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Sete poemas de Dulce María Loynaz

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Por Pedro Belo Clara I.        Largo a minha palavra ao vento, sem chaves nem véus.      Porque ela não é um cofre de cobiças, nem uma mulher coquete que faz por parecer mais bela do que é.      Largo a minha palavra ao vento para que todos a vejam, a toquem, a espremam ou a esgotem.      Não há nela nada que não seja eu mesma: mas em cingi-la como cilício e não como manto pudesse estar toda a minha ciência.     II.        Só quem na sombra se crava, sugando gota a gota o suco vivo da sombra, logra erguer obra nobre e perdurável.      É aprazível o ar, aprazível a luz; mas não se pode ser todo flor…, e quem não render a alma à raiz, mirrará.     III.        Muitas coisas me deram no mundo: é só minha a pura solidão.     IV.        Ditoso tu, que não tens o amor disperso…, que não tens de correr atrás do coração tornad...

Boletim Letras 360º #588

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DO EDITOR   Olá, leitores, como estão? Passo aqui para agradecer a cada um que usou o link de compras do Letras  ou os links distribuídos em nossas redes sociais   durante a Book Friday edição de 10 anos da Amazon. Sempre que precisar e quiser, o nosso link está à disposição. Você atende o seu desejo do livro (ou qualquer outro produto) e ajuda este projeto sem pagar nada mais por isso.   Tenham um excelente fim de semana! Louis-Ferdinand Céline. Foto: Collection Pierre Duverger   LANÇAMENTOS   Um inédito de Céline. Situado entre a autobiografia e a fabulação, livro examina a experiência central da sua existência: o trauma da guerra .   Escrito cerca de dois anos depois da publicação de Viagem ao fim da noite e inédito até 2022, Guerra narra a recuperação de Ferdinand, um combatente ferido durante a Primeira Guerra Mundial. Após ter o braço gravemente ferido no campo de batalha, o cabo retoma a consciência num cenário sanguinolento em que jazem os ...

Atualidade de Hamlet

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Por Alejandro Zambra Arte: Patrick Hruby.   É preciso dizê-lo com alegria, gratidão: nosso trabalho é ideal. Ainda que vez por outra um editor nos chame e peça que sejamos mais atuais, sabemos muito bem como escapar da contingência; somos capazes, inclusive, de dedicar nossa coluna dominical a falar sobre Hamlet . Além do mais, se o editor insiste, basta agregarmos uma ou duas frases ao final da coluna. Podemos dizer, por exemplo, que ao reler algumas passagens dessa obra maravilhosa descobrimos a profunda atualidade de Shakespeare. Não é preciso aclarar quais são as passagens tão atuais pois é sabido que nas seções de cultura não há muito espaço para argumentar.     E qual a diferença, se também sabemos que ninguém nos lê? Todos os colunistas de todas as seções de cultura de todos os periódicos do mundo sabemos disso. Puramente neuróticos, cuidamos da prosa, saboreamos cada adjetivo, perdemos um tempo valioso decidindo se dois pontos ou ponto e vírgula, e dói o cora...

Dostoiévski e o ateísmo caricato: o caso Ivan Karamázov

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Por Joaquim Serra Goncharov Andrey Dmitrievich. Alieksêi. Ilustração para Os irmãos Karamazov Não apenas em Dostoiévski que a obra literária russa dava palco para questões estéticas, político-econômicas ou sociais. 1 Seja no periódico Tempo , 2 nos Diários do escritor ou nas Cartas a seus contemporâneos, Dostoiévski manifesta um profundo entrelaçamento do conteúdo a ser representado na sua ficção nos diversos gêneros nos quais escreveu. Neste ensaio, vamos nos deter apenas nas últimas Cartas do autor e na relação entre algumas delas com seu último romance, Os irmãos Karamázov ; uma relação comum quando tratamos de autores que manifestaram sem restrições suas intenções literárias junto a interlocutores.   Na obra-síntese Os irmãos Karamázov , 3 Dostoiévski retrata o que há muito discutia em Cartas e Discursos anteriores ou concomitantes ao período de escrita do romance. A morte precoce de seu filho Alieksêi — que daria o nome ao jovem em formação religiosa no romance em destaque ...

É por isso que Tom Ripley sempre leva a melhor

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Por Ernesto Diezmartínez Perto do final de “The Perfect Little Lady”, um dos contos mais irônicos e perturbadoras encontradas no livro Little Tales of Misogyny (1977), Patricia Highsmith (1921-1995), a escritora texana autoexilada que morreu na Suíça, avisa-nos que nada acontecerá à sua protagonista, Thea, a “perfeita senhorita” do título. Nesse conto inquietante, a narrativa nos apresenta uma garota que é uma precoce femme fatale que destrói tudo e engana a todos, exceto seu pai distante, que suspeita do tipo de monstro que ela criou.   Thea é retratada como uma autêntica sociopata sem nenhum pingo de consciência moral ou remorsos que, por sua beleza radiante e bons modos, atrai a admiração de amigos, estranhos e até do próprio universo, o que lhe permite sempre conseguir o que quer. As duas últimas linhas do conto, quando Thea completa 15 anos, narra que uma certa rival de nossa protagonista sofre um acidente de carro que deforma para sempre seu corpo e rosto. E é Claro, a per...

Fedra de Eurípides, Fedra de Racine

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Por Eduardo Galeno   Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas — Boal/ Buarque Fedra num afresco de Pompeia, 60-20 a.C. World History Encyclopedia.     Racine, Eurípides — para que servem, ou melhor, aonde vão? Mais ainda: em que lugar ocupam quando falam de Fedra? Como sonham Fedra? A isso, podemos qualificar ambos na esteira daqueles que falam, pensam e possuem um ente fictício (uma ficção: a mulher Fedra). Eles falam sobre (em uma posição superior?), eles jogam e incidem como autores, como tragistas. A tragédia, para os dois, é um receptáculo por meio do qual o aparelho temporal escapa por um evento, quer dizer, uma eventualidade (ato, quiçá, sempre disperso num texto em que o sangue é o principal batismo de passagem).   Fedra alcança a ideia por participar — ser partícipe de um evento no qual a chama tanto do dever quanto do desvio estão a par. Sencientes, Eurípides, no teatro grego clássico, e Racine, no teatro francês do século XVII, brotam na criação ...