Postagens

Atravessar Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida

Imagem
Por Renildo Rene Djaimilia Pereira de Almeida. Foto: José Carlos Carvalho   Da capital de Angola para a capital de Portugal são aproximadamente 8.500 km; aproximar dois locais, dois continentes diferentes, não é tarefa fácil, porque ainda requer confrontar culturas e desejos, muito além do afastamento físico.   Percorrer esse trajeto é o objetivo de Cartola e Aquiles, pai e filho, no enredo de Luanda, Lisboa, Paraíso . A partir de uma deficiência física no calcanhar que o menino porta desde seu nascimento, os seus pais (ao lado, a mãe Glória) alçam desde cedo um objetivo de procurar uma solução determinada. Para a família angolana (há ainda a filha Justina) vivendo em um país que caminhou para a independência no início da segunda metade do século XX e sem recursos médicos palpáveis para tratamentos delicados, Portugal se tornou sonho nesse seio familiar.   Deslocar-se do hemisfério sul para o hemisfério norte, no mundo das globalizações que aproximam, é um movimento ...

Filho de Jesus, de Denis Johnson

Imagem
Por Sérgio Linard Denis Johnson. Foto: Marion Ettlinger   A cultura pop estadunidense tem um hábito de recorrer a questionamentos e a usos de artigos, de dizeres e de hábitos do cristianismo como forma de chamar atenção e de alcançar uma maior plataforma de sucesso. Engolir um terço, questionar a vida/existência de Jesus, demonstrar desprezo pelas instituições eclesiásticas são alguns dos vários casos que poderia citar aqui. Todos realizados com um único propósito: chamar atenção dos fanáticos que, esbravejando autoridade sobre aquele tema, promovem os autores daquela dita blasfêmia.   Ao escolher o título de seu livro, Denis Johnson, escritor naturalizado estadunidense, recorre ao expediente acima citado: “chocar para promover”. Na antologia de contos Filho de Jesus , o leitor não encontrará conto algum com este título.   A expressão que intitula a coletânea, também não aparece explicitamente em nenhum dos onze contos que integram o livro. O único momento em que se pode...

Da plenitude ao colapso: o sublime em Caspar David Friedrich e em Werner Herzog

Imagem
    Por André Cupone Gatti   Considerações iniciais   I   O sublime, pensado conceitualmente desde o começo do primeiro milênio pelo filósofo Longino, provável autor de “Do Sublime”, talvez jamais servira tão bem a uma época de renovação cultural quanto ao período do romantismo. Repensado por muitos filósofos dos séculos XVIII e XIX, dentre os quais destacam-se Edmund Burke, Immanuel Kant e Friedrich Schiller, a ideia de sublime se mostrou peça importante nas investigações acerca da natureza das emoções humanas e dos mecanismos da arte.   Longino diz que “o sublime é a violência que desequilibra”, um choque que nos tira de nós mesmos e nos leva ao êxtase; ele ainda enumera cinco origens do sublime, sendo duas naturais, inatas, e três construídas, relacionadas à arte. Séculos depois, para os filósofos dos séculos XVIII e XIX, ainda serviriam os pensamentos de Longino como base para conceituar o sublime, agora sob a luz da Estética. Edmund Burke defende que o...

Três maneiras de ler o Quixote

Imagem
Por Daniel Gascón Dom Quixote visita uma gráfica em Barcelona. Desenho de Luis Paret y Alcázar.    É possível que uma das condenações dos clássicos seja que nunca os deixamos descansar, até porque também não nos deixam descansar: um clássico é, como dizia Italo Calvino, um livro que nunca se termina de ler, e um livro que sempre nos diz coisas sobre o presente. A segunda parte de Dom Quixote , a que faz da obra o primeiro e inesgotável romance moderno, cumpre essa condição mais claramente do que outros livros. A lista poderia ser muito mais extensa; mencionarei apenas três exemplos.   No capítulo LIII, após sua experiência como governador da Ilha Barataria, Sancho Pança conhece Ricote, um mouro natural de sua aldeia. Um édito de setembro de 1609 havia decretado a expulsão dos mouros, completando a sinistra tarefa que os Reis Católicos haviam iniciado ao expulsar os judeus em 1492. Ricote, disfarçado, vai com alguns peregrinos alemães e quer recuperar o dinheiro que...

Tennessee Williams, também maldito, afinal

Imagem
Por Javier Memba Tennessee Williams. Foto: Yousuf Karsh   Sempre que escrevo sobre algo ou alguém relacionado ao teatro, antes de entrar no assunto, tenho que explicar novamente a origem da minha animosidade em relação a tudo que diz respeito à cena. Teimosia, de fato. Obstinação até a medula dos meus ossos. Agora, não é gratuita, como, de fato, são tantas das minhas grandes fobias. Odeio o teatro e tudo que diz respeito a ele. Dos cenários que simbolizam grandeza à afetação dos atores, que em entrevistas falam da capacidade da farsa para esclarecer os ignorantes. Sim senhor, eu odeio teatro com toda a minha alma porque sou um cinéfilo. Cheio, então, de amor pela tela, repito mais uma vez, mas com o prazer de sempre: se o cinema, em sua aurora, não tivesse sabido livrar-se da influência fatal do palco, jamais teria concebido sua própria linguagem: a articulação da narração em planos.   Voltemos a esses alvores, quando para praticamente toda a nossa Geração de 98 o cinema não p...

Seis poemas de Guillaume Apollinaire

Imagem
Por Pedro Belo Clara Guillaume Apollinaire. Foto: RMN   A PORTA   A porta do hotel sorri e eu fico a tremer Mamã o que é que me pode acontecer Ser este empregado para quem só o nada existe Pares silenciosos arrastados na profunda água triste Anjos de fresco desembarcados em Marselha ontem ao amanhecer Ouço ao longe um canto morrer e remorrer Humilde como sou que não sou nada que valha   Menino dei-te o que tinha agora trabalha     A PONTE MIRABEAU   Sob a ponte Mirabeau corre o Sena                                E os nosso amores                 Era preciso que me recordasse esta cena Que a alegria vem sempre depois da pena                    ...