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Um itinerário para o Livro do desassossego

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Por Cláudia Sousa Um dia talvez compreendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de intérprete de uma parte do nosso século; e quando o compreendam, hão-de escrever que na minha época fui incompreendido, que infelizmente vivi entre desafeições e friezas, e que é pena que tal me acontecesse. E o que escrevi isto será, na época em que o escrever, incompreendedor, como os que me cercam, do meu análogo daquele tempo futuro. Porque homens só aprendem para uso dos seus bisavós, que já morreram. (Fragmento do Livro do Desassossego , composto por Bernardo Soares) Da epígrafe à referência podemos questionar sobre que livro é este composto “por” Bernardo Soares? Por que não “O livro do desassossego”? Asseguramos que a questão, aparentemente despropositada, nos arremessa para um livro sem fim, sem fronteiras e que não fecha. Desse modo, o artigo definido implicaria toda a intenção para o título dessa grande obra pessoana, que já prenuncia, desde o título, a conce...

Boletim Letras 360º #134

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É sempre com satisfação que regressamos a cada sábado, um pouco cada vez mais velhos, mas satisfeitos com o trabalho que vimos desempenhando na divulgação sobre a literatura, o universo do livro e adjacências. Isso em todos os canais que podemos firmar para estar próximos dos leitores; no Facebook, onde o público é maior, a presença tem sido mais intensa também. E essa presença que faz com que retornemos sábado a sábado para organizar essas informações passadas aos nossos leitores. Gabriel García Márquez sempre foi amigo muito próximo de Fidel Castro. A relação entre os dois pode ter sido o motivo para a espionagem dos Estados Unidos sobre o autor de Cem anos de solidão . Saiba mais ao longo deste boletim. Segunda-feira, 07/09 >>> Brasil: Nos 70 anos de Chico Buarque falamos sobre a edição de um filme sobre a vida e a obra do compositor e romancista brasileiro. Pois bem, a boa nova é que está quase pronto e chega aos cinemas até o final do ano Chico: artis...

O cobrador

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Por Rafael Kafka Ali estava ele, em um clima úmido típico de Belém, infernal, sentado em seu local de trabalho, com um livro de biologia nas mãos, mal dando atenção a mim quando dei-lhe o dinheiro de minha passagem de ônibus.  Deu-me uma atenção oblíqua, quase nula, pois estava focado no que estava a fazer: responder algumas questões de algum assunto que não consegui identificar, mas tudo bem: biologia é a mesma complexidade para mim sempre, não importando se o assunto em questão é genética ou qualquer outra coisa. Nada entendo dessa disciplina, mesmo achando-o seu tema algo muito interessante. O que me impressionava ali naquele momento era a determinação do rapaz que me atendeu de forma tão pouco atenciosa em um livro didático, com a postura de quem se prepara ardentemente para a prova do ENEM que é em algumas semanas. Sentei-me e tirei de dentro de minha mochila o livro O ventre de Carlos Heitor Cony. Tal livro, confesso, é o que menos gostei desse bom autor até ag...

A imaginária, de Adalgisa Nery

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Por Pedro Fernandes Adalgisa Nery. Arquivo: Candido Portinari Adalgisa Nery pertence, por uma razão sobre a qual tentarei descobrir ao longo dessas notas, ao panteão dos nomes esquecidos da nossa recente literatura. Esquecida não no sentido de ser uma escritora menor ou porque deixe de figurar entre as principais távolas literárias (sobretudo as antologias poéticas); esquecida porque, entre os estudantes de Letras, público para o qual a literatura é (ou pelo menos deve ser) convívio constante, a obra da escritora é totalmente desconhecida.  Essa afirmativa, apesar de não ter passado pelo crivo de uma pesquisa com o público sobre conhecer ou não conhecer a escritora carioca, tem seu ponto de partida em três situações concretas: a primeira, pela própria experiência como estudante de Letras. Na época nunca sequer o nome de Adalgisa foi mencionado numa aula de Literatura Brasileira. A segunda, pela escassez de estudos acadêmicos sobre a obra. É óbvio que esse dado é si...

O meu tipo de romance “Conversa no catedral”

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Por Alfredo Monte “Eu quisera que meus livros fossem lidos como eu li os romances de que gosto. Os romances que me fascinaram, mais do que entrar pela inteligência, através do puro intelecto, da pura razão, me enfeitiçaram literalmente, quer dizer, se converteram em histórias que de certa forma destruíram toda capacidade crítica em mim. E me faziam perguntar: O que vai acontecer? O que vai acontecer? Este é o tipo de romance que eu gosto de ler e este é o tipo de romance que eu gostaria de escrever. Então para mim é muito importante que todo elemento intelectual, que é inevitável que esteja presente em um romance, de alguma forma esteja dissolvido fundamentalmente em ações, em episódios que deveriam seduzir o leitor não por suas ideias, mas por sua cor, por seu sentimento, suas emoções, suas paixões, por sua novidade, por seu caráter insólito, pelo suspense e o mistério que possa emanar deles. Para mim, a técnica do romance é fundamentalmente conseguir isso, conseguir ...

Charles Bukwoski e o ímpeto para a escrita

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“Tinha duas opções, ficar nos correios e tornar-me um louco... ou sair e tentar ser escritor e morrer de fome. Decidi morrer de fome”. O grande poeta maldito disse, sem perspectivas e sem restabelecer o sonho destruído por suas próprias palavras: as letras não são para qualquer um. Além de dirigir-se a mais de uma geração de pseudo-escritores que se dispunham a gastar papel, tinta e, sobretudo, tempo de centenas de milhares de pessoas que leriam suas palavras vazias, o escritor também elaborou seu próprio manual daquilo que um sujeito comum devia fazer para converter-se num grande escritor, como ele mesmo veio se tornar um dia. Provavelmente inspirando-se em seus anos de juventude; cheios de excessos, desilusões, sonhos desfeitos, mulheres, incertezas e álcool, Bukowski não fez outra coisa senão contarmos suas próprias desgraças através da literatura. E isso o terá feito, aos olhos de muitos, um escritor medíocre. Sem dúvidas.  Como muitos grandes escritores, o e...