Os significados da Degola, de Monique Malcher
Por Douglas Sacramento
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| Monique Malcher. Foto: Renato Parada |
Cortar cabeças. Degolar. Ato que perpassa o imagético das pessoas por meio das mídias e das artes, incluindo a literatura. Animais degolados para virar comida posteriormente ou humanos mortos por diferentes formas de execução; se lembrarmos o episódio histórico da Inconfidência, com Tiradentes, somos então marcados pela imagem da cabeça exposta em praça pública ainda na educação primária.
No meu caso, a imagem me acompanha de outros lugares, porque presenciei esse tipo de violência perto de mim em algum momento da vida. Moro em um bairro periférico e estudei no Ensino Médio nesse mesmo bairro. Lembro-me de certo dia, ainda na escola, quando uma notícia se espalhou entre as turmas: viram uma cabeça em um poste das ruas da minha comunidade. Essa cabeça pertencia a um jovem envolvido com tráfico de drogas, colega de escola e tinha deixado a namorada grávida. Assim, a degola, para muitos, não está distante.
Foi justamente essa proximidade entre a morte, o corte da cabeça e uma comunidade que a presencia, com todas as suas possíveis interpretações, que me chamou a atenção o romance de Monique Malcher. A escritora paraense recebeu com o livro de contos Flor de gume o prêmio Jabuti, em 2021. Para além disso, na vida acadêmica, é doutora em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Catarina. Degola (2025) é um passeio entre tempos na vida da protagonista, Sol, dividido em três partes: “Ondas de carne erguem tábuas de futuro”, “Soprar desejo na boca da galinha” e “Degolando as criaturas”.
O leitor desvenda aos poucos os mistérios que cercam Sol. Acompanhamos a sua infância e a mudança de Santarém para a Zona Franca de Manaus, que ocorreu após a morte do irmão Yan, afogado na piscina pública, por cuja morte a mãe a culpa. Sol não sabia nadar; fugia das aulas para ficar com os amigos e não teve como socorrer o irmão. Para além disso, acompanhamos a relação dessa personagem com o luto, a culpa imposta, a mãe, Joana — que começa a rejeitar a filha — e com o pai, Alfredo, ocupado com a comunidade, quando se torna líder comunitário onde a família passa a morar e sofre, em silêncio e escondido, com a morte do filho.
Em paralelo à infância, temos o presente da narração em que Sol é uma mulher adulta, costureira de vestidos de noiva, com 36 anos, mesma idade da mãe quando se mudou para Manaus, e está aprendendo a nadar. É nesse ínterim que rememora o passado conflituoso e tão complexo, enquanto procura lidar com o abandono da mãe e, ao final, com a morte do pai.
Os cortes que degolam
A galinha ou o galo depois de serem degolados ainda se mexem; uns chegam a correr. Esses movimentos provocados por espasmos e reflexos musculares que permanecem mesmo após a decapitação produzem a estranha imagem de um corpo que, embora morto, ainda conserva sinais de vida. Essa é uma imagem presente em todo o romance de Monique Malcher, por meio de muitos cortes e seus mais variados significados:
Nem toda a degola é um corte.
Quando rodamos os pescoços das bichas também dizemos assim:
Degolei mais uma.
São finais secos, doem igualmente. (p. 100)
Sol é uma personagem que vive constantes degolas na sua vida; ela também presencia diferentes formas de degola no decorrer do romance. Quando o leitor é colocado diante da infância e da relação conturbada e, por vezes, odiosa entre mãe e filha, questionamos qual o motivo dessa ruptura na relação entre Joana e Sol. A morte de Yan é a primeira cisão presenciada por Sol; um corte que desprende a cabeça do corpo. Trata-se de uma ruptura sem meios de retorno, sem possibilidade de sutura para cicatrizar. Esse corte é presente, lateja, por vezes com espasmos de vida, entre a mãe que culpa Sol pela morte do filho e a filha abandonada pela figura materna.
Quando quem estimamos morre, esquecemos de risadas e gritos de uma terra inteira. Mesmo assim, sinto que a morte não existe diante da palavra que gritamos. Os obituários foram feitos para a materialização da morte em palavras escritas. As estacas de cruz nos terrenos nos contam sobre quem lutou para plantar e agora é raiz esquecida, calada. (p. 41)
Sol vive um duplo luto: a morte do irmão e a ruptura brusca do amor da mãe. Em meio ao ressentimento existe uma tentativa da filha em fazer as pazes com a mãe, contudo, Joana é sempre fechada para desculpas. Se a cisão ocorrida com a morte de Yan afeta o micro, esse acontecimento reverbera no macro.
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A mudança de Santarém para a Zona Franca é, além de uma busca pelo progresso de uma vida melhor que nunca chega, uma tentativa de esquecer o passado, que também nunca será esquecido. É neste lugar, no entanto, em que Sol encontra forças e substitutos da falta do irmão e para o amor materno em extinção: a Irmã Eliana e suas galinhas, Juvinha e Barrinha. Aqui existe uma sutileza que perpassa todo o tom poético do romance. A protagonista e a escrita se iluminam.
Contudo, Sol vive outras degolas com essas personagens. A Irmã Eliana desmascara um cenário importante e atual do Brasil: a compra de terras por fazendeiros e as divisões dessas terras para famílias pobres, que passam a viver em busca de uma casa própria que não existe.
Irmã Eliana é morta a tiros, a mando da facção que controla o local e trabalha para o político que se acha dono daquelas terras em que Sol e sua família vivem. As galinhas morrem, por doença ou degoladas para virar comida. Como o ato de degolar é um fio condutor da história da protagonista, essas mortes marcam um prenúncio de algo maior a caminho, mas, ao mesmo tempo, destacam que a perda e a falta são constantes na vida de Sol: “como se reconstrói uma galinha e um coração mortos?” (p. 115)
Ao abordar a posse de terra e a condição de sujeitos pobres e necessitados sob o braço de políticos e do crime organizado, o romance apresenta Alfredo, para aquela comunidade da Zona Franca, como alguém que se transforma de vendedor em líder comunitário; é ele alguém com quem todos podem contar, mas que também alerta e, de algum modo, incomoda com seus discursos e reivindicações sobre o direito à moradia e a melhorias do lugar que nem possui saneamento básico.
A degola final é a de Alfredo. Nela ecoa as mortes de líderes comunitários e ambientalistas frequentes na história do Norte do país também a mando de fazendeiros e políticos ligados ao agronegócio: “Na ocupação as cabeças não eram escondidas, elas amanheciam penduradas como bandeiras hasteadas no mastro das prefeituras de manhã” (p. 122).
Como é característico da escrita de Malcher, tudo é muito visceral e explícito. O romance expõe a morte de Pai Alfredo como uma metonímia de outras mortes circunscritas em nossas lutas: ela significa tantas outras pessoas que morreram enquanto reivindicavam por melhorias para os seus, como o direito à terra:
As coisas que não podemos dizer com palavras para os mortos dizemos com ações. A forma que mostrei meu amor foi lembrando, assim como todos ali nunca esqueceram dele e de muitos outros de tantos lugares da Amazônia que tiveram o assassinato como futuro por fazerem alguma coisa, por menor que fosse. Nunca esquecer Alfredo, Eliana, Ray, Helena, Arnaldo, Expedito, Dezinho, Bené, Avelino, Dorothy, Fonteles. (p. 166-167)
As degolas vividas por Sol deixam marcas. Por isso, quando o leitor se depara com uma protagonista aprendendo a nadar, percebe-se a relação entre atravessar uma piscina de uma ponta a outra como metáfora de compreensão de si mesma e desses cortes, cujas cicatrizes estão ali, no corpo e na subjetividade.
Logo, a água que limpa tudo exerce sua função em Sol. Não se trata de desculpar ou ter o perdão da mãe, ou trazer os mortos de volta à vida, mas de entender que as degolas ocorreram. É preciso recolher as cabeças e enterrá-las junto ao corpo. Chegar ao outro lado significa rememorar esses corpos decapitados e, ao mesmo tempo, reconhecer a possibilidade de seguir adiante.
Monique Malcher, com uma prosa poética, aponta sua lupa para a a região de origem, o Norte do Brasil. Entre uma criança vivendo lutos e uma adulta tentando sobreviver em meio a uma tempestade que ainda a acomete, há um olhar apurado e arguto sobre questões necessárias para se compreender o Brasil nos nossos dias, país em que degolas ocorrem a todo instante para os grupos na margem, para aqueles que estão lutando por sua terra, sua casa e gritando o tempo todo para serem escutados.
Degola é um romance que jorra sangue, possui espasmos de uma vida que acabou de ser ceifada e coloca o leitor para pensar sobre quem está segurando a faca que corta essas cabeças.
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Degola
Monique Malcher
Companhia das Letras, 2025
Companhia das Letras, 2025
176 p.

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