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Boletim Letras 360º #648

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  DO EDITOR   Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o  Letras . Murilo Mendes. Foto: Eddy Navarro LANÇAMENTOS   A obra poética completa de Murilo Mendes, um dos principais nomes da literatura brasileira do século XX, pela primeira vez reunida .   “O poeta abre seu arquivo — o mundo —/ E vai retirando dele alegria e sofrimento/ Para que todas as coisas passando pelo seu coração/ Sejam reajustadas na unidade”, escreve Murilo Mendes em “Ofício humano”. Ao costurar referências à música, à pintura, à dança e ao cinema, o poeta não se deixa limitar pela moldura do verso e busca unir todas as artes em um projeto poético radical e ambicioso. Para além das alusões ao universo cultural, sua produção estabelece um diálogo constante com as marcas do seu próprio tempo. Há desejo, erotismo, vida, morte, terra e céu, carne e espírito — mas há também conflitos sociais, guerra, miséria. Nessa profusão...

Sobre uma figura secundária

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Por Daniel Rodríguez Barron Hermann Hesse. Foto: Gisèle Freund   Figuras secundárias possuem um charme que nem sempre notamos. A protagonista sempre rouba toda nossa atenção, mas os grandes escritores, por vezes, recorrem às coadjuvantes para mostrar um caminho menos comum e mais discreto, que, no entanto, muitas vezes, representa suas ideias mais centrais.   É assim que se desenvolve a relação entre Emil Sinclair e Pistórius em Demian , de Hermann Hesse. Todos nós recordamos a narrativa: Sinclair busca um guia, um conhecimento supostamente secreto que lhe permita atravessar ileso o mundo, ou pelo menos compreendê-lo. Ele é alguém em busca de outros iniciados, seus iguais, que o compreendam e o encorajem. E, claro, encontra Demian.   Demian é o guia e o caminho. No entanto, a personagem de Pistórius é o outro caminho, o outro modo de ser um herói que Emil não ousa assumir, porque está obcecado em ser um escolhido. Por quem e para quê? Talvez apenas para contar esta hist...

Perigos de ler Marguerite Duras

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Por Aloma Rodríguez Desde cedo era tarde demais. Marguerite Duras (Vietnã, 1914 – Paris, 1996) escreveu, foi filiada ao Partido Comunista, teve desentendimentos com Jorge Semprún, deixou o partido, integrou a Resistência e escreveu um diário enquanto seu marido estava no campo de Dachau, publicado como A dor . Ela levou um manuscrito para a Gallimard, que foi rejeitado, mesmo assim, Raymond Queneau, um leitor da editora, lhe disse: “Apenas escreva, não faça mais nada”.¹   E foi o que Duras fez, mas não escreveu apenas romances, também escreveu roteiros para o cinema: fez filmes, alguns baseados em seus romances ou seguindo personagens que apareceram como secundários em outros. Como disse em Apostrophes : “Com Hiroshima meu amor , comecei a ser incorreta [com a linguagem]”. Esse foi o primeiro filme para o qual escreveu o roteiro, incentivada por Alain Resnais, que o dirigiu. Em 1984, publicou O amante , talvez o seu livro mais conhecido, que lhe rendeu o Prêmio Goncourt e no qual...

Sobre a obra de Laxe

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Por Ángel María Fernández …embora ame e estime sua pátria, julgando-a digna de todo afeto e apreço, considere bastante acidental ter nascido nesta parte do globo, ou em seus antípodas, ou em qualquer outro lugar.   — José Cadalso   Vive-se ultimamente uma epifania cinematográfica a cada ano em Espanha. A obra de Oliver Laxe se soma à de Albert Serra e, intencionalmente ou não, levanta a bandeira dos francesismos à espanhola. Talvez seja a França que levanta a bandeira para os artistas que estima e, assim, inveja aos espanhóis por sua espanholidade. Não sei ao certo, mas pouco importa. Já faz algum tempo que o nacional pouco significa, por mais que as forças do poder se esforcem nesse sentido. Talvez esse esforço justifique por que ele está escapando por entre seus dedos. O chamado cinema espanhol deixou de sê-lo, e temo que o mesmo esteja acontecendo com o cinema francês e os demais. Ainda mais quando a Europa se assume como um país, essa utopia em andamento, mesmo que haja ne...

Os livros proibidos

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Por Raúl Rojas Pedro Berruguete. São Domingos de Guzman e os albigenses (detalhe)   Numa série de livros que transformaram o mundo, não poderíamos deixar de fora o antilivro, a obra que, ao longo de suas inúmeras edições, decretou quais escritos não deveriam ser lidos. Refiro-me ao Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos), que era uma espécie de calabouço para livros inventado pela Santa Inquisição. Retomar os nomes de autores cujas obras foram “indexadas” é como ler um “quem é quem” da filosofia, da ciência e, claro, de outras religiões.   Tudo começou em 1542, quando o Papa Paulo III fundou a Sagrada Congregação da Inquisição Romana e Universal para combater a heresia e também os inimigos do Papa e da Igreja. Não foi uma invenção nova: já existiam inquisições nacionais ou regionais, como, por exemplo, a Inquisição do Santo Ofício, fundada em 1478 pelos Reis Católicos da Espanha como um tribunal eclesiástico. O tristemente célebre Tomás de Torquemada (...

Entre a cruz e a foice: estudo do ensaio “Sonhos e fantasias”, de Dostoiévski

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Por Rafael Bonavina   Como se sabe, Fiódor Dostoiévski manteve uma coluna chamada Diário do escritor de 1876 até a sua morte em 1881, e alguns textos ainda foram publicados postumamente. Nessa seção, o escritor publicava diversos tipos de textos, como ensaios, críticas literárias, comentários políticos e filosóficos, respondia às cartas dos leitores (reais ou fictícios) e polemizava com os escritores de outros jornais, tanto conservadores quanto liberais. Também é no Diário do escritor que alguns dos seus contos mais conhecidos são publicados pela primeira vez, como o célebre “Sonho de um homem ridículo”.   Os textos não-ficcionais apresentam uma característica que nos será muito interessante, pois contrariam uma lógica fragmentária ao lidarem com as questões candentes do seu tempo. Ou seja, o autor de Crime e castigo não se detinha sobre um único assunto sem se desviar dele, tratando-o como um objeto isolado; pelo contrário, Dostoiévski tece reflexões sólidas que transitam...