Postagens

Cem anos de Fervor de Buenos Aires

Imagem
Por Fernando García Ramírez Capa da 1.ª edição do que ficou sendo o primeiro livro de Jorge Luis Borges.   Depois da Primeira Guerra Mundial, que passou na Suíça com a família, Jorge Luis Borges chegou à Espanha em 1919, aos vinte anos, onde conheceu os jovens poetas do Ultraísmo. Em Madrid passou a frequentar com regularidade a tertúlia de Ramón Gómez de la Serna. Alguns anos depois, em 1924, o grande mestre da greguería escreveu ao receber o primeiro livro de poemas do jovem argentino: “Todo este livro, escrito… com uma dignidade e uma desenvoltura que me fizeram tirar o chapéu para Borges com esta saudação até ao chão.”   O livro diante do qual Gómez de la Serna se descobre é Fervor de Buenos Aires , publicado pela Imprenta Serantes, com desenho na capa de Norah Borges, em 1923, há cem anos (imagem). A Random House está prestes a publicar uma edição comemorativa e algumas editoras argentinas estão preparando dois livros de ensaios separados para comemorar o centenário deste...

A beleza do canibalismo em Até os ossos

Imagem
Por Alonso Díaz de la Vega   Luca Guadagnino é para mim um dos grandes mistérios do cinema contemporâneo. Eu me pergunto, por um lado, se ele é um narrador radical que evita deliberadamente explorar os temas em seus filmes ou se, ao contrário, ele é um diretor anedótico, mal disfarçado por alusões temáticas e formais. Existem bons argumentos para ambas as possibilidades, mas gostaria de desenvolvê-los antes de chegar a uma conclusão sobre Até os ossos (2022), seu filme mais recente, porque embora eu inevitavelmente me incline para uma possibilidade, às vezes acho difícil ignorar a outra.   Tomemos seu filme mais famoso, Me chame pelo seu nome (2017), que em sua estreia me pareceu muito focado em contar uma história sutilmente significativa, ou seja, sua trama sobre um adolescente em plena descoberta da sexualidade e do amor na Itália, procurava acima de tudo comover o público, mas parecia ter algo a dizer sobre a beleza. A falta de jeito, as descobertas e a experiência masc...

Vida indiscernível: ensaio sobre uma novela de Anton Tchekhov

Imagem
Por Wesley Sousa O que é feito com arte é sempre novo — Tchekhov A literatura de Anton Tchekhov (1860-1904) é uma experiência literária única. Seus inúmeros contos, novelas e peças constituem um universo que apenas ele pode proporcionar com tamanha magnitude e o zelo pela simplicidade sem cair na superficialidade. Dispensável dizer, porém, que ele compõe o rol da vasta e intensa produção literária russa, com nomes de escritores, poetas e dramaturgos da estatura de Liev Tolstói, Fiódor Dostoiévski, Aleksandr Púchkin, Ivan Turguêniev, Nikolai Gógol, Nikolai Leskov, Maksim Górki, Vladímir Maiakóvski, dentre tantos outros.   Sua diplomação universitária adveio da formação em Medicina. Com o passar do tempo, a atividade de escritor acabou sendo cada vez mais importante na vida do jovem médico, e daí veio a se transformar na sua principal ocupação. De fato, não nasceu de uma família rica ou aristocrática, como foi o caso de Tolstói ou Turguêniev, mas também pôde, mesmo com dificuldades,...

Púchkin: A filha do capitão e Evguiêni Oniéguin — formação e cisão

Imagem
Por Joaquim Serra Púchkin. Pintura: Vasily Tropinin   A filha do capitão é um ótimo exemplo do encontro profícuo entre literatura e história. Boris Schnaiderman, em Os escombros e o mito , escreveu que não se trata da sujeição de uma à outra, mas de reconhecer a importância do limite entre elas. O ponto alto desse encontro, segundo o crítico, é Dostoiévski em Escritos da casa morta , romance em que o autor se baseia em sua experiência carcerária na Sibéria. Continuando essa tradição do romance de cárcere, no período soviético, Soljenítsin revelou “a ponta do iceberg” — segundo o crítico — da vida no Gulag, enquanto Chalámov foi além, ao repensar os limites dos gêneros literários para descrever eventos históricos. A seguir, vamos tratar de aspectos mais formais das duas obras de Púchkin, já que ambas as traduções estão muito bem ancoradas por paratextos contextuais.   A revolta de Pugatchóv havia sido objeto de estudo de Púchkin. Na tentativa de se tornar o novo tsar, Emilian ...

Boletim Letras 360º #531

Imagem
    DO EDITOR   1. Olá, leitores, desde há um mês, seguindo o curso do itinerário interminável da nossa colonização virtual, estamos com um grupo no Telegram. É neste espaço que agora chegam, em primeira mão, as novidades sobre as novas entradas no blog.   2. Mais que seguir o curso da manada, a estratégia de chegarmos ao Telegram é a de estender nossa proximidade e, claro, manter em alguma medida o convívio que se torna sempre mais impraticável nas redes sociais. Já repetimos muito o convite nos demais lugares online, mas refazemos neste espaço. Se quiser estar conosco, basta entrar aqui.   3. Num futuro não muito longe, queremos preparar sorteios exclusivos com alguns livros maravilhosos para os leitores neste espaço ou expandir as vantagens do nosso clube de apoios. E, falando nisso, saiba todas as formas de ajudar o Letras com as despesas de hospedagem e domínio online neste endereço.  4. Uma delas é a aquisição de livros pelos links ofertados neste B...

Uma pequena observação sobre os romances de Rubem Fonseca

Imagem
Por Bruno Botto Rubem Fonseca. Foto: Fernando Pimentel. Arquivo revista Veja.   Os romances históricos de Rubem Fonseca (1925-2020) tinham o costume de voltar no tempo e nos ensinar algo. Claro, a função do romance histórico por natureza pode ser educacional ou até mesmo beirar a ficção especulativa. Por ser um autor recluso e de poucas palavras sobre os seus livros, fica difícil realmente reconhecer o que significavam os recortes temporais escolhidos pelo escritor brasileiro para contar em determinado livro. Mas juntando os cacos sobre a vida do autor, a breve história de nosso país e como a literatura pode ser moldável, ofereço aqui uma análise compreendendo três de seus romances históricos: Agosto , O selvagem da ópera e José .     Agosto foi lançado em 1990 e talvez seja o romance mais celebrado do autor. No livro, somos transportados para a ebulição política deste mês de 1954: Getúlio Vargas está vacilante no seu cargo e o destino do país se divide entre getu...