Doze poemas de Wendell Berry
Por Pedro Belo Clara
(Seleção e versões)*
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| Wendell Berry. Foto: Kate Mount |
CÂNTICO (para Robert Hazel)
(Broken Ground, 1964)
Não é isto o que a morte significa —
o espírito, triunfante na queda do corpo,
louvando a sua ausência, alimentando-se de música.
Se a vida não consegue justificar-se e explicar-se,
a morte não o poderá fazer.
Uma crença e um túmulo nunca igualaram a vida
do que quer que seja. Flores amarelas despontam nas fendas
de pedras antiquíssimas no começo de abril.
Os trajes negros dos sacerdotes voltam-se
contra o frágil amarelo da luz e das pétalas;
esperam na sua negritude obter alegria
pela morte. Confiam que nada de sagrado é gratuito,
e assim pagam pelas suas vidas. Caixas com ranhura
no gradeamento do altar são a jukebox do mundo,
a mente deixando moedas gastas em troca do conforto da ignorância.
POEMA DUMA NOITE DE INVERNO PARA MARY
(Farming: A Hand Book, 1970)
Começava a regressar a casa, depois do anoitecer,
olhei para o céu e vi a nova lua,
um velho homem com um cesto no braço.
Caminhava entre os cedros no bosque despido.
Erguiam-se como guardiões, negros
ao passar do homem. Talvez tenha estado a cantar,
talvez não. Talvez tenha estado a semear
flores de primavera, ou não. Mas vi-o
com o seu cesto, indo pelo topo da colina.
DE NOITE ACORDADO
(Farming: A Hand Book, 1970)
Alta noite pago
a inquietude que devo
à vida que nunca viveu
e agora não pode viver.
O que o mundo poderá ser
é o meu sonho bom
e a minha angústia quando, sonhando-o,
permaneço desperto e viro-me
e olho para o escuro.
Penso que é um luxo
a robustez e a graça
das coisas necessárias, não
uma futilidade. Poderia curar
a terra, curar o homem.
Mas também o fim é parte
do padrão, o derradeiro
labor do coração:
aprender a ficar quieto,
de novo um com a terra,
e deixar o mundo ir.
ORAÇÕES E DIZERES DO LAVRADOR LOUCO
(Farming: A Hand Book, 1970)
II.
De noite, torna-me um com a escuridão.
De manhã, torna-me um com a luz.
V.
Não possuas tanta tralha ao ponto de ficares aliviado por ver a tua casa a arder.
VIII.
Quando me levanto
deixa que me levante alegre
como um pássaro.
Quando caio
deixa que caie sem arrependimento
como uma folha.
IX.
Plantando a semente,
a minha mão é una com a terra.
Querendo que a semente cresça,
a minha mente é una com a luz.
Capinando a cultura,
as minhas mãos são unas com a chuva.
Tendo cuidado das plantas,
a minha mente é una com o ar.
Esfomeado e confiante,
a minha mente é una com a terra.
Comendo o fruto,
o meu corpo é um com a terra.
DEITAR FORA A CORRESPONDÊNCIA
(A Part, 1980)
Nada é simples,
nem mesmo a simplificação.
Assim, ao deitar fora
a correspondência, troco
a complexidade do dever
pela simplicidade da culpa.
A ROSA SELVAGEM
(Entries, 1994)
Por vezes de mim oculta
na rotina e na entrega,
para que sem o perceber viva por ti
como vivo pelo bater do meu coração,
de súbito cintilas ao olhar,
uma rosa selvagem assomando
na orla da mata, graça e luz
onde ontem somente sombra havia,
e uma vez mais sou abençoado, de novo
escolhendo o que antes escolhi.
COMO SER UM POETA (um lembrete para mim mesmo)
(Given, 2005)
Arranja um lugar para te sentares.
Senta-te. Fica quieto.
Deves valer-te da afeição,
da leitura, do conhecimento,
da habilidade — de cada um
mais do que possuis — inspiração,
trabalho, envelhecer, paciência,
pois a paciência une o tempo
à eternidade. Qualquer leitor
que aprecie o teu trabalho,
duvida do seu parecer.
Respira com um respirar incondicional
o ar incondicionado.
Evita os fios eléctricos.
Comunica devagar. Vive
uma vida a três dimensões;
afasta-te dos ecrãs.
Afasta-te de tudo
o que obscureça o lugar onde está.
Não há lugares profanos;
há apenas lugares sagrados
e lugares desconsagrados.
Aceita o que vier do silêncio.
Faz com isso o melhor que puderes.
Das pequenas palavras que vêm
do silêncio, como orações
ditas em retorno àquele que reza,
faz um poema que não perturbe
o silêncio donde veio.
POEMAS DO SABBATH (1979 – 2014)
(A Timbered Choir: The Sabbath Poems, 1979 – 1997 (1999)
& A Small Porch: Sabbath Poems, 2014 (2016))
XVIII.
Sentam-se os dois no alpendre, a noite
Quase se instalou, por detrás uma casa às escuras.
A sua ceia já terminou, os pratos lavados
E secos — apenas dois pratos, agora, dois copos,
Duas facas, dois garfos, duas colheres — pouco trabalho para duas pessoas.
Ela senta-se com as mãos dobradas sobre o colo,
Em repoiso. Ele fuma o seu cachimbo. Nada dizem.
E quando finalmente falam é para dizer
O que cada um sabe que o outro sabe. Possuem
Entre eles uma só mente, por fim,
Mas todo o seu saber não poderá dizer com exactidão
Qual deles irá primeiro pelo escuro umbral, dando
As boas-noites, e quem ficará um pouco mais.
XIX.
Bem poderá ser uma tarde de domingo,
estás sentada debaixo do telheiro do alpendre,
olhando para o rio através das árvores,
observando a chuva. Os círculos
feitos pelas gotas de chuva
expandem-se, intersectam-se, dissolvem-se,
e de repente (pois envelheces,
tanto que de tua vida é já memória)
as mãos dos mortos, aqueles que aqui estiveram
contigo, repoisam em ti com ternura,
como repoisa a chuva, cintilando,
nas folhas. E então pensas
(pois o pensamento virá) quão estranha é
a ideia de Paraíso, pois agora
já te imaginaste lá,
lembrando com saudade
esta alegria, esta chuva. Por vezes, estando aqui
estamos lá, e não existe morte.
XXI.
Fui acordado do meu sonho de mundo em ruínas pelo som
da chuva, caindo lentamente sobre a terra seca do meu lugar no tempo.
No jardim ressequido, nas pastagens rachadas,
nas poeirentas folhas de videira, na erva quebradiça, na folhagem
dobrada do bosque
caía serena a chuva emudecida.
XXII.
Há um dia
em que a estrada
não vai nem vem, e o caminho
não é um rumo, mas um lugar.
OS QUE AMAMOS
(Revista The New Yorker, novembro de 2025)
Aqueles que amamos, e a que chamamos os mortos,
separam-se de nós e por um tempo
estão ausentes. Então, como se invocados
pelo nosso amor, voltam para junto
de nós, uma vez mais. Entram nos nossos sonhos.
Sentimos que estiveram perto de nós
quando neles não pensávamos.
Estão apenas aqui, simplesmente à espera,
e nós distraídos nas nossas
obrigações. Por fim,
entendemos: eles vivem agora
no mundo permanente.
Somos nós os ausentes.
Ligações a esta post:
>>> Em maio de 2026, saiu nesta coluna seis poemas e nota biográfica de Wendell Berry.
* Versões a partir dos originais publicados em: Farming: A Hand Book (Counterpoit, 2011); The Peace of Wild Things and other poems (Penguin Random House UK, 2018); e The New Yorker.

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