Postagens

Desculpe-me, mas literatura não é o que eu quero que seja literatura

Imagem
Por Pedro Fernandes  Jonathan Wolstenholme, A Literary Joust . 1. No auge da vida social na internet fui um opinador contumaz: dos costumes, da política, da literatura e das artes que mais frequento. Um mal crônico iniciado quando comecei a frequentar as colunas de opinião nos jornais — muita coisa desse período, aliás, passou para este blog; talvez eu deva admitir que a existência deste espaço é uma prova viva desse meu público e desnecessário  mea culpa .  Quando me centrei nos estudos literários, quando a vida prática passou a exigir mais tempo que a nossa disponibilidade diária para a reflexão, quando se instalou a terrível crise da leitura vivida neste século de escravidão silenciosamente imposto pelas redes sociais, quando as opiniões políticas ganharam o estatuto de diálogo surdo de animais, optei por me aquietar. Uma decisão sensata, admito toda vez que leio e passo ileso a um assunto útil à minha inútil opinião. Vez ou outra, na dificuldade dessa minha incontinê...

És tu, Kafka?

Imagem
Por Carlos Rodríguez Ele não era tão estranho ou excêntrico. Também não era feio nem bonito. Não era excessivamente sedutor ou interessante. O retrato rompe com a imagem de um homem perturbado, solitário e deprimido. Já à primeira vista, o Kafka que Joel Basman retrata na minissérie austríaca de David Schalko é decepcionante. Ao vê-lo, perguntamo-nos: será este o autor de A metamorfose ? Não diziam que ele era a criatura mais estranha de Praga ou, segundo outras versões, um jovem de pele morena, atlético e sedutor? É preciso ver este Kafka sob a luz, uma luz inesperadamente pálida e resplandecente para reconhecer que, mesmo no meio da sua vida, vivia o claro-escuro excepcional que alimentava a sua obra. A estética de Kafka (2024) evoca as imagens estáticas de René Magritte, um mundo diáfano que não deixa de ser perturbador. A imaginação do escritor é evidente na abundância de luz e cor. Por exemplo, uma janela de escritório, como um espelho, repete indefinidamente o funcionário à máqu...

A forja de Eneias

Imagem
Por Juliano Pedro Siqueira “A sorte favorece os destemidos.” —  Virgílio, 70 a.C-19 a.C  Giacomo del Po. A luta entre Eneias e o rei Turno . A Eneida é considerada um dos épicos fundadores da cultura ocidental, tanto por sua urgente relevância histórica quanto por sua brilhante narrativa poética. Ao longo do tempo, tem servido de inspiração a vários autores, os quais bebem das suas límpidas e inesgotáveis fontes. Com este poema, Virgílio legou à humanidade uma notável epopeia. Assim como Homero concebeu Odisseu — narrando sua incansável batalha no regresso à Ítaca —, o poeta romano, por sua vez, deu vida ao herói Eneias, o guerreiro forjado pela fúria dos deuses e pelas ciladas perpetradas por ardis tiranos que segue firme na obstinada missão de apossar das plagas que viria ser o novo reino entregue aos descendentes de Ascânio.  Eneias é tomado por grandes virtudes. Na sua peregrinação infernal — que inclui a travessia do Estige ao encontro do velho pai Anquises —, perpa...

Best-sellers de outros tempos: Os Thibault, de Roger Martin du Gard

Imagem
Por Javier Pérez  Roger Martin du Gard. Foto: P. Delbo Quando falamos de romances-rio, ou verdadeiros monstros de longa extensão, geralmente pensamos naquelas obras russas do século XIX, ou em folhetins quase  intermináveis em que as personagens sofrem um bocado, estilo Charles Dickens, ou as em que o autor se esforça para descrever, por exemplo, os esgotos de sua cidade, como Victor Hugo faz na parte final de Os miseráveis . Mas essas espécies raras também apareceram no século XX, ainda que em seus primórdios, e são verdadeiros prodígios de exuberância, incontinência verbal e grafomania. Podemos citar, sem qualquer pretensão de sermos exaustivos, Marcel Proust e seu À procura do tempo perdido, publicado entre 1913 e 1927, ou A montanha mágica , de Thomas Mann, escrito entre 1912 e 1924 e mais curto que o romance francês. No entanto, apesar de contar com essas duas obras-primas de qualidade indiscútivel, o gosto da época pendia para autores mais acessíveis, como Roger Martin ...

Oito poemas de “O orvalho numa folha de lótus”, de Ryokan

Imagem
Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões)* I. regresso à aldeia onde nasci após vários anos de ausência: doente, entro na estalagem e fico a ouvir o cair da chuva um hábito, uma taça de pedinte –– é tudo o que tenho acendo incenso e esforço-me por meditar  toda a noite um som constante além da janela escura dentro de mim, pungentes memórias dos longos anos de peregrinação II. quando jovem, deixei os estudos e aspirei a ser santo vivendo como monge mendicante por muitas primaveras vagueei, aqui e acolá enfim retorno a casa, instalo-me debaixo dum pico rochoso vivo em paz numa cabana de palha escutando as canções dos pássaros as nuvens são os meus vizinhos em baixo, uma nascente pura onde refresco corpo e mente por cima, picos altaneiros e carvalhos que dão sombra e lenha livre, tão livre, dia após dia –– não mais desejo partir III.  o que é esta minha vida? errante, confio-me às mãos do destino por vezes sorrisos, por vezes lágrimas nem um leigo, nem um monge uma chuva primaveri...

Boletim Letras 360º #654

Imagem
DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras. Milton Hatoum. Foto: Wanezza Soares LANÇAMENTOS Neste último e extraordinário capítulo da trilogia O lugar mais sombrio , o autor dos premiados  Dois irmãos e  Cinzas do Norte acrescenta uma perspectiva nova à história, que faz com que a saga de Martim ganhe sentidos e lances imprevistos . Neste drama familiar, com forte pano de fundo histórico e político, estilo que consagrou Milton Hatoum, o tempo do amor, das perdas e dos enganos é o próprio tempo da ficção, que aqui surge em máxima potência através da voz trágica de uma personagem assombrosamente resiliente ― e absolutamente inesquecível. “É possível explicar ou entender certos sentimentos? [...] É preciso dar tempo ao passado.” Estamos no fim dos anos 1960. É Lina, mãe de Martim, quem nos conduz pelos desvãos da época. A distância em relação ao filho cresce no turbulento contexto d...