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Sobre bolhas sociais e debates políticos em redes sociais

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Por Rafael Kafka Ontem me peguei discutindo com um defensor do fascismo. Um defensor eloquente, não o tipo irritante de cada dia que usa das notícias falsas para propagar a defesa de seu candidato. Mas uma mente que sabia disfarçar sua ignorância com o uso bem arquitetado de alguns conceitos econômicos, os quais expuseram a mim brechas em minha formação leitora. Mesmo sendo da área de Letras, comecei a me sentir irritado por não dominar tais conceitos e usar contra aquela pessoa numa tentativa, mesquinha e egotista, de impedir que a mesma espalhe boatos por aí, inverdades tolas baseadas em cortes de direitos sociais e trabalhistas para garantir o bom desempenho numérico do país. Na mente de pessoas assim, um mercado forte e que se auto regula garante emprego, poder de compra e felicidade a todos. A desigualdade social é algo que deve ser superado por esforço pessoal e pelo Estado deixando as empresas explorarem tal esforço de seus empregados. No afã dos debates acalorados...

O anel do general, de Selma Lagerlöf

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Por Pedro Fernandes “Tinham se embebido de medo de malfeitores com o leite de suas mães; tinham sido ninados até dormir com cantigas sobre bandidos. Consideravam todos os ladrões e assassinos como abominações e demônios, que não deviam mais ser considerados seres humanos. Não achavam necessário lhes mostrar qualquer compaixão” – a reflexão é do narrador de O anel do general na altura em que acompanha, pelo levantamento dos ânimos do pequeno povoado de Broby, o julgamento de três acusados de assassinato de um jovem para o roubo da peça de extrema valia que ocupa do título ao núcleo principal da narrativa. O excerto é trazido aqui porque justifica em parte uma compreensão dos elementos motivadores da obra. Noutra passagem, como se num arroubo metanarrativo, o narrador interpõe: “A caneta cai de minhas mãos. Não é inútil tentar escrever essas coisas? Essa história me foi contada ao crepúsculo à luz de uma fogueira”. Selma Lagerlöf é, por assim dizer, quem se embeb...

Contra o ensimesmamento: Montaigne e a escrita da leitura

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Por Guilherme Mazzafera Salvador Dalí, ilustração para Ensaios , de Montaigne A palavra é metade de quem fala, metade de quem a escuta. Este deve se preparar para recebê-la, segundo o movimento que ela faz. Montaigne, “Sobre a experiência” Meu encontro com Montaigne se deu em circunstâncias precisas. A seleta d’ Os ensaios acumulava pó na estante há mil dias, comprada unicamente pelo encanto causado pela leitura, na faculdade, do ensaio sobre “Os canibais”. Livros comprados enfrentam sinas diversas: alguns são lidos antes de encontrar alojamento; outros, maturam-se por anos de espera e resignação. Ao saber da morte de meu avô, da iminência da viagem e dos dias difíceis que se seguiriam, coloquei-o na mochila e parti rumo a Minas Gerais. Sua leitura incutiu-me um sabor pessoal de descoberta.    Momentos profundos de perda instilam uma necessidade estranha de tudo repensar, em uma tênue linha contemplativa que avoeja da experiência íntima, individual da ...

Madame Bovary: erotismo e sensualidade

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Por Nesfran Antonio González Suárez "Nude on coastal rocks", Warren B Davis Madame Bovary é considerado por uma unanimidade de vozes o romance mais refinado no âmbito literário. É um manual de indução, um curso intensivo do gênero escrito de meados do século XIX e cuja vigência não se vê ameaçada com transcorrer dos anos. Mario Vargas Llosa faz alusão em seu estudo A orgia perpétua a um ponto principal no qual coloca Flaubert; para o escritor peruano, o francês é o primeiro romancista moderno, seguindo a opinião de Ernst Robert Curtius no ensaio Reencontro com Balzac : “Balzac sente um ardente interesse pela vida e nos contagia com seu fogo; Flaubert, com sua náusea”. É por causa de Madame Bovary que Gustave Flaubert (Ruan, 1821; Croisset, 1880) enfrenta em 1857 um processo judicial por ofender a moral e bons costumes; depois de sua absolvição o romance é publicado e obtém enorme êxito. A obra narra a experiência de Emma Rouault, uma jovem ...

Lydia, de Pedro Belo Clara

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Por Maria Vaz   Lydia encontra as suas reminiscências mais profundas no poema “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, de Ricardo Reis. Neste heterónimo de Fernando Pessoa encontra parte do seu espírito filosófico.  Contudo, do supra mencionado poema herda apenas a imperatividade em enlaçar as mãos, presente na primeira estrofe. Nas palavras do autor, pelo início da obra, podemos ler que “a noite morre aqui”. Nesse sentido, toda esta obra é construída pela luz que traz a esperança, como a inevitabilidade de um sol que ascende todas as manhãs. A consciência da transitoriedade da vida está sempre presente: tudo é efémero e tem o seu tempo; todo o zénite solar fora sonhado na noite, qual Inverno da alma que dá lugar ao calor. Aos dias sucede a noite, às estações quentes segue-se o frio; os meses correm com uma gradação natural. Também o encanto e o calor das paixões cede pela satisfação do desejo. Destarte, do espírito epicurista também se vislumbra...

Boletim Letras 360º #295

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Está disponível a edição do Boletim Letras 360º desta semana. Aproveitamos a ocasião para lembrá-los que as inscrições para a promoção que sorteia uma edição de J.R.R. Tolkien: uma biografia , de Humphrey Carpenter continuam a valer até o dia 22 de outubro. Mais detalhes, aqui . Uma edição reunirá todos os contos de Lygia Fagundes Telles. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 08/10 >>> Brasil: Uma antologia que reúne a prosa curta de Fernando Pessoa Pela primeira vez no Brasil é publicada uma antologia dedicada apenas às narrativas curtas de Fernando Pessoa. O aclamado poeta de tantas faces mostra aqui que sua excelência não se resume apenas aos versos. O banqueiro anarquista e outros contos escolhidos  traz 24 textos, 21 de sua autoria, o primeiro deles escrito originalmente em inglês, e três traduções. Nesta obra o leitor vai encontrar vários inéditos, ao menos entre nós, além de uma apresentação aguda e detalhada do pesquis...