transmutação cujas primeiras evidências só agora começam a se demonstrar melhor. O escritor que se fez reconhecido por O drible (2013) e também pela recr...

Tár não critica o poder, defende-o

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Por Alonso Díaz de la Vega   Martin Scorsese disse que quando viu Tár (2022), as nuvens negras dos céus cinematográficos se dissiparam. Perante um filme tão definido pela técnica e pela contemplação do tempo e do espaço, sentiu a esperança no futuro das imagens, normalmente abafadas pela homogeneidade e simplicidade da indústria contemporânea. Há quem sinta o contrário. Não posso falar por todos, mas a fé do nosso Marty me parece um sintoma de desespero num momento em que a distribuição cinematográfica rejeita a diversidade outrora proporcionada pelo sucesso de Michelangelo Antonioni — o radical Blow-up (1966) foi um dos dez filmes mais assistidos nos Estados Unidos quando foi lançado — ou de Federico Fellini — contaram-me a história de que a épica gay Satyricon (1969) chegou a uma pequena cidade, onde causou estragos na comunidade. O mais próximo que chegamos disso são as aventuras decididamente industriais complacentes, embora louváveis, do cinema coreano, enquanto filmes genui...