Postagens

Boletim Letras 360º #438

Imagem
DO EDITOR   1. Olá, como se diz, continuamos a passar o chapéu para arrecadar fundos para custeio do domínio do blog por mais um ano online. Como nos últimos quatro anos, vendemos alguns livros neste bazar . Você pode não se interessar pelos livros, mas ajuda compartilhando esta post com os amigos. 2. Nesta semana, abrimos também a possibilidade de receber doações avulsas via PIX. Para ajudar com qualquer valor basta nos contatar pelo e-mail blogletras@yahoo.com.br ou por uma das nossas redes sociais. 3. A todos que de alguma maneira nos ajudaram até aqui, reiteramos publicamente nossos agradecimentos. E, continuamos. Boas leituras! Joseph Conrad. Foto: The Granger Collection / Forum   LANÇAMENTOS Obra pouco conhecida de John Milton, mas igualmente grandiosa, ganha tradução e edição no Brasil .   Composta em versos trágicos à moda clássica, a peça dramática de Milton acompanha as últimas vinte quatro horas do herói bíblico Sansão, já cego após ter sido traído por D...

La Fontaine, quatrocentos anos de “Era uma vez...”

Imagem
Por Marta Ailouti Ilustração: Henri Galeron   “Muitas vezes encontramos nosso destino nos caminhos que tomamos para evitá-lo”, dizia Jean de La Fontaine. Pai da fábula moderna, o francês reescreveu muitas das histórias de Esopo e Horácio, mas também das tradições orientais, adaptando-as ao seu tempo, com um estilo mais refinado em forma de poesia. São dele as versões de “A cigarra e a formiga”, “O gato e o rato” ou “A raposa e o busto” que todos conhecemos hoje, contos de moral, máximas de sobrevivência e instrumentos pedagógicos de primeira ordem nos anos em que a cultura popular ainda era plenamente oral.   Escritor fundamental da literatura francesa, Flaubert disse que ele era o único capaz de compreender e dominar as texturas da língua gaulesa. Quando se cumprem 400 anos após o nascimento do escritor, um dos mais traduzidos e lidos do mundo, a editora Libros del Zorro Rojo publica uma edição comemorativa de suas fábulas, ilustradas por outro artista virtuoso, Marc Chagall,...

Notas para uma definição do leitor ideal, de Alberto Manguel

Imagem
Por Pedro Fernandes Alberto Manguel. Foto: Bruno Simão. Na nota em modo de preâmbulo a estas Notas para uma definição do leitor ideal , Alberto Manguel diz: “Cada livro, cada história pode ser, assim como para Sherazade, uma estratégia contra a morte; pode ser também um projeto para uma vida melhor, como Dante imaginou, ou pelo menos um pouco mais justa, como sonhou D. Quixote. Acho que é apenas isso, com ligeiras variações, o que venho repetindo nos meus textos desde o princípio, há muito tempo.” Esses instantes de alumbramento se fazem recorrentes ao longo dos ensaios reunidos neste livro — prefiguram o que poderíamos designar como uma segunda voz, a de um leitor, atento à tarefa de inferir sobre o que assevera o ensaísta, muitas vezes, assumindo-se parte própria da constatação. Esta é uma maneira interessante de demonstrar que a ensaística, pelo menos nesse caso, se organiza sob um duplo par de olhos, o do escritor e o do leitor; é a transferência para o convívio interno do tecido t...

Extraordinários e malditos

Imagem
Por Laura Fernández Stanley Elkin. Foto: Marion Ettlinger   É uma noite de inverno em Nova York. No reservado de um pequeno bar subterrâneo na North Square, que serve coquetéis com o nome da mulher que urbanisticamente salvou Manhattan, Jane Jacobs, A. M. Homes, a escritora, fala sobre sua filha adolescente e Stanley Elkin. Ela diz sobre sua filha que está preocupada porque não sabe realmente o que se passa em sua cabeça. É um mistério, diz. E algo complicado, porque tem amigos complicados. Sobre Stanley, diz que também era um cara complicado, mas o que fazia ia me agradar porque era “muito engraçado”. “Ele era do Brooklyn”, diz. “Como Gilbert Sorrentino”, acrescenta também. Quase nunca ouvi falar de nenhum deles.   Pesquiso-os. Compro todos os livros de cada um deles que consigo encontrar. Descubro que o primeiro nasceu em 1929 e que o segundo nasceu um ano depois. Imagino suas mães cruzando-se com eles em carrinhos de bebê pelas ruas do Brooklyn. Fantasio que se viram t...

Aquiles e Odisseu: a fórmula memorável e seus ecos futuros

Imagem
Por Marilena De Chiara   Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens. Jorge Luis Borges, “O imortal”* Aquiles velado e Odisseu, c. -470. Museu Britânico   1. O corpo e a mente   Uma fórmula é, ao mesmo tempo, uma sequência contínua — de operações, de palavras, de gestos — e uma interrupção. Quebra o fluxo anterior e sugere os passos a seguir, para que a retomada tenha mais intensidade e seja mais precisa. A natureza da forma dos poemas homéricos revela a sua natureza linguística dual: a Ilíada e a Odisseia são, ao mesmo tempo, canto e memória, invocação do presente e uma evocação do passado. Captam a história — mítica, mitológica e fundacional — por meio da sequência narrativa, interrompida por epítetos e fórmulas que reiteram a posição e a função de cada personagem e de cada intercâmbio ritual.   Aquiles é “o de pés velozes”, Odisseu é “ardiloso”. O primeiro é treinado para a guerra e a glória; o segundo, para a estratégia e a retórica. Ambos lutam em ...

Anna Kariênina, de Lev Tolstói

Imagem
Por Joaquim Serra Anna Kariênina , o maior romance social da literatura mundial, como escreveu Thomas Mann, oferece ao leitor a possibilidade de entender um modo de representação que já não existe mais, uma história pensada e a serviço da suposição de um mundo visto em sua totalidade – por isso, perfeitamente trabalhada no modo de narrar. Essa representação épica das características individuais que levavam ao modo de vida de uma época, ali mesmo, na Rússia da segunda metade do século XIX, convivia com o mundo visceral e distorcido de Dostoiévski e seria abalada pelos contos de Anton Tchekhov, o “realista do colapso”, como o chamou Raymond Williams. Thomas Mann, numa síntese comparatista invejável, escreve: “É do elemento homérico que falo, do eterno-narrativo como arte-natureza, como ingênua magnificência, corporeidade, objetualidade, saúde imortal, realismo imortal. Isso era forte em Tolstói, muito mais forte do que em qualquer artista épico da época moderna, o que diferencia seu gên...