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Roberto Arlt, um escritor contra os versos lindos

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Por Valeria Villalobos Buenos Aires, 1928. Robert Arlt, mais cedo que de costume, sobe numa condução rumo ao outro extremo da cidade para ir trabalhar. Não entende a paisagem que contempla. Há tempo que não sabe quem vive na sua vizinhança e seu horizonte se cobriu de edifícios, carros, fábricas, chaminés e massas de gente com itinerários rigorosos. Sentado num “bonde”, que começa a receber mais pessoas que as habituais, conhece o amor à última vista enquanto passa por uma mulher numa parada que desconhece. Abre seu jornal: El mundo . Até isso mudou, o tamanho do jornal. Já não é mais uma folha que requer um escritório de 2x1m. e uma educação rigorosa para ser lido; agora é um tabloide com seções para toda a família que se pode carregar debaixo do braço. Arlt observa pela janela e percebe que no antigo relojoeiro que viu tantos anos preso em seu local e em seu lugar há apenas uma paisagem com vitrines imponentes. Lê sua última colaboração nesse novo jorn...

Boletim Letras 360º #337

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Uma semana que separa o fim de um mês e o início de outro. Um breve boletim recheado de dicas de leitura para a semana que começa e as listas que continuam. E, antes de tudo, duas recomendações semiurgentes: em breve, realizamos o sorteio de o nosso reino e Contos de cães e maus lobos , de Valter Hugo Mãe (nas novíssimas edições da Biblioteca Azul / Globo Livros) – saiba tudo aqui ; nosso bazar continua com livros à procura de leitores – compre um livro e ajude às despesas de hospedagem do blog. Um Machado de Assis praticamente desconhecido dos leitores contemporâneos volta a circular. Segunda-feira, 29 de julho Todo o Machado de Assis cronista da Semana  reunido numa primorosa e inédita edição Entre junho de 1869 e março de 1876 Machado de Assis publicou uma crônica semanal na revista que se declarava humorística chamada Semana Ilustrada , de circulação quase exclusiva, desde 1860, no Rio de Janeiro, então denominada a corte. De um total de cerca de 300 crôni...

Enseio

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Por Guilherme Mazzafera Há algo de instigante na saborosa percepção de Otto Maria Carpeaux (1999) sobre o grande poeta francês François Villon: dono de uma vida das mais desregradas, na qual se misturam toda uma variedade de petit crimes , impropérios e violações (pode um assassino escrever um bom poema?), sua lavra de versos é uma das poesias mais ordenadas e conscientes de que se tem notícia. Haveria, em tal fenômeno, um secreto jogo de compensações em que, à vida fragmentada, contrapõe-se a ordenação possível da arte. Separados por um século, a escrita de Montaigne talha caminho semelhante, embora oposto – o retiro determinado para sua biblioteca para pensar, refletir e escrever constitui um prolongado memento mori que, em diálogo profundo com as vozes do passado, encontra seu caminho pela expressão sincera e cuidadosa de uma verdade pessoal que, mediada pelo critério da razão, se expõe como inédita perspectiva autorizada. A dimensão ordenadora da escrita, que para...

Boa noite, amazona, de Manoel Herzog

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Por Pedro Fernandes “Havia, na insipiência de iniciante tardio, desenvolvido um método literário que consistia em fazer uma reportagem da própria vida, um confessionário. Depois de algum tempo sacava da gaveta esse acervo e começava a enxertar de fantasias ou experiências alheias. Impessoadas assim minhas histórias, dava-lhes o rótulo de ficção, descomprometendo autor e personagens.” Essa passagem de Boa noite, Amazona é parte do capítulo referido por uma carta do tarô de Marselha intitulada “O Mago”; trata-se de um arroubo metanarrativo que oferece ao leitor alguma chave para acesso ao caudaloso e, por vezes, irreal e inverossimilhante, universo de um narrador incapaz de narrar porque tomado por uma crise de criatividade, o que é apenas uma pequena parte de outra crise de ordem pessoal. A princípio, poderá o leitor acreditar que se situa no interior de uma confissão muito à vontade desse narrador sobre uma viagem empreendia pelas sendas da região amazônica de Manaus; ma...

O anjo, de Luis Ortega

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Por Pedro Fernandes É verdade que as cinebiografias se inscrevem no rol das criações mais difíceis. Mas, o erro mais grotesco cometido por cineastas de toda parte é querer se aproximar ao máximo da verdade histórica e construir uma narrativa que seja estreitamente a vida do biografado e, como se isso não fosse a pura aberração, ainda insistem em obrigar todo o elenco principal a se integrar nas feições originais das figuras originais. Esquecem-se que nenhuma obra é capaz de reportar integralmente o passado; este é uma lembrança que não volta mais. O ponto de partida e situações diversas vividas no interior da ficção são originais, mas o resto será sempre produto da imaginação criadora. Tentar alcançar o inalcançável resulta uma obra de falso brilho, caricata, e coloca em falso a própria verdade que se quer apresentar, sobretudo, se essa for o perfil biográfico de alguém. Nossa natureza é continuamente contraditória, por isso marcada por matizes discrepantes, e os autore...

Primo Levi, entre o horror, a palavra ou o silêncio

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Por Sergio Nudelstejer Em abril de 1987 recebemos a triste notícia sobre o suicídio do escritor Primo Levi. Quando um escritor se suicida é difícil não reinterpretar seus livros à luz de seu último ato. E a tentação é particularmente forte no caso de Primo Levi, já que grande parte de sua obra nasceu de suas próprias experiências em Auschwitz. O calor e sentido humano de seus escritos o converteram num símbolo para seus leitores; no símbolo do triunfo da razão sobre a barbárie do genocídio. Mas, para alguns, sua morte violenta questionava esse símbolo. Em certos casos, o suicídio de um escritor é visto como a conclusão lógica de tudo o que escreveu ou como uma contradição irônica, mais que o resultado de uma tormenta puramente pessoal. Primo Levi apareceu como um dos intelectuais mais incisivos e mais francos entre aqueles que experimentaram a dor do Holocausto e sobreviveram para narrar tudo o que viveram. Seria difícil encontrar alguém além dele capaz de exp...