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O escritor está nu: as últimas palavras de Julio Cortázar

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Julio Cortázar em Buenos Aires, Argentina, 1973 (detalhe) Cortázar sentiu muito a indiferença externada pela cena cultural e pelos que compunham o poder oficial quando voltou ao seu país natal em dezembro de 1983. Depois de tantos anos de exílio e já reconhecido ao redor do mundo, esperava outra recepção. A verdade é que, referindo-se ao grupo do poder, um presidente como Raúl Alfonsín – e esse mal das autoridades públicas é coisa de toda a parte do globo – não se dava conta sobre a importância do escritor. Sequer foi recebê-lo. O que lhe salvou da indiferença foram as ruas; os leitores saíram de casa para ir conhecer de perto o filho ilustre. Não pródigo, como certamente terão pensado os do poder. Houve mulheres que levaram flores; houve quem levou livros em busca de autógrafo, livros que às vezes nem eram seus. A recepção do público deve ter-lhe produzido uma sensação de estar em casa. Omar Prego Gadea – escritor uruguaio e jornalista – não estava entre esses leito...

Deambulando por Bukowsky

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Por Maria Vaz Escrevo-vos para falar de Bukowsky: um autor além dos atributos coloridos que a imposição estética, por sensibilidade ou senso comum de quem escreve, impinge às palavras. A verdade é que a grande maioria dos escritores, e sobretudo dos poetas, colore a realidade para que ela pareça mais interessante, iluminada, quase mágica. Bukowsky nunca fez questão disso. Pelo contrário. Escrevia para transmitir aos outros a sua verdade, naquilo que parece constituir uma espécie de ritual vocacionado à auto-percepção da realidade, como se a escrita lhe proporcionasse a obtenção de um qualquer espasmo de sentido relativamente às experiências que a memória não deixa esquecer. Expôs, como poucos, o preto e branco da realidade quotidiana de alguém que vivia na busca de algo que não encontrava, enquanto vivia uma relação de amor e ódio com a solidão. Incorporou o ‘carpe diem’ – em que se avulta a incerteza da pós-modernidade – através da renúncia de um ‘eu’, que se perdia no ‘...

Bom trabalho

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Por João Negreiros © Ko-Ji Yamasaki (detalhe) Eu acho que devo ser fascista… ou então acho que sou neoliberal… ou liberalista… ou essas coisas que dizem os comentadores políticos antes que eu mude para o programa de renovações de casas… que eu estou tão cansada que não tenho pachorra para pensar nisso. Eu faço o que me mandam e não penso. No outro dia dei quatro horas a mais à empresa. Não me pagaram horas extraordinárias, a verdade é que não foram extraordinárias, se calhar foi por isso que não pagaram. Um amigo comunista disse que eu era fascista e por isso comecei a dizer que devo ser fascista. Depois até fui à Wikipédia para ver o que era o fascista. Apareceu o Hitler e não percebi nada. Depois ele lá explicou melhor, disse que eu apoiava o fascista e que o fascista era o meu patrão e que eu não podia ficar 4 horas a mais. O mais estúpido é que nem sequer me pediram. Falaram para mim meio torto e eu lá me lembrei de um professor ou do meu pai num dia mau e ...

Boletim Letras 360º #117

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Uma novidade espalhada em nossas redes sociais é que receberemos já na próxima semana mais uma colunista que escreverá quinzenalmente para o Letras. Ela também vem de Portugal. De além-mar temos o nosso querido Pedro Belo Clara. E passaremos a ter a Maria João, já igualmente, nossa querida. Outra novidade é que em breve anunciamos a promoção que planejamos fazer em parceria com a página Dicas de Leitura. Sortearemos a “Antologia poética”, do Mário Quintana, que chega às livrarias já agora em meados de maio. Com esse sorteio alcançaremos a cifra de 150 livros distribuídos em três anos de promoções. E já foram nomes diversos: Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Angélica Freitas, Vinicius de Moraes, Murilo Mendes, Ana Cristina Cesar, Paulo Leminski, Diva Cunha, Jorge de Lima, Inês Pedrosa, Socorro Accioli, Chico Buarque, Jane Austen, José Saramago, Mia Couto, Alice Munro, Milton Hatoum, Vernaide Wanderley, Pedro Fernandes, Clarice Lispector, Ro...

Coisas transparentes, de Vladimir Nabokov

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Por Rodrigo Fresán Sabemos que F. Scott Fitzgerald é aquele mártir autodestrutivo que – muito além das luzes verdes em sua obra – ensina aos escritores, com sua vida atormentada por bandeiras vermelhas, a como não ser tão bons na hora em que as coisas saem inexoravelmente mal, muito pior, crack-up ... Vladimir Nabokov – ao contrário – é o melhor e mais invejável (bom) exemplo possível: a saga de um começo incerto e final MUITO feliz de um autor excêntrico que volta ao centro com um livro com nome de menina e que, sucesso desde então, lhe permite ser mais excêntrico até sua morte. Sim. Poucos escritores mais felizes consigo que o russo de nascimento mas estrangeiro universal que domou como ninguém o idioma inglês para logo trabalhá-lo como ninguém. É regozijador a leitura que chamo indispensável para o volume Cartas para Vera (tradução livre para Letters to Véra , título ainda inédito do Brasil, editado em 2014 nos Estados Unidos pela Penguin Classics). Porque nesse ...

O método Alejo Carpentier

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Por Francisco Llorca Zabala A fotografia foi feita em finais dos anos setenta e tem uma cor sépia e lavagem própria das imagens anteriores ao Instagram. Alejo Carpentier está sentado num café: os cantos de uma boca grande apontando para baixo, um gesto sério, como se estivesse absorto numa pesada digestão. Ao lado do cubano, os dois Antonios, Saura e Pérez, Pérez e Saura, junto a um grupo de pessoas sem identificação. Personagens, então. Quem fez a fotografia? Outra personagem? A companhia de algum deles? (Não há nenhuma mulher no grupo, assim se pode suspeitar de uma do outro lado da câmera) O garçom do bar que amavelmente se prestou a imortalizar o momento? Viro a imagem e constato que no verso não figuram nomes e nem datas. Mas, várias coisas são certas: todos estão bem, como demonstram algumas garrafas de vinho (bem, todos, menos Carpentier, claro) e que esse café fica em Siguença, província de Guadalajara, para ser mais exato. Sei porque estive sentado nessa mesma mesa ...