O gesto no alvorecer da linguagem: Os imortais, de Paulliny Tort
Por Wesley Sousa
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| Paulliny Tort. Foto: Renato Parada |
Os imortais, livro de Paulliny Tort, está entre os acontecimentos literários recentes mais notáveis em nosso país e o que nele chama atenção de imediato é a maneira como enfrenta um problema, simultaneamente, estético, formal e temporal. Como representar “sujeitos” cuja experiência se situa aquém das formas de linguagem que estruturam nossa própria relação com o mundo?
O enredo geral do romance trata de um grupo de neandertais que, ao deslocarem-se de região em região, enfrentam inúmeras dificuldades, desde problemas climáticos extremos, escassez de recursos, até a busca de abrigo e proteção entre os seus. A característica central é que os neandertais de Tort “não conversam falando: falam com o corpo, conversam mostrando, argumentam encadeando cenas e ações”. Nesse sentido, pode-se dizer que a formulação é decisiva, pois permite compreender que a ausência de diálogo verbal não significa ausência de comunicação. O romance desloca a linguagem para o domínio do gesto, da expressão corporal, da disposição dos corpos, na sua relação com o espaço e da sucessão das ações.
Ainda é possível notar que há uma correspondência significativa entre o apresentado pelo romance e a forma pela qual o representa. Os personagens comunicam-se por gestos, movimentos, aproximações e afastamentos, o que é acompanhado pela narrativa. A questão da forma não é, portanto, exterior ao conteúdo: a dificuldade de representar uma consciência anterior à linguagem articulada converte-se em princípio de composição. A forma narrativa torna-se o lugar em que o romance experimenta os próprios limites de sua capacidade de representação.
Em Os imortais, o problema consiste em conferir forma a uma experiência que não poderia ser recuperada diretamente pelo discurso contemporâneo. A distância entre o narrador e seus personagens é, assim, uma distância histórica, que narra um épico fora de seu tempo, mas situados temporalmente no discurso narrativo: o romance precisa produzir uma mediação entre uma humanidade anterior à linguagem que conhecemos e um leitor inteiramente constituído pela linguagem.
Quando o narrador afirma, por exemplo, que determinado personagem “não precisa do verbo para se abrasar neste constrangimento”, a narrativa produz uma espécie de reflexão sobre sua própria condição. O verbo que descreve a ausência do verbo revela a impossibilidade constitutiva da representação: para representar uma experiência anterior à linguagem, o romance precisa recorrer à linguagem. A contradição não é um defeito da obra, mas um de seus princípios compositivos. Por quê?
A alteridade dos neandertais não é apresentada como simples ausência de linguagem, como dissemos, mas como existência de uma forma distinta de significação. O romance, desse modo, parece colocar em questão uma concepção estreita do lógos. A linguagem verbal continua sendo o instrumento do narrador e do próprio romance; mas aquilo que ela procura representar excede constantemente sua forma. Os gestos e as ações não são meros substitutos imperfeitos da fala: constituem a própria matéria de uma experiência cuja estrutura semiótica é diferente daquela do mundo moderno.
A narrativa encontra, no limite da palavra, uma forma de comunicação que não pode ser inteiramente reduzida a ela. A questão também pode ser aproximada da concepção bakhtiniana da personagem como uma consciência que não pode ser simplesmente absorvida pela consciência autoral. A representação literária pressupõe uma relação entre consciências, na qual o outro não é reduzido integralmente ao ponto de vista daquele que o representa:
“A forma artisticamente criativa dá formas antes de tudo ao homem, depois ao mundo, mas mundo somente enquanto mundo do homem. Ela pode humanizá-lo diretamente, humanizando-o, animá-lo, colocá-lo numa relação axiológica tão direta com o homem que este mundo perde, ao lado dele, a autonomia do seu valor, torna-se apenas um momento do valor da vida humana” (Bakthin, 2010, p. 69).
O romance não parece dizer que os neandertais ainda não alcançaram a linguagem e lhes faltaria algo que nós possuímos. Ao contrário, sua estratégia narrativa sugere que a linguagem humana sempre comportou uma dimensão corporal, mimética e performativa não eliminada completamente pelo aparecimento da razão. O passado pré-histórico funciona, por assim dizer, como um estranhamento do que julgamos familiar: a própria comunicação.
Assim, se a linguagem constitui o problema formal de Os imortais, o cuidado constitui um de seus principais problemas éticos e sociais. O encontro entre neandertais e sapiens poderia ser narrado segundo o modelo convencional do confronto entre grupos distintos, no qual a diferença conduz imediatamente à guerra, à expulsão ou à assimilação. Todavia, Paulliny Tort escolhe outra via, mais interessante. A relação entre as espécies é organizada em torno da sobrevivência de uma criança sapiens acolhida por uma comunidade neandertal.
Essa escolha desloca o centro da narrativa. A questão deixa de ser apenas “quem vencerá?” e passa a ser “quem será reconhecido como digno de proteção?”. Essa situação mostra que a criança não ingressa na comunidade como portadora de uma prerrogativa. Sua existência coloca em crise os limites da comunidade e, sobretudo, os critérios pelos quais essa comunidade decide quem a ela pertence. Em vez de nomes próprios individualizadores, encontramos figuras designadas por substantivos comuns, atuando, entretanto, como próprios: Homem, Mulher, Velha, Velho, Menina, Estrangeiro, Pequeno. Essa escolha não deve ser entendida simplesmente como uma tentativa de produzir personagens arquetípicas.
É nesse ponto que o romance alcança uma dimensão social ou comunitária. O cuidado não aparece como sentimento privado, mas como prática nas relações estabelecidas pelo próprio grupo. Alimentar, proteger e preservar a criança significa introduzir uma perturbação na ordem coletiva. O gesto mais elementar — alimentar o outro — adquire, assim, uma dimensão política, porque coloca em questão os limites da identidade comunitária.
A força do romance de Tort está também em não transformar essa situação em uma oposição simplista entre violência e bondade. A Velha, ao perseguir e matar a mãe sapiens, mostra que o cuidado é marcado por relações de pertencimento, sobrevivência e exclusão. Cuidar dos seus pode significar negar o cuidado ao outro. A mesma estrutura que produz solidariedade interna pode produzir violência externa. A comunidade é ao mesmo tempo o espaço de proteção e o mecanismo de diferenciação.
Essa ambivalência aproxima Os imortais de um problema central da formulação de Lukács: a relação entre indivíduo e totalidade. O indivíduo não existe no romance como consciência isolada que simplesmente escolhe entre o bem e o mal, porque tais caracterizações sequer fariam sentido para o romance. Alargando a concepção, cada gesto está inscrito em uma estrutura coletiva de costumes, necessidades, relações de parentesco e sobrevivência. A decisão individual adquire significado justamente porque entra em conflito com uma totalidade social determinada (cf. Lukács, 2009).
Por isso, talvez seja mais produtivo compreender o cuidado não como uma essência moral que o romance possivelmente celebra, mas como uma prática que revela as contradições da própria comunidade. A Mulher que alimenta a criança estrangeira não é apenas “boa”; seu gesto altera a relação entre indivíduo e grupo. Ela introduz uma possibilidade sem assimilação imediata pela ordem coletiva. Aqui o romance se distancia tanto de uma narrativa sentimental do “bom selvagem” quanto de uma concepção meramente evolucionista da história. A pré-história de Tort não aparece como um mundo moralmente puro anterior à civilização. Ela é constituída por conflitos, hierarquias, interesses e exclusões. O que muda é a escala histórica e material em que essas relações se apresentam.
O cuidado, portanto, não deve ser separado das condições concretas que o tornam possível ou impossível. Alimentar uma criança pressupõe alimento; protegê-la pressupõe uma comunidade capaz de sustentá-la; acolher o estrangeiro significa redistribuir recursos e redefinir fronteiras. A Menina não representa apenas “o outro”: ela constitui o outro que passa a viver no interior do “nós”. O romance torna perceptível, por meio de uma situação elementar, algo que a crítica social frequentemente procura demonstrar em escala mais ampla: nenhuma relação ética existe fora de determinadas condições históricas e materiais.
A dimensão histórica de Os imortais torna-se ainda mais complexa quando observamos a estrutura dos títulos dos capítulos. As sílabas aparentemente elementares — “Mu”, “mi”, “au”, “me” — parecem remeter à comunicação rudimentar dos personagens. Entretanto, sua organização acaba por estabelecer uma relação com o início da Eneida de Virgílio, Arma virumque cano [As armas e o varão (o herói) eu canto]. Essa operação pode ser aproximada da reflexão bakhtiniana acerca da historicidade dos gêneros e da coexistência de diferentes temporalidades no interior da obra literária (cf. Bakthin, 2011).
O romance não apenas reconstrói um tempo anterior, mas faz diferentes tempos entrarem em relação. A pré-história de Tort é, nesse sentido, menos uma reconstrução arqueológica do que uma construção literária da distância histórica. O romance não procura apagar os sinais de sua própria contemporaneidade. Ao contrário, a intertextualidade, a estrutura narrativa e a própria consciência de que estamos lendo uma ficção tornam evidente que o passado é sempre mediado.
Os títulos dos capítulos funcionam, então, como uma espécie de comentário silencioso sobre essa operação. A voz dos neandertais aparece como gesto, como sílaba e como fragmento de uma tradição literária posterior. A voz que parece nascer antes da literatura já é, paradoxalmente, organizada por uma literatura que virá depois. O efeito é de uma temporalidade complexa, na qual começo e fim se contaminam.
Por isso, ao longo do livro, podemos perceber que a dimensão da presença, no romance, de elementos que podem ser associados às inquietações ecológicas contemporâneas sob os escombros do capitalismo contemporâneo. Lá, no romance, glaciações, vulcões, escassez de recursos e transformações ambientais podem ser lidos dentro da lógica própria do universo narrativo, mas ressoam em uma época marcada pela consciência da crise ambiental, com o marcador temporal de que o “progresso” pode ser, enfim, questionado. O romance não precisa transformar os neandertais em alegoria direta do presente para produzir esse efeito, pois basta que a distância histórica permita ao leitor perceber determinadas continuidades estruturais entre diferentes formas de vulnerabilidade humana.

O interesse literário maior de Os imortais está menos na tentativa de imaginar como viviam os neandertais do que na maneira como a literatura transforma a distância entre nós e eles em problema formal. O romance parte de uma impossibilidade — não podemos recuperar diretamente a experiência de uma humanidade anterior às formas de linguagem que conhecemos — e faz dessa impossibilidade o princípio de sua composição. A questão da linguagem, o elemento do cuidado e da história não deve ser tratada como três temas independentes. A visão comum da violência como elemento da alteridade se desloca. O que chama a atenção aqui é: a linguagem define as possibilidades da representação; o cuidado coloca em crise as fronteiras da comunidade; a história determina a distância entre o mundo representado e o leitor que o interpreta. O romance encontra sua unidade na articulação desses três níveis.
Nesse aspecto, o livro realiza uma operação característica da literatura moderna: para falar do passado, precisa falar do presente; para representar o outro, precisa confrontar os limites da própria linguagem; para imaginar uma comunidade radicalmente distante, precisa interrogar as formas de pertencimento que continuam organizando a vida contemporânea. Também por isso a noção de estranhamento cognitivo talvez precise ser reinterpretada. O romance produz estranhamento ao retirar o leitor de seu mundo habitual e colocá-lo diante de uma forma de existência radicalmente diversa. Mas seu efeito não termina na inteligibilidade racional desse mundo. O que se estranha, afinal, não é apenas o mundo dos neandertais. Estranha-se o nosso próprio mundo quando ele é observado a partir de uma humanidade que ainda não dispõe das categorias históricas que consideramos naturais.
É nesse sentido que o título Os imortais adquire sua força. Talvez os “imortais” não devam ser identificados com uma qualidade moral abstrata, como se o romance afirmasse simplesmente a eternidade do cuidado. A palavra pode ser tomada de maneira mais ambígua. Sobrevive aquilo que atravessa formas históricas distintas e reaparece sob novas configurações: o gesto, a necessidade de proteção, o conflito entre pertencimento e alteridade, a violência, a solidariedade, a tentativa de estabelecer vínculos.
O mérito maior do romance está justamente em não oferecer uma resposta definitiva a essa investigação. A obra permanece no intervalo entre natureza e cultura, corpo e linguagem, indivíduo e grupo, sobrevivência e significado. É nesse intervalo que sua força literária se encontra. Ao imaginar homens e mulheres ainda sem os instrumentos conceituais para compreender inteiramente o que vivem, Paulliny Tort acaba por devolver ao leitor contemporâneo uma experiência de estranhamento diante de coisas que julgamos conhecer perfeitamente.
A verdadeira “imortalidade” talvez esteja aí: não na superação da morte, mas na capacidade humana de produzir formas capazes de sobreviver aos indivíduos. O romance nasce dessa contradição. Somos mortais, mas construímos linguagens; somos frágeis, mas produzimos memória; somos ameaçados pela natureza, mas transformamos a experiência em cultura. O romance Os imortais encontra na pré-história uma maneira de falar do presente e faz isso sem transformar o passado em simples alegoria do mundo contemporâneo. Sua realização literária está justamente em manter aberto esse intervalo entre o que fomos, o que somos e aquilo que ainda não sabemos nomear. Tempos e eras vêm e vão, e nada do que parece eterno tende a ficar.
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Os imortais
Paulliny Tort
Fósforo, 2026
232p.
Referências
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini et al. 6 ed. São Paulo: Hucitec, 2010.
LUKÁCS, György. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Editora 34, 2000.
TORT, Paulliny. Os imortais. São Paulo: Fósforo, 2026.
*Wesley Sousa é doutorando em Filosofia pela UFMG. Membro da Associação Brasileira de Estética (ABRE), do grupo de pesquisa “Crítica & Dialética” (UFMG/CNPq) e do “Modos de presença nos fenômenos estéticos” (UFMG/CNPq).

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