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India song: o trabalho mais radical de Duras

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Por Lily Droeven  Ao longo de sua carreira, Marguerite Duras dirigiu dezenove filmes adaptados de seus romances. Estreou em 1967 com La musica , que codirigiu com Paul Séban e para o qual escalou Delphine Seyrig no papel principal. No segundo longa-metragem, Détruire, dit-elle (1969), Duras marcou uma virada na sua linguagem cinematográfica ao construir uma atmosfera íntima e profundamente melancólica com diálogos esparsos, longos silêncios e interações puramente simbólicas entre os personagens. Seu terceiro longa-metragem, India song , tornou-se sua obra mais aclamada após sua estreia na seção Fora de Competição do Festival de Cannes em 1975. Duras constrói a história de uma paixão fadada ao fracasso por um ambiente burguês decadente. Ela explora temas como insatisfação feminina, tédio, desejo, morte e culpa colonial. Filmado em um espaço confinado com um elenco mínimo, o filme de Duras é desafiador: deliberadamente carece de uma narrativa convencional e constrói uma linguagem vis...

Os significados da Degola, de Monique Malcher

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Por Douglas Sacramento  Monique Malcher. Foto: Renato Parada  Cortar cabeças. Degolar. Ato que perpassa o imagético das pessoas por meio das mídias e das artes, incluindo a literatura. Animais degolados para virar comida posteriormente ou humanos mortos por diferentes formas de execução; se lembrarmos o episódio histórico da Inconfidência, com Tiradentes, somos então marcados pela imagem da cabeça exposta em praça pública ainda na educação primária. No meu caso, a imagem me acompanha de outros lugares, porque presenciei esse tipo de violência perto de mim em algum momento da vida. Moro em um bairro periférico e estudei no Ensino Médio nesse mesmo bairro. Lembro-me de certo dia, ainda na escola, quando uma notícia se espalhou entre as turmas: viram uma cabeça em um poste das ruas da minha comunidade. Essa cabeça pertencia a um jovem envolvido com tráfico de drogas, colega de escola e tinha deixado a namorada grávida. Assim, a degola, para muitos, não está distante. Foi justamen...

Jorge Baron Biza, o homem do subsolo

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Por Alan Pauls  Jorge Baron Biza. Foto: Sem autoria/ Reprodução do jornal El País Aos vinte anos, Jorge Baron Biza mora em Buenos Aires, num apartamento com paredes pintadas de preto. Mantém as persianas fechadas, as janelas trancadas e as cortinas sempre puxadas. É o sua toca . Há dois anos que se embriaga regularmente. Conhaque, uísque, licores baratos, até álcool isopropílico, mas principalmente gim, cujas garrafas são amontoadas debaixo da cama à medida que as termina: a bebida é a marca registrada de um programa repleto de spleen que também inclui prostitutas, os últimos quartetos de Beethoven e, ocasionalmente, enfiar a cabeça no forno. É 1962, o auge da era existencialista. Mas a decadência de Baron Biza é hereditária, e talvez já fosse antiga quando seu pai, Raúl Barón Biza, era quem a exagerava: dândi, escritor de panfletos pornográficos, milionário, conspirador. • • •  Freiburg, Buenos Aires, Montevidéu; conveses de navios, escolas alemãs, governantas multilíngues. ...

Boletim Letras 360º #709

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .   Ibrahim Al-Koni. Foto: Basso Cannarsa. Reprodução de Lifo.gr LANÇAMENTOS A editora Tabla apresenta aos leitores brasileiros dois novos livros do autor líbio Ibrahim Al-Koni, autor do já conhecido entre nós O tumor.   1. O tibar   se passa no coração do Saara, onde a sobrevivência exige coragem e o deserto revela tanto quanto oculta. Um homem e seu mahri — o lendário camelo dos tuaregues — estabelecem um vínculo de lealdade absoluta. Quando a cobiça, a honra e as antigas tradições colocam essa união à prova, ambos são arrastados para um...

De quantos ff se compõe o Brasil? – Notas sobre Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus

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Por Amanda Fievet Marques  Publicado em 1960 pela editora Livraria Francisco Alves, o livro Quarto de despejo – Diário de uma favelada , da escritora Carolina Maria de Jesus, encontra ainda hoje seus leitores. Estes, recém-saídos da leitura de uma linha, de um parágrafo, de uma página, sentem-se subitamente tocados, tomados pela evidência da realidade da narradora, mulher, negra, mãe solteira de três filhos, favelada, catadora, que escreve sua vida pelas entradas do diário que lemos.  Há um canto que nasce das condições mais brutais, uma língua que se forma nos tremores e nas vertigens da fome, entre os odores do lixo onde a narradora-autora vai catar papel e o que comer. Como não há de comover o leitor? Comove. A música dos esfaimados, degradados, esquecidos pelo poder público, repudiados pelas elites, relegados à categoria de seres empestadores, ocultados nos quartos de despejo.  Supõem os desavisados que há de ser a língua de tal obra literária mera expressão espontâne...

Nos tempos de Casanova

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Por Thiago Teixeira  A fuga de Giacomo Casanova da prisão de Piombi em 1756. Ilustração do século XIX da revista Scribner's Monthly . Iniciei, não há muito, um percurso pelas quase quatro mil páginas das Memórias de Casanova ( ou História da minha vida) . O fim desse caminho ainda está bem distante, mas por ora o viajante já tem lá suas impressões de viagem, versando principalmente sobre a questão da memória humana e sobre o mundo representado pela obra.  Pois uma das coisas que me surpreendem até agora é a capacidade daquela mente em juntar tantos acontecimentos, detalhes, nomes — claro, desde que, inocente e provisoriamente, contemos com a boa-fé do pacto não ficcional.  A memória do autor é surpreendente: quase quatro mil páginas de relatos, descrições minuciosas, reconstituição de diálogos, uma miríade de nomes. Por ela simplesmente conhecemos o século XVIII europeu, seus costumes, classes sociais, códigos, valores, cultura, o que levou Blaise Cendrars a dizer que as...