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Hans Fallada. Loucura e inferno

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    Por Fernando Clemot   Meu querido filho, Uli, mamãe me disse que você não está se sentindo muito bem, que está muito abatido. Suspeito que você pode ter ouvido coisas sobre seus pais que o deixaram muito triste. Quero ser honesto com você...   Algumas coisas aconteceram — por minha causa — que nunca deveriam ter acontecido. Mas nada do que se conta aconteceu como as pessoas dizem: tudo foi menos grave e, sobretudo, reina a certeza de que tudo voltará ao seu lugar. Fiquei doente por muito tempo sem saber... Estou me curando e espero...   Vou escrever algumas linhas sobre mim: a casa em que moro é triste e estranha, e está cheia de homens muito doentes, dos quais sou o mais saudável. As regras da casa são muito rígidas: eles nos fazem ir para a cama às sete e meia e se levantar perto das seis. Como você entenderá, seu pai não consegue dormir tantas horas. Passo a noite acordado, olho as estrelas no céu, ouço o zumbido dos aviões, ouço o relógio bater as horas,...

Um Dostoiévski de carne e osso

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Por Rebeca García Nieto Ilustração: Gnoori Design   Susan Sontag foi clara: se tivesse que escolher entre The Doors e Dostoiévski, é claro que escolheria Dostoiévski. Mas por que você teria que escolher? Sontag pôs assim o dedo na ferida da distinção entre a “alta” e a “baixa” cultura, e fê-lo, curiosamente, destacando Dostoiévski, escritor que suscitou interessantes reflexões de pessoas como Freud, Borges ou Gide, mas também para parte de uma música de Belle and Sebastian e outra de The Go-Betweens.   É possível que Dostoiévski seja tão popular quanto os Beatles — que, por sua vez, são mais populares que Jesus Cristo —, outra coisa é que a imagem que se impôs na cultura popular corresponde exatamente à realidade. Belle and Sebastian, por exemplo, associam o escritor à tristeza (“I’m not as sad as Dostoevsky, I’m not as clever as Mark Twain”), e não vou dizer que ele fosse a alegria do jardim, mas sim, há também um Dostoiévski mais zombeteiro, mais sarcástico, e esse lad...

Boletim Letras 360º #472

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DO EDITOR   1. Caro leitor, entramos no mês quando realizaremos o terceiro sorteio entre os apoiadores do blog. Essa é uma ideia criada para levantar os custos anuais deste projeto com domínio e hospedagem na web e para participar é simples: sem qualquer fidelidade, você pode se inscrever e participar dessa e de outras promoções.   2. Saiba tudo aqui , incluindo outras formas de ajudar: uma delas é que, na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras .     3. Em nome do Letras , obrigado pela companhia e pelo apoio! W. H. Auden. Foto: George Platt Lynes      LANÇAMENTOS   As aulas de W. H. Auden sobre William Shakespeare .   Entre outubro de 1946 e maio de 1947, com frequência semanal, Auden dá uma série de aulas na New School for Social Research de New York, dedicadas ao teatro e aos sonetos de Shakespeare. Mas engana-se quem imagina terem sido seminários sisudos...

Pier Paolo Pasolini escritor: a revolução permanente

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Por Luis Antonio de Villena Pier Paolo Pasolini. Foto: Imago Images/ Leemage Dizemos bem. A revolução começa e termina, e muitas vezes mal. Trótski estava equivocado: não a revolução, mas a rebelião. Esse foi o signo de Pier Paolo Pasolini, toda a sua vida, quase desde seu nascimento em Bolonha, até agora um século depois. Seu pai (militar) e sua mãe (professora primária) não seguiram caminhos muito semelhantes, e Pier Paolo escolheu o caminho de sua mãe.   Em anos incertos, e já com o fascismo no poder, viveram em muitos lugares, vários no Veneto. Pasolini estudou em Bolonha, mas acabou na cidade da parte da família materna, Casarsa, onde se fala o friulano. Em 1941 publicou um pequeno livro de poemas, Versi à Casarsa , que chamou a atenção de Gianfranco Contini, que se tornaria um crítico muito notável. Pasolini deu aulas — não permitidas — no lugarejo. E conta-se que sua descoberta sexual (também um vetor de seu trabalho) começaria então com um de seus alunos, por volta de 1944....

Uma pequena biblioteca modernista

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Caipirinha. Tarsila do Amaral. Óleo sobre tela, 1923. Em “A Semana de Arte Moderna de 1922. Revisitações”, Pedro Fernandes sublinhava que a melhor maneira de compreender o papel para a literatura brasileira do agora evento centenário consistia em ler a obra dos modernistas em diálogo com seus antecedentes e com as influências que negaram ou buscaram se desviar. Ora, essa observação válida para quaisquer conceitos ou aparelhos crítico-teóricos derivados da literatura ou que se preocupe pensar o texto literário, pode ter levado o leitor a se perguntar quais são essas obras. Foi dessa inquietação que pensamos preparar uma lista de leitura com alguns atalhos para o nosso curioso leitor.   A primeira dificuldade foi estabelecer um recorte capaz de abrigar um número significativo de obras da literatura brasileira possíveis de filiarmos aos pressupostos da Semana. Isso porque, a parte significativa da produção literária naturalizada nessas diretrizes — isto é, sem demonstrar certo didatis...