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10:04, de Ben Lerner

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Por Pedro Fernandes Com este romance, Ben Lerner parece querer dizer que toda literatura é literatura do eu: toda obra literária é produto de um movimento cujo epicentro é o próprio autor, para recordar um texto de Laura Fernández que concorda neste mesmo ponto. Sabendo disso, o romancista forja um narrador marcado pelas mesmas características que embalam a existência dessa categoria no romance: o de ser máscara, disfarce do autor. A diferença é que, como em toda metaficção, aqui o leitor tem acesso ao que se passa na coxia ou aos movimentos da caixa de máquinas desse sistema. Antes de melhor compreender essas questões é necessário esclarecer que a ressurreição do autor não significa a morte do narrador tampouco o autor sobre o qual falamos deve se confundir com a pessoa física e cívica do escritor. Este último tem a existência marcada no texto pela referência pré-textual mostrada na inscrição de seu nome enquanto autor do texto que o leitor tem em mãos. Mas o autor...

120 batimentos por minuto, de Robin Campillo

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Por Pedro Fernandes Em 2014, Ryan Murphy construiu um retrato inquietante sobre o surto de AIDS na década de 1980; o filme é baseado na peça de Larry Kramer, ambientado em Nova York, nos Estados Unidos, e a narrativa transita entre o paradigma da liberação sexual, produto de uma reivindicação por assim dizer cultural que remonta ao fim dos anos 1950 e nas duas décadas seguintes e as imposições trazidas pela doença sobre as quais ainda nada se conhecia. A morte não dá trégua, mas The normal heart não consegue, apesar de todo apelo dramático, tocar tanto quanto este filme de Robin Campillo. Poderíamos justapor 120 batimentos por minuto à produção anterior porque o contexto aqui refere-se a uma década depois dos acontecimentos tratados e apesar de estarmos agora noutra narrativa os dramas de alguma maneira se repetem. São dois filmes que poderíamos designar como interessados em registrar as transformações de uma doença das mais fatais na história recentemente da humani...

Introdução aos Poemas árticos

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Por René de Costa Poemas árticos é o exemplo mais precoce de literatura vanguardista em língua espanhola e, porque contém poemas curtos, foi o volume mais acessível aos leitores pouco familiarizados com a nova estética. Seus poemas foram lidos e relidos, estudados e imitados por toda uma geração de jovens espanhóis dispostos a aceitar tudo o que era novidade. Os que não podiam comprar o livro copiavam a mão. Entre estes entusiastas, alguns, como Antonio Machado, se sentiram perturbados pelas imagens extravagantes de Huidobro, enquanto outros, como Gerardo Diego, viram nelas uma nova possibilidade para a poesia lírica (Cf. Antonio Machado, 1957). Juan Larrea, que foi um dos logo convertidos, recorda que, quando Gerardo Diego regressou de Madri em maio de 1919, “trazia escritos na mão três poemas de Vicente Huidobro, que acabava de copiar do livro Poemas árticos ”. Para Larrea, estes poemas eram decisivos: “Impressionou-me a novidade de tal maneira que a partir desse dia ...

Sergio Pitol: muito além dos lugares comuns

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Por Jezreel Salazar Sergio Pitol, 1988. Foto: Rogelio Cuéllar Diante o universo anedótico que só se multiplica quando desaparece um autor insubstituível, é essencial ir além dos lugares comuns em torno de sua personalidade para situá-lo da melhor maneira na história literária do país. Entre as qualidades que acompanham Sergio Pitol (e que seguramente se repetirão centenas de vezes), há uma que me parece difícil de continuar sustentando: o vanguardismo voluntário de sua obra, que se supõe acompanharia sua extravagância pessoal. A ideia de que pertenceu ao universo “dos raros” me parece pouco séria, muito conjuntural e associada ao desconhecimento de seus livros. Quando alguém revisa os comentários críticos da série de textos que publicou depois de voltar a Xalapa em 1993 (depois do grande périplo de quando viveu fora do país), se fala de livros insólitos, híbridos, pós-modernos ou difíceis de classificar. Há alguma razão nisso, mas estes epítetos nos levam a ler tais obr...

Boletim Letras 360º #269

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Uma chamada para todo amante e para os que precisam amar a poesia. Já falamos outras vezes sobre o projeto LeiaPoesiaBr, mas vale a pena um clique aqui para saber mais e melhores informações sobre; só adiantamos: no último dia 9 de abril as atividades do projeto começaram. E está imperdível! Daqui a pouco você olha e participa, porque antes deve correr os olhos para as publicações que fizeram o calendário da semana em nossa página no Facebook . O boom Hilda Hilst. Nesta semana a Companhia das Letras anunciou várias edições com a obra da poeta homenageada em Paraty em 2018.  Segunda-feira, 09/04 >>> Brasil: A Universidade de Campinas herdará a biblioteca de Antonio Candido Segundo o jornal Folha de São Paulo , o acervo do professor e crítico literário passava por negociações para fazer parte da Universidade de São Paulo, no Instituto de Estudos Brasileiros, onde estão boa parte de seus papéis. Mas, a USP desistiu da aquisição alegando que gerar...

Por quem os sinos dobram?

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Por Rafael Kafka A cena final de Por quem os sinos dobram mostra Robert Jordan, prestes a morrer por uma ideia, escondido pronto para matar um oficial do exército franquista, um gesto simbólico que para seu grupo de guerrilheiros representa muito: ferir uma figura de alto escalão era visto como um duro golpe contra um exército muito mais bem equipado em número e em recursos materiais. A cena em si não mostra o momento da morte, mas não precisa. Ela está ali no romance o tempo todo, no ritmo seco e pujante de Ernest Hemingway, cuja reflexão central no enredo parece ser o luto inerente à própria guerra. O terror existente nos conflitos bélicos é justamente o fato de estarmos diante da certeza de que do outro lado das trincheiras há também seres humanos. Matá-los é de certa forma matar a si mesmo, pois estamos matando um pouco da humanidade. Jordan, cuja missão no livro é destruir uma ponte importante para o exército de Franco, aos poucos se apercebe disso e chega a demon...