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O estrangeiro, de François Ozon

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Por Pedro Fernandes Em 1967 Luchino Visconti realizou uma adaptação para o cinema de O estrangeiro , de Albert Camus, daqueles romances, diga-se, indispensáveis ao desenvolvimento de algumas das nossas extensões existenciais por nos oferecer um protagonista radicalmente preso na certeza de que as nossas ações apenas nos pertencem e é exclusivamente nossa toda responsabilidade do que fazemos ou deixamos de fazer porque não existe o sentido inerente à vida. O filme do cineasta italiano era até agora a versão mais bem avaliada. Tantos anos depois, quando as diretrizes do existencialismo parecem circunscritas a um tempo fora do nosso em que, contraditoriamente, fixou-as como prática, François Ozon (depois de Zeki Demirkubuz) achou por bem retomar tal interesse. Fez uma obra que concorre com a leitura de Visconti. E aqui com uma qualidade a mais: embora universal e atemporal, o absurdismo camusiano aparece como se uma coisa muito distante de nós e é possível que não exista uma razão para is...

O retorno do Barão de Wenckheim, de László Krasznahorkai

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Por Henrique Ruy S. Santos László Krasznahorkai. Foto: Johan Carlberg Permitam-me, à guisa de introdução, uma breve digressão de caráter anedótico.  Em 31 de março de 1913, na famosa sala de concertos Musikverein, em Viena, o compositor austríaco Arnold Schoenberg conduziu uma performance de trabalhos musicais de alguns de seus estudantes, como Alban Berg e Anton Webern, para um público de, segundo relatos, 2 mil pessoas. Ou, poder-se-ia dizer, o que seria mais acertado, “tentou conduzir”. Não foi possível concluir o programa do concerto, uma vez que a audiência, enfurecida pelas “extravagâncias” e pelas verdadeiras “loucuras” da música de Schoenberg e seus discípulos, irrompeu em um inesperado mas contumaz protesto não só contra os músicos e compositores, mas contra toda a organização do evento. Sob pedidos exacerbados de intervenção psiquiátrica e o barulho crescente do tumulto, os envolvidos, plateia e organização, chegaram às chamadas vias de fato, com troca de socos e pontapés...

As máximas de Ptahhotep

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Por Afonso Junior Saiu entre nós uma nova tradução das máximas de Ptahhotep, a cargo do doutor em teologia pela Universidade de Bonn, Alemanha, frei Volney José Berkenbrock. A coleção Sabedoria Universal, na qual a obra foi inserida, traz a produção sapiencial de diversos povos, do filósofo chinês Confúcio ao ensaísta libanês Khalil Gibran.  Ptahhotep era o administrador geral do faraó Isesi (da quinta dinastia egípcia, governou entre 2414 e 2375 a.C.), cuidava dos bens, dos milhares de funcionários e da justiça, o que depois se chamaria de vizir . No século XIX, um engenheiro e arqueólogo de origem francesa, Prisse d'Avennes, comprou, próximo a necrópole de Tebas, um papiro com uma cópia das máximas do vizir (“ensinamentos” diz o papiro). No seu “prólogo”, anuncia o rei: “Ensina primeiro o discurso! Assim, ele será um exemplo para os filhos dos altos funcionários”.   Os “discursos” curtos e diretos ensinam o comportamento adequado, mas também o comportamento que corresponde à...

Seis poemas de John Clare

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção, versões e notas)* William Hilton. John Clare , 1820. RAPAZES DA ESCOLA NO INVERNO Os jovens estudantes ainda dão os seus passeios matinais Até à escola da aldeia vizinha, em passo rápido e divertido; Vadiando, deixam o tempo passar, até que estremecem, E observam no alto os bandos de gansos selvagens, Vendo as letras que desenham nas suas viagens, Ou arrancam bagas de espinheiro, a refeição da tordoveia¹, E rosa mosqueta e abrunhos — e em cada lago raso Deslizam suavemente, levando as sombras onde querem, Até uma nova diversão despertar nas suas ideias; E lá começam de novo, soprando depressa Os seus dormentes e desajeitados dedos até cintilarem, E depois uma corrida, as suas sombras indo selvagens, Aquelas passadas, uns gigantes enormes, sobre a neve fulgente No pálido esplendor do sol de inverno.  LORD BYRON Um sol esplêndido entrou no ocaso — quando os nossos olhos  Verão uma tão bela manhã despontar, Como a que deu vida ao seu géni...

Boletim Letras 360º #684

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Sandro Veronesi. Foto: Leonardo Cendamo. LANÇAMENTOS O romance que rendeu a Sandro Veronesi seu primeiro prêmio Strega e o Prix Femina Étranger . Nas margens do Mediterrâneo, exausto após uma tarde de surfe, Pietro Paladini é despertado de seu torpor por um som distante. “Ali!” ele grita para seu irmão, Carlo, que toma sol ao seu lado. "Ali!" E assim começa o evento que abrirá um buraco na vida de Pietro. Enquanto ele e seu irmão lutam para salvar duas pessoas que se afogam, uma tragédia se desenrola em sua casa de verão. Em vez de voltar para casa com a ...

Renato Russo no livro dos dias

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Por Lucas Paolillo “A produção cultural foi reconduzida ao interior da mente, dentro do sujeito monádico; ela não pode mais olhar diretamente com seus próprios olhos para o mundo real em busca de um referente, ao contrário, ela deve, como na caverna de Platão, traçar suas imagens mentais do mundo nas paredes que a confinam. Se ainda sobrou aqui qualquer realismo, é um ‘realismo’ que brota do choque de se compreender esse confinamento e de se perceber que, sejam quais forem os motivos, parecemos condenados a buscar o passado histórico através de nossas próprias imagens pop e estereótipos sobre o passado, que permanece sempre fora de alcance” — Fredric Jameson. In: “Pós-modernidade e sociedade de consumo” (1984) “Lembrei apenas de alguns motivos de pensamento e análise que talvez possam levar a maior dignidade. Há vinte anos atrás, se me perguntassem o que valia mais, se o autor, se a ideia, eu responderia sem hesitar que o autor. Agora já não sei mais, vivo incerto. O homem é coisa subl...