Postagens

Naipaul, o primeiro escritor

Imagem
Por Carlos Manuel Álvarez Rodríguez O olhar constrito e áspero de V. S. Naipaul em qualquer de suas fotografias da maturidade é o olhar do velho insuportável a alguém que vem-lhe roubar maçãs ou morangos do seu quintal enquanto prefere que apodreçam a dá-los. Sua misantropia e crueldade proverbiais pareciam fascinar, talvez assustar, não tanto já pela misantropia e crueldade propriamente ditas, mas por seu reconhecimento pleno de ambas. Naipaul não ocultava seu sadismo, o reivindicava e permitia logo sua aparição em biografias autorizadas. No ensaio As trevas de Conrad [tradução livre], publicado originalmente em The New York Review of Books no outono de 1974, Naipaul disse que o interesse pela obra de um autor leva indefectivelmente ao interesse por sua vida. Não é verdade. Mas, tudo isso se torna a mesma coisa – a vida, a obra, o escritor cindido entre sua matéria e o que escritor é – em O enigma da chegada , um romance que não é de ninguém, escrito “com a sen...

Boletim Letras 360º #287

Imagem
Estamos  colocando o ponto final em mais uma semana e sempre (como é de costume) pensando nas matérias que irão compor este blog nos dias seguintes. Por enquanto, a comum reunião das notícias que foram publicadas em nossa página no Facebook. Boas leituras! Roberto Bolaño. Finalmente, teremos em português a poesia do escritor chileno. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Domingo, 12/08 >>> Inglaterra: Morreu o escritor britânico V.S. Naipaul, premiado com o Nobel de Literatura em 2001 Nascido em Trinidad e Tobago, estudou Literatura inglesa na Universidade de Oxford, antes de se estabelecer na Inglaterra. Passou muito tempo viajando e se tornou um símbolo do desenraizamento moderno. Naipaul mudou-se em 1950 para a Inglaterra, onde trabalhou como jornalista para a rede de TV britânica BBC. Doutor Honoris C ausa pelas universidades de Cambridge, Londres, Oxford e Columbia, ele foi ainda sagrado cavaleiro britânico pela rainha Elizabeth ...

Historicidade como signo de autonomia e liberdade

Imagem
Por Rafael Kafka El Disco Negro , Carlos Mérida “Somente quando a ontologia do marxismo for capaz de praticar coerentemente a historicidade como fundamento de qualquer conhecimento do ser no sentido do profético programa de Marx, só quando, reconhecendo determinados princípios últimos com prováveis e unitários de todo ser, passam a ser compreendias corretamente as diferenças entre as esferas ontológicas particulares e a 'dialética da natureza' já não mais se apresenta como uma equalização uniformizante de natureza e sociedade, que muitas vezes deforma o ser de ambas de várias maneiras, mas como pré-história em termos categorias do ser social”.  Lukács,   Prolegômenos para uma ontologia do ser social , p. 189 Há uma preocupação constante de Lukács em seus Prolegômenos para uma ontologia do ser social  em definir os rumos de uma ontologia da condição humana que foque nos elementos sociais e de singularidade presentes nela, algo muito deturpad...

Na pureza do sacrilégio, de Carlos Cardoso

Imagem
Por Pedro Fernandes E como falar de outra forma? de cortar e reformatar o futuro, e assim querer e ser sem par. A pergunta lançada pelo primeiro poema de Na pureza do sacrilégio é capciosa: abre-se em direção a pelo menos outras duas interrogações. A primeira delas é produto da angústia de todo poeta. Num tempo quando perdemos as contas de vozes tão singulares e válidas por gerações e temporalidades, o que ainda resta dizer em forma de poema? A outra, derivada desta, como ser outra vez voz entre vozes depois de algumas largadas? Não pense o leitor que as respostas venham logo em seguida. Nem no livro; tampouco aqui. Ao contrário, o poema abre-se em outras indagações e finda por se constituir um canto angustiado de alguém que parece sentir-se a esmo à procura de uma resposta, mesmo sabedor de que esta não vem ou não existe (em matéria de poesia) de forma simples e objetiva. O mesmo vale para estas notas. O bom poeta é cônscio de que a única respo...

Duzentos anos com “Frankenstein”

Imagem
Por César Antonio Molina Still Frankenstein , 1931. Os românticos foram a Genebra atraídos pela estrela de Rousseau. Lord Byron escreveu seu célebre poema “O prisioneiro de Chillon” e dedicou a François Bonivard. Formando ângulo com o Petit Palais (um magnifico museu de arte contemporânea), a rua de Saint-Victor recorda um lugar onde esteve um antigo priorado construído na Idade Média. Em princípios do século XVI foi nomeado prior Bonivard a quem em 1530 os Saboyanos prenderam no castelo de Chillon. Solto em 1536 por seus compatriotas, escreveu uma história de Genebra cuja publicação foi proibida por Calvino porque não gostava de seu estilo. Byron resgatou Bonivard do esquecimento e suas crônicas finalmente foram publicadas em 1831. Byron e os Shelley hospedaram-se em Vila Moynier que, durante anos foi o conhecido Hotel d’Aglaterre. Inclusive, em 1818, o escritor e político francês Benjamin Constant passou nele sua lua-de-mel com sua antiga amante, Madame Staël...

Ler literatura pode ser literatura

Imagem
Por Manuel Vilas  Com um título um tanto provocativo, El derecho a escribir mal [O direito de escrever mal, sem tradução brasileira], acaba de ser publicada uma antologia dos ensaios do crítico estadunidense Lionel Trilling (1905-1975). Nela se encontram artigos sobre Liev Tolstói, Mark Twain, Rudyard Kipling, Hemingway, Scott Fitzgerald, Isaac Bábel, Vladimir Nabokov, Gustav Flaubert e Edith Wharton, sobre a função social da literatura e, como não, sobre a morte do romance. Em seguida é preciso dizer que Trilling é um ensaísta que eleva a crítica literária a uma categoria próxima à da filosofia moral. Seus interesses são muito variados, mas quase sempre prevalece nele uma interpretação da literatura que une idealismo e sociologia. O ponto de vista de Trilling sobre a literatura envelheceu um pouco e nota-se, com certa melancolia, que estes ensaios foram escritos no meio do século em uma época desapressada; como denota certa ingenuidade do mundo teórico ante...