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As guelras da escritora

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Por David Toscana Lídia Tchukóvskaia. Foto: I P Bronstein   Andrei Siniavski e Yuli Daniel foram dois escritores moscovitas da era soviética. Diante dos obstáculos impostos pela censura para publicar, passaram a enviar suas obras para o exterior sob os pseudônimos de Abram Terz e Nikolai Arzhak. Num belo dia de setembro de 1965, a longa mão da injustiça comunista caiu sobre eles. Foram presos por cinco meses até que em fevereiro de 1966 condenados a trabalhos forçados na Sibéria por sete e cinco anos, respectivamente.   Grande parte do mundo acompanhou o caso com indignação, já que até mesmo esquerdistas de vários matizes acreditavam que a União Soviética estaria melhor isentando esse par de escritores. Havia outra parte da obediência vermelha que esperava o veredicto, para aplaudi-lo, fosse ele qual fosse.   O julgamento foi uma montagem de vaga aparência legal, aplicando leis que pouco têm a ver com direitos humanos. Como não existia o crime de publicar ficção no e...

Boletim Letras 360º #521

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, divulgamos em nossas redes sociais e neste blog, na seção Ajuda, os livros disponibilizados para o próximo sorteio entre os apoiadores do Letras : Lições , de Ian McEwan (Companhia das Letras) e Aniquilar , de Michel Houellebecq (Alfaguara).   2. Sortearemos dois leitores. Para enviar seu apoio e concorrer a um dos dois livros basta enviar a partir de R$20 através do PIX blogletras@yahoo.com.br e em seguida fornecer o comprovante por este mesmo endereço de e-mail. Para outros detalhes, acesse aqui .   3. Outra forma de apoio é a aquisição de qualquer um dos livros apresentados pelos links ofertados neste Boletim; ou qualquer produto neste link .     4. Desde já, agradecemos o convívio neste projeto. Um rico final de semana para vocês! Antonio Candido. Foto: Cris Bierrenbach   LANÇAMENTOS Coleção Antonio Candido .  A editora Todavia anunciou a chegada de cinco dos dezessete títulos preparados no âmbito da ree...

Perigos e fontes da escrita

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Por Norman Mailer Ilustração: Leonard Beard    Kurt Vonnegut e eu somos amigos, embora com alguma reserva. Em dado momento de nossas vidas, costumávamos sair muito juntos, porque nossas esposas gostam uma da outra. Kurt e eu nos sentávamos então, como suportes de livros. Tínhamos muito cuidado um com o outro; nós dois sabíamos o alto custo de uma luta literária, então certamente não queríamos discutir. Por outro lado, nenhum cometeu o erro de dizer ao outro: “Nossa, gostei do seu último livro”, para logo se encontrar com um silêncio pois o interlocutor não poderia retribuir. Então estávamos falando sempre sobre outra coisa: Las Vegas ou as Hébridas. Só tivemos uma conversa literária durante uma dessas noites em Nova York. Kurt ergueu os olhos e suspirou: “Bem, terminei meu romance hoje”, disse ele, “e isso quase me matou”. Quando Kurt fica sentimental, fala com um velho sotaque de Indiana que não consigo reproduzir. Sua esposa murmurou: “Oh, Kurt, você diz isso toda vez que te...

Aniquilar, de Michel Houellebecq

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Por Pedro Fernandes Michel Houellebecq. Foto: Barbara d'Alessandri. Michel Houellebecq tem lugar fixo entre as vozes mais interessantes na literatura do entre-séculos XX e XXI. A combinação entre uma boa narrativa e a análise crítica, sempre por um ponto de vista fora da linha majoritária, não é uma qualidade nova para o romance, mas o que deveria ser uma obviedade deixa de ser quando encontramos o romanesco ora tomado pelos discursos que certos coletivos querem ler ora interessado em superar pela subversão mas desastradamente os recursos técnicos da arte de narrar. Aniquilar está perfeitamente situado nos modelos tradicionais, flertando mesmo com expressões que para alguns foram há muito superadas, como o folhetim, ou ainda com formas de narrar reduzidas pela crítica como mainstream ou literatura de massa, como o romance especulativo.   A qualidade de um escritor, sabemos, não se mede apenas pelas inovações técnicas na forma e na estrutura da narrativa e sim — talvez mais — ...

Entre fantasmas: “A baleia”, de Darren Aronofsky

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Por María José Furió   Todos nós já vimos a cena: as luzes se acendem e o público da estreia do Festival de Cinema de Veneza 2022 irrompe em aplausos enquanto seu protagonista, Brendan Fraser, que parece ainda concentrado nas imagens do filme, permanece sentado até que os aplausos se transformem em ovação; à sua volta, este e aquele pede-lhe que se levante, ele o faz, demora um pouco para que a perna enrugada da calça do terno adquira uma compostura de noite de gala. Com um sorriso incrédulo, olha em volta e, com aparente timidez, agradece o reconhecimento do público profissional, de seus colegas de elenco e do diretor Darren Aronofsky.   A imprensa e os meios de comunicação têm repetido até a saciedade: esse papel protagonista de um professor que sofre de obesidade mórbida marca o retorno ao cinema de qualidade pela porta de entrada de um ator que experimentou duas descidas ao inferno reservadas aos atores de Hollywood, o dos filmes menores e o descarte físico. Como Marlon Br...