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Mundo Shakespeare

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Por Vicente Molina Foix Sir John Gilbert. The Plays of William Shakespeare .   Quão difícil é escrever bem sobre Shakespeare. Continuar escrevendo, quero dizer. A angústia das influências precedentes, que levam ao nome de Goethe, Coleridge, Stendhal, Hegel, Auden, Ted Hughes, Virginia Woolf, pode afetar qualquer um, embora não a Harold Bloom, que transformou o bardo, sem se intimidar, em inventor do humano; quantas páginas shakespearianas devemos ao professor estadunidense? Certamente não mais que mil e quinhentas, um caso extraordinário de hubris contemporânea, de tomar a si próprio como Falstaff, não apenas no sentido físico, censurando ao criador as inconsequências e traços mais grossos de sua criatura sir. John. Se pensarmos bem, não é uma má maneira de amar os artistas: sentir-se tão autorizado pela própria devoção, pela fidelidade obsessiva a um autor, como para — num delírio que a literatura é muito capaz de abonar — acreditar-se com direitos de mimesis, de entendimento par...

Dez livros imprescindíveis de Javier Marías

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Por Jaime Cedillo Das sete décadas de vida, cinquenta foram dedicados à escrita, dedicação que remonta a 1971, com apenas 19 anos, portanto, quando estreou com o romance  Os domínios do lobo . Nesse tempo, Javier Marías formou um universo muito pessoal que lhe valeu o reconhecimento dos mais prestigiados críticos internacionais. Por mais de uma década, não houve um ano em que seu nome não circulasse entre as apostas para o Prêmio Nobel de Literatura, o prêmio mais relevante para escritores. Na Espanha, muitos foram os que até hoje afirmaram que ele era o melhor escritor entre os contemporâneos. Marías, com a indiferença que sempre o caracterizou, negou todas essas posições até sua morte.   De qualquer forma, o lançamento de cada um de seus romances gerou expectativas sempre elevadas na crítica especializada e em seus leitores mais fiéis. Suas obras foram traduzidas para quatro dezenas de idiomas e publicadas em meia centena de países. Quanto ao seu início como romancista, se...

As raízes reais e literárias de Macondo

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Por Winston Manrique Sabogal Ilustração: Luisa Rivera   Um dia, o menino Gabriel García Márquez (1927-2014) estava olhando pela janela em um trem amarelo, que não parava de soltar serpentes de fumaça a cada apito, e leu na entrada de uma fazenda uma placa metálica azul que em letras brancas dizia: Macondo. E a palavra voou para se esconder em algum refúgio de sua memória.   Macondo não nasceu no dia em que todos acreditam. Macondo tem sete atos fundadores: três têm a ver com a aparição desse território ficcional em dois livros; dois são citados pela primeira vez pelo autor sem que seus livros tenham sido publicados, e os outros dois provêm de suas experiências que darão origem àquela cidade mítica. Para encontrar suas raízes, é preciso refazer o caminho da imaginação das pessoas à realidade.   No imaginário universal, esse território nasceu no início de Cem anos de solidão (1967): “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía deveria ...

Boletim Letras 360º #505

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DO EDITOR   1. Caro leitor, até o mês de novembro, lembrarei aqui sobre o sorteio que agora o blog realiza com o apoio da Editora Trajes Lunares. A casa disponibilizou dois Kits de livros para sorteio entre os participantes do nosso clube. Este clube de apoios é uma das alternativas para ajudar este blog com o pagamento das despesas anuais de hospedagem na web e domínio.   2. Para participar dos sorteios é simples. Envia um PIX a partir de R$15 a blogletras@yahoo.com.br; para saber mais sobre os livros da Trajes Lunares disponíveis, sobre outras formas de apoiar, visite aqui . E lembro que: a aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste Boletim garante a você desconto e ajuda ao blog sem pagar nada mais por isso .   3. Bom final de semana e boas leituras!   LANÇAMENTOS A portentosa biografia de Fernando Pessoa . Se levássemos em conta todos os personagens fictícios que povoaram a mente de Fernando Pessoa, o número ultrapassaria a marca dos cem ...

Literatura no século XXI

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Por Gisela Kozak Rovero Quando Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, decidi ler os sete volumes de Em busca do tempo perdido , de Marcel Proust, como uma pequena homenagem aos tempos em que a literatura e os livros eram considerados o ápice da criatividade humana. Aos meus muitos amigos surpresos com minha posição, avisei que era uma escolha pessoal: a escrita em formato de livro para se desfrutar sozinho, casamento feliz e fértil que mudou o mundo para sempre desde a invenção de Gutenberg.   Sem menosprezar Dylan, gostaria que Margaret Atwood, Antonio Muñoz Molina ou Amoz Oz ganhassem o prêmio literário mais famoso do planeta. Não esquecia a antiga relação entre poesia e música, evidente na canção, gênero poético onipresente na contemporaneidade; nem a dificuldade de estabelecer os critérios de autoridade que legitimam ou não um determinado discurso como literário. A rigor, Dylan é um poeta que canta ou, se preferir, um músico que escreve poesia. Além disso, sua capacidad...

Balada do velho amor

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  Cristina Peri Rossi e Julio Cortázar, Paris, 1973. Foto: Julio Cortázar.   Em 2014 foi comemorado o centenário do nascimento de Julio Cortázar e os trinta anos de sua morte. Como de costume, multiplicaram-se as publicações e eventos referentes ao autor belgo-argentino. Além de seu lugar privilegiado no chamado boom da literatura latino-americana dos anos sessenta, acrescenta-se a suas características especiais como escritor e como personagem, que o tornaram atrativo para as novas gerações de leitores. Já se disse que Cortázar, além de ser apreciado por sua literatura, é também amado. Essa relação fraterna entre leitor e autor faz dos seus seguidores intransigentes diante da visão crítica, aquela que afirma que sua obra envelheceu. Mas, além da polêmica, Cortázar é um formidável contista que soube experimentar com o gênero romance, algo que ficou marcado em O jogo da amarelinha (1963) uma obra que permaneceu no centro de interesse de mais de uma geração. Ele é um escritor fu...