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Boletim Letras 360º #531

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    DO EDITOR   1. Olá, leitores, desde há um mês, seguindo o curso do itinerário interminável da nossa colonização virtual, estamos com um grupo no Telegram. É neste espaço que agora chegam, em primeira mão, as novidades sobre as novas entradas no blog.   2. Mais que seguir o curso da manada, a estratégia de chegarmos ao Telegram é a de estender nossa proximidade e, claro, manter em alguma medida o convívio que se torna sempre mais impraticável nas redes sociais. Já repetimos muito o convite nos demais lugares online, mas refazemos neste espaço. Se quiser estar conosco, basta entrar aqui.   3. Num futuro não muito longe, queremos preparar sorteios exclusivos com alguns livros maravilhosos para os leitores neste espaço ou expandir as vantagens do nosso clube de apoios. E, falando nisso, saiba todas as formas de ajudar o Letras com as despesas de hospedagem e domínio online neste endereço.  4. Uma delas é a aquisição de livros pelos links ofertados neste B...

Uma pequena observação sobre os romances de Rubem Fonseca

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Por Bruno Botto Rubem Fonseca. Foto: Fernando Pimentel. Arquivo revista Veja.   Os romances históricos de Rubem Fonseca (1925-2020) tinham o costume de voltar no tempo e nos ensinar algo. Claro, a função do romance histórico por natureza pode ser educacional ou até mesmo beirar a ficção especulativa. Por ser um autor recluso e de poucas palavras sobre os seus livros, fica difícil realmente reconhecer o que significavam os recortes temporais escolhidos pelo escritor brasileiro para contar em determinado livro. Mas juntando os cacos sobre a vida do autor, a breve história de nosso país e como a literatura pode ser moldável, ofereço aqui uma análise compreendendo três de seus romances históricos: Agosto , O selvagem da ópera e José .     Agosto foi lançado em 1990 e talvez seja o romance mais celebrado do autor. No livro, somos transportados para a ebulição política deste mês de 1954: Getúlio Vargas está vacilante no seu cargo e o destino do país se divide entre getu...

Mánasteinn, o menino que nunca existiu, de Sjón

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Por Pedro Fernandes Sjón. Foto: Dagur Gunnarsson   Tornou-se comum dizer da ausência de personagens na literatura capazes de permanecer conosco como figuras que rompem o limite da ficção e passam ao nosso convívio como as nossas criaturas de carne e osso. Sjón contraria o que parece se afirmar como uma recorrência e nos oferece uma dessas criaturas: Máni Steinn.   É caso ardilosamente pensado, como é sempre na arte. O jogo ficcional disposto pelo romance com essa figura começa desde um título que a princípio registra o que parece uma versão oralizada do nome próprio do protagonista: Mánasteinn . Entre uma forma e outra, o romancista desvincula sua personagem de uma condição material transformando-a em matéria simbólica. Não é, portanto, apenas uma criatura que se distingue no plano narrativo pela ação. Sua natureza a insere no plano das significações.   Sendo o islandês em relação ao português uma língua perfeitamente integrada à lista daquelas complexidades que só uns m...

Picasso no cinema: dois mistérios

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Por Fernanda Solórzano Le Mystère Picasso . Henri-Georges Clouzot (1956)   Com alguma suspeita, mas derrotados pelas evidências, vários historiadores e acadêmicos aceitaram que os filmes do gênero histórico têm um alcance e impacto muito maiores do que os livros. (Estes últimos, mais rigorosos e livres da exigência de agradar ao público, algo que se impõe ao cinema de grandes orçamentos.) Um dos impulsionadores da ideia de que, em vez de ignorá-los, os especialistas deveriam dialogar com os filmes sobre acontecimentos passados ​​— e, se necessário, apontar suas imprecisões — foi o historiador Robert A. Rosenstone, que em 1989 criou uma seção de filmes na American Historical Review , que editou por cinco anos. Num texto intitulado “The historical film as real History” ( Film Historia , v.5 n.1, 1995) Rosenstone reflete sobre sua experiência como editor daquela seção e chega a uma conclusão contundente: o único cinema histórico que vale a pena levar em conta é aquele que dá ao espect...

Antonin Artaud: entre a arte e a loucura

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Por Ricardo Marín Antonin Artaud. Foto: Man Ray.   “Toda escrita é porcaria”, expressou Antonin Artaud em “O pesa-nervos”, um texto singular de prosa poética, um híbrido central para a obra de Artaud, em que a conformidade com um estilo único não é suficiente. Como bem pode revelar a citação inicial, o conformismo em geral não agrada a Artaud, um referente vanguardista do século XX dedicado à escrita, ao pensamento e às artes, conceitos que detestava na sua forma convencional, apesar de se dedicar a eles. Esta perturbação não é gratuita, uma vida de saúde mental instável, agravada por intensas dores de cabeça ao longo da vida, bem como a dependência de vários entorpecentes e drogas, fizeram dele uma figura atormentada que, curiosamente, se tornou um fiel reflexo do século em transição.   Para falar de Antonin Artaud, é importante mencionar — mesmo antes de contextualizar — que suas maiores aproximações não são por meio de sua obra, mas por meio de suas ideias e, principalment...

Adeus, meu autor!: uma despedida para Kenzaburo Oe

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Por Cláudia Ayumi Enabe Kenzaburo Oe. Foto: Jeremie Souteyrat. Ainda há muito a ser escrito sobre Kenzaburo Oe (1925-2023), ainda mais por leitores e críticos brasileiros que se disponham a recepcionar e interpretar o nexo entre a escrita política e a autobiografia, tão cuidadosamente articulado pelo escritor que transformou a “questão pessoal” ( Uma questão pessoal , 1964) em uma imagem de expectativas que devem ser reinventadas para se imaginar novos tempos ( Jovens de um novo tempo, despertai! , 1983). Pouco antes do anúncio de falecimento, a Estação Liberdade divulgava o lançamento de Adeus, meu livro! , romance que compõe uma espécie de trilogia, formada também por A substituição ou as regras do Tagame (2000) e Morte na água (2009).   A mensagem que se sugere por essa dupla despedida não poderia ser mais adequada a Oe: o escritor, ao se despedir do livro, também parte, restando ao leitor dialogar internamente com as ressonâncias da obra, tal qual Kogito Choko, alter ego de...