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Boletim Letras 360º #387

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DO EDITOR 1. Inicio este Boletim com uma nota, voltando a pensar sobre a atitude insensata de algumas pessoas no tratamento com o trabalho alheio. Peço desculpas ao leitor por me repetir, mas o assunto será sempre retomado toda vez que passarmos pelo constrangimento do ataque. É uma maneira de reeducação dos sentidos o apelo que se lê a seguir e divulgado esta semana na página do Letras no Facebook, onde uma de nossas colunistas foi exposta por um hater. 2. O blog Letras in.verso e re.verso está online desde o final de 2017. Chegou às redes sociais nos últimos anos do Orkut e está no Facebook desde 2010. Nesta rede, dois anos mais tarde, passamos a ocupar o espaço para, além de divulgar os conteúdos do blog, com notícias variadas relativas ao universo de nosso interesse, ou como se diz, de acordo com nossa linha editorial. Todo o trabalho executado por quem mantém esta página e pelos colaboradores que escrevem e publicam no blog é desempenhado sem quaisquer outros incentivo...

Virtudes da culpa

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Por Paula Luersen Marina Abramovic em  Ritmo 0 , 1974. Uma mulher vestida de preto repousa em meio a uma sala branca. Ao seu lado, uma mesa com vários itens distribuídos. Em um dos extremos: um pote de mel, pedaços de pão, plumas, algumas rosas, um vidro de perfume. Avançando ao outro extremo: uma tesoura, um martelo, facas, correntes, uma pistola e uma bala. Em meio a esses e outros objetos, as instruções referentes à mulher posicionada no meio da sala: “Eu sou um objeto. Você pode fazer o que quiser comigo. Tomarei responsabilidade por todos os atos dentro das próximas 6 horas.” Esse era o cenário da performance artística Ritmo 0 , de Marina Abramovic, apresentada em uma galeria de arte na Sérvia, em 1974. Que efeito pode gerar a assinatura de uma mulher permitindo que façam o que quiserem com ela, sem que se sofram consequências? As portas foram abertas e, ao tomar consciência da proposta, o público começou a agir. Inicialmente, a performer teve o corpo ma...

De fotobiografias. A formação de Antonio Candido

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Por Pedro Fernandes Uma fotobiografia é um arquivo pessoal aberto para o mundo. Quando o registro fotográfico abandona o espaço íntimo todo um sentido é ampliado ou tornado outro. E na era da reprodutibilidade, toda fotografia encontra-se suscetível à manipulação e revisão de seu estatuto. O que dizer das centenas de milhares de partilha de não fotografias de Clarice Lispector, ou do retrato manipulado de Frida Kahlo como a adolescente sensual de arma na mão, ou da montagem dos encontros de Rimbaud e Verlaine sobre os quais não sobram o registro por foto, ou a falsa imagem de um George Orwell no front depois de adotar um cão abandonado? Tudo isso significa que a ideia original segundo a qual uma fotografia é a transformação de um instante em força perene não é mais, sozinha, um conceito sobre o seu papel. É óbvio que a lógica do mais puro realismo a ela atribuída começou por se modificar desde o aparecimento do cinema e das diversas técnicas de manipulação da imagem, nascid...

Da releitura como habitação

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Por Guilherme Mazzafera “Ler é cobrir a cara. E escrever é mostrá-la” Alejandro Zambra, Formas de voltar para casa Sem título. Gianni De Conno. Há um pequeno gesto que fazemos ao querer dissipar um pensamento incômodo: um menear de cabeça, um estalar de dedos, um raspar de dentes. O vincar da unha na carne para impedir o espirro. No meu caso, é forçoso dizê-lo, tenho crises de releitura. Elas surgem sem aviso: irrompem em meio ao rijo tecido de uma rotina estrábica, avultam sem refreio, exigem controle do parco tempo administrável. Muitas vezes, basta ver o nome de um autor querido, há muito olvidado, em texto alheio. Outras, o rápido vislumbre de sua lombada esquiva no amealhar-se da estante. Em suma: saudade. Do texto, do autor, de nós mesmos enquanto lemos. No primeiro volume dos diários de Emilio Renzi há uma passagem que fala da pungência mnemônica do leitor, que resguarda não tanto versos, enredos, personagens, mas o lugar em que lê determinado livro e, ...

Rei Lear na pandemia

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Por Santiago González Sosa y Ávila Rei Lear. Benjamin West (1788). Museu de Belas Artes, Boston Que imagem mais sugestiva do que a de Londres em 1606, atingida pela praga? As ruas desertas, as lojas fechadas, um ou outro cachorro sem dono, os teatros vazios, o estrídulo dos sinos que dobram diante das dezenas de mortos e William Shakespeare isolado escrevendo Rei Lear em seu ócio produtivo. Sem dúvida, uma lenda demasiado romântica para não repetir até a exaustão. Ou seria, se ao menos não falássemos da mais tremenda tragédia shakespeariana, a mais excruciante, aquela que “melhor reflete a mentalidade apocalíptica e o medo do declínio do mundo”. Vários meios de comunicação se envolveram na divulgação dessa anedota, talvez para nos inspirar ou discutir a probabilidade de que isso realmente aconteceu. Até James Shapiro, o especialista que serviu de fonte para muitos desses artigos, esclareceu que Shakespeare não compôs a peça quando a praga atingiu os londrinos, mas dura...