Postagens

O subsolo no espírito natalino em Dostoiévski

Imagem
Por Juliano Pedro Siqueira Bartolomé Esteban Murillo. Jovem mendigo Dostoiévski não só se revelou ao mundo como um grande romancista, mas também um exímio contista. O autor de Crime e castigo desenvolveu contos memoráveis, entre eles — talvez o menos conhecido do público e o que tomo como ponto de reflexão neste texto —, “A árvore de Natal na casa de Cristo”. O leitor não se deixe enganar com o breve conto. A narrativa nos apresenta de maneira incisiva, de forma dramática e crítica, o cenário desolador que cinge o protagonista principal, um garoto, que mesmo padecendo de fome, contempla impotente a moribunda mãe que padece enferma num esfarrapado colchão.  É nesse contexto sombrio que Dostoiévski imprime no seu conto o conceito de subsolo , para revelar as contradições de uma religiosidade desprovida de compaixão. Não apenas: mesmo diante da gritante desigualdade social, a criança faminta, na iminência da orfandade, consegue captar o verdadeiro espírito natalino ao deslumbrar a be...

Boletim Letras 360º #668

Imagem
DO EDITOR Saiba que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajudar a manter o  Letras , sem qualquer custo extra. O seu apoio continua essencial para que este projeto permaneça online. Yuri Herrera. Foto: Tammie Quintana LANÇAMENTOS Três livros do premiado escritor mexicano Yuri Herrera marca a sua estreia no Brasil . Uma fronteira demarca muito mais que limites territoriais, mas também imaginários, destinos e formas de vida. Em sua Trilogia mexicana, o aclamado escritor Yuri Herrera retrata um país dominado pela violência e pelo tráfico de drogas, separado física e simbolicamente de um território onde a prosperidade é uma promessa constante. Com habilidade singular, Herrera articula visões desses dois mundos a partir de personagens únicos, que nos conduzem a três histórias: Trabalhos do reino ,  Sinais que precederão o fim do mundo  e A transmigração dos corpos . O primeiro livro, o seu prin...

“Realismo dos fantasmas da periferia: o pensamento do realismo mágico”: uma apresentação

Imagem
Por Anna More* Thiago Roney. Foto: Arquivo pessoal. O estudo de Thiago Roney sobre a nova narrativa hispano-americana tem sua origem em uma convicção: o argumento de que houve uma decadência da tradição literária, desde seu ponto ápice no chamado boom  da publicação dos anos 1960 e 1970 até sua versão massificada ou ironizada recente, é enganoso. Mesmo que essa trajetória literária da nova narrativa hispano-americana seja geralmente correta, é uma história limitada. De fato, até o momento atual, um dos estilos mais associados com a nova narrativa hispano-americana, o realismo mágico, continua a ser empregado por autores em outras regiões. Roney menciona vários — Salman Rushdie, Junot Díaz, Mia Couto — mas poderia ter incluído outros, como Yuri Herrera, Marlon James, Gayl Jones e Colson Whitehead.¹ A consequência dessa observação é dupla: o estilo mais identificado com a nova narrativa hispano-americana, consagrado pelo sucesso internacional de Cien años de soledad, de Gabriel Garc...

A invenção de Borges

Imagem
Por José Emilio Pacheco  Jorge Luis Borges. Foto: Ulf Andersen Darío, Schwob, Lugones e a literatura palimpséstica Nos últimos anos do século XIX, Buenos Aires era a capital do modernismo hispano-americano, o grande movimento de renovação que finalmente alcançou a independência literária almejada desde a época de Andrés Bello. La Nación , jornal de Bartolomé Mitre, publicava as admiráveis crônicas de José Martí. Quando Martí deixou o jornal para se dedicar à luta pela independência cubana, Rubén Darío assumiu seu lugar. Prosas profanas e Los raros são os dois livros fundamentais do período argentino de Darío. Alguns anos antes, em 1893, ele havia publicado uma série de contos em La Tribuna intitulada “Palimpsestos”, ou seja, textos escritos sobre outros textos. (O preço extremamente elevado das tabuletas e, posteriormente, do pergaminho, chegou a obrigar a reutilização da mesma página que era então apagada para permitir outros escritos. Daí a definição de palimpsesto: “Um manusc...

A vida de um homem comum

Imagem
Por Ernesto Diezmartínez  Desde os primeiros minutos de Train Dreams (Estados Unidos, 2025), a narração rouca de Will Patton deixa claro que nosso silencioso protagonista, Robert Grainier (Joel Edgerton), terá uma longa vida, que veremos condensada nos 102 minutos do segundo longa-metragem de Clint Bentley (sua notável estreia foi com Jockey , de 2021). Conhecemos Grainier aos seis ou sete anos de idade, viajando de trem para Fry, uma pequena cidade em Idaho, no final do século XIX. Não sabemos o que aconteceu com seus pais, e ele também não. A narrativa crua e onisciente nos informa o essencial: órfão desde jovem e criado por parentes naquele canto remoto do noroeste americano, Grainier entra em contato precocemente com a violência mais brutal — ele é testemunha silenciosa da deportação cruel de dezenas de trabalhadores chineses — e até mesmo com a inevitabilidade da morte — ele dá água a um pobre coitado anônimo (Clifton Collins Jr. em uma participação especial), agonizando na f...

Então eu li J. D. Salinger

Imagem
Por Guilherme França J. D. Salinger. Foto Antony Di Gesu/San Diego Historical Society Fazia uma releitura de Dom Quixote quando me deparei com um filme biográfico sobre J. D. Salinger, O rebelde no campo de centeio (2018), do diretor Danny Strong. Embora o filme não se configure exatamente como uma obra-prima cinematográfica, ele despertou em mim um profundo interesse pela leitura da obra mais célebre de Salinger, The Catcher in the Rye , publicada como romance em 1951. A partir desse contato com a vida do autor, marcada por seu notório isolamento e pelas sucessivas tentativas de consolidar um texto literário de valor, fiquei curioso para conhecer a razão do sucesso estrondoso e duradouro daquela obra. Mesmo com certa desconfiança e o peso de ter momentaneamente preterido Cervantes, mergulhei por três dias seguidos na narrativa de Salinger para tirar minhas próprias conclusões. O uso da figura de linguagem ao me referir a “ler o autor” justifica-se pelo fato de o contexto bi...