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Anjos da desolação, de Jack Kerouac

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Por Rafael Kafka Jack Kerouac não era um primor como escritor. Isso é perceptível em seu clássico mais comentado, On the road. Mas sempre cabe a tentativa de procurar entender em que contexto, em qual parâmetro, Kerouac não era um primor de escritor. Realmente, se olharmos os clássicos e suas escritas trabalhadas com sintaxe profunda e perfeita, veremos nele um escritor amador, movido apenas pela empolgação. Mas se olharmos os parâmetros literários do século XX, em que a escrita se torna menos formal e mais apaixonada, veremos Kerouac como o que ele realmente é: um Buda da escrita espontânea. Em meu último texto, fiz uma comparação um tanto que colocando Kerouac contra a parede: a comparação citada no começo do meu texto sobre O ano da Morte de Ricardo Reis  ( leia aqui )   focava no aspecto pouco político da obra de Jack que era reflexo de seu temperamento até mesmo alienado diante das questões políticas que pululavam no período pós Segunda Guerra. Porém, para...

Remissão da pena, de Patrick Modiano

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Por Pedro Fernandes Grande parte dos escritores medíocres necessitam de uma grande história para que aquilo que escrevem possa alcançar alguma transcendência. Os grandes escritores, entretanto, podem converter num excelente romance o feito mais trivial, a anedota mais dispensável, mostrando como a excelência não está apenas no que se conta mas na forma de contá-lo. Patrick Modiano está no segundo grupo; tem a mesma audácia criativa, ouso dizer, do cinema francês em tornar situações banais em profundas histórias. Grande, não no sentido do tamanho, mas da dimensão. Remissão da pena , na edição agora publicada pela Editora Record, por exemplo, tem pouco mais de uma centena de breves páginas. Você pode lê-lo numa sentada. Mas, toca em questões tão singulares de maneira igualmente singular que o leitor, ao modo da leitura do grande romance, sai outro. A edição original – Remise de peine – data de 1988. Ou seja, a tradução chegou muito tardiamente ao Brasil. E deve ter cheg...

A questão é esta, não há outra: Gonçalo M. Tavares e a tragédia da sobrevivência

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Por Alfredo Monte “Os acontecimentos que o céu nos proporciona manifestam-se sob as mais diversas formas; e muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses” — Eurípides, Alceste “Não se trata já de intervir no destino, esse sentido abstrato para onde antigamente                   [caminhavam as coisas (como se fosse um plano inclinadíssimo). Trata-se, sim, de algo bem mais concreto                   [e ofensivo: uma tentativa de intromissão no normal                   [funcionamento dos órgãos humanos (...) Que intervenham no vago destino mas não        ...

Orpheu ou 100 anos de um ano que não acabou

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Fernando Pessoa e o segundo número de Orpheu , por Almada Negreiros (detalhe). “Se existisse qualquer instinto do sensato em moderna literatura, eu começaria pela paisagem e terminaria pelo Orpheu . Mas, graças a Deus, não há nenhum instinto do sensato em moderna literatura, por isso deixo de parte a paisagem e começo e termino pelo Orpheu .” – Álvaro de Campos A revista surgida com o afã de ser uma publicação trimestral sobre literatura não nasceu ao acaso. Ela é produto de outros movimentos que já rondavam o circuito literário português ou é a conjunção de uma quantidade variável de fatores que culminaram na sua criação. Talvez esteja aqui, sem quaisquer misticismos, a raiz de sua eternidade. Além disso, Orpheu  significou um ponto fora da linha comum que dominava Portugal. Antes, em 1910, por exemplo, havia sido publicada outra revista com mesmo afã, A Águia , mas com ambição maior: ser um mensário. Sim, numa época que não deve, de maneira alguma ser confundida com a ...

O estado do bosque – José Tolentino Mendonça (Parte I)

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Por Pedro Belo Clara Numa das primeiras ocasiões em que abordámos aqui o autor em epígrafe, trouxemos à discussão um trabalho deveras original no cada vez mais extenso rol de obras que tem vindo a publicar. Tratava-se de um livro de haikus , género onde Tolentino jamais se aventurara. O trabalho que hoje apresentamos retoma essa linha de novidade. Pelo menos, em parte. Editado em Janeiro de 2013, reproduz uma peça de teatro composta no âmbito de um projecto proposto pelo Teatro Oficina, de Guimarães. Nem que seja meramente pelo intuito de satisfazer a curiosidade, justificar-se-á a análise dum trabalho exposto num género que, apesar de não estar totalmente inexplorado pelo autor, rareia dentre os projectos que até agora assinou. Falar em Tolentino é, desde logo, referir a sua poesia, estilo onde se revela num maior número de ocasiões. Embora o ensaio e a elaboração de artigos diversos assumam um lugar igualmente meritório. O teatro, contudo, escasseia. Por i...

Boletim Letras 360º #109

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No Boletim da semana anterior dissemos todas as movimentações que faríamos por ocasião do Dia Nacional da Poesia. E hoje só gostaríamos de dizer que tudo valeu a pena. Os leitores estiveram atentos e fizemos um dia intenso com muita poesia. Enquanto lá fora muita gente estava em polvorosa distribuindo ódio, nós estávamos revolucionando corações pela leitura de poesia. O resultado foi este álbum lindíssimo  com 24 poemas de 24 poetas nacionais e estrangeiros enviados pelos 24 primeiros leitores e publicado cada um de hora em hora numa verdadeira maratona. Aguardamos a visita para levar adiante esses poemas. E, depois de tudo, vamos ler o que foi notícia durante a semana no blog.  Um poema inédito de Machado de Assis. Saiba sobre essa descoberta, assim, ao acaso na web. Segunda-feira, 16/03 >>> Brasil: Descoberto poema inédito de Machado de Assis O achado é de Wilton Marques, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que estuda a infl...