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A Aventura, de Michelangelo Antonioni

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Crise do homem moderno é tema de obra feita de vazios e abre a trilogia da incomunicabilidade Ao ser lançado no Festival de Cannes, em 1960, A Aventura não foi recebido com unanimidade. A crítica se apaixonou pelo filme e se encontrou com o estilo do até então pouco conhecido Michelangelo Antonioni. O público, ou grande parte dele, por outro lado, detestou assistir aquela história, sem ação e cujo mistério principal (o desaparecimento de uma mulher) não é resolvido - pior, é abandonado ao longo da exibição. Mas a história comprovou que o diretor italiano acertara na abordagem da crise do indivíduo moderno, que prosseguiria na chamada Trilogia da incomunicabilidade, completada nos anos seguintes com A Noite (1961) e O Eclipse (1962). Os temas que marcam esses trabalhos são: o vazio da burguesia e das classes abastadas (e a tomada de consciência de seus indivíduos sobre esse vazio); a alienação provocada pelos avanços industriais e o desenvolvimento urbano, que afastam o...

A poética de Jorge Fernandes

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Por Pedro Fernandes Uma das várias edições do Livro de poemas , de Jorge Fernandes Ainda estamos nos anos de 1920. Adicionemos apenas mais uma década a este tempo. O provincianismo da capital do Estado não passara com a simples presença de autores “modernos”, como Jorge Fernandes. No cenário literário apenas os cafés que eram os centros da boemia, das atividades culturais e dos saraus recheados de sonetos ouve-se certo burburinho. Principalmente de um tal Majestic, antigo elegante café e salão de jogos Potiguarânia, pertencente ao poeta Ezequiel Wanderley, vendido a um grupo, do qual fazia parte Jorge Fernandes. No Magestic funciona por essa época a “academia” Diocésia, composta duma bem humorada e eufórica platéia. Bem, esse espaço se tornaria tão famoso que receberia muitas das visitas ilustres que passavam por Natal; cite-se Manuel Bandeira, Mário de Andrade, os aviadores Sarmento de Beires (português), Ribeiro de Barros (paulista), e seus hidroaviões Argos, e Jahú, respect...

A poesia de Zila Mamede

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Por Pedro Fernandes Recentemente adquiri uma edição belíssima organizada pela Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EDUFRN) com a produção poética da Zila Mamede. Meu primeiro contato com a obra mamediana se deu ainda na Faculdade, com outro poeta, o professor Leontino Filho, na disciplina Literatura Potiguar (que ainda é ofertada como optativa, mas que deveria ser componente curricular obrigatório nos currículos dos estudantes de Letras do Estado).  É sobre a poeta que escrevo estas breves notas para inaugurar no espaço onde estão João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, entre outros, sua presença. Nos dias seguintes, o leitor encontrará por aqui a reprodução de um longo texto sobre a obra de Zila Mamede; uma seção especial, não apenas porque este ano é especial, mas porque a poesia da poeta é especial. Estamos comemorando cinqüenta anos de produção poética sua, marcada pela estréia de Rosa de Pedra , em 1953. E esta data não pode passar em branco. Z...

David Foster Wallace: o melhor cronista do mal-estar dos Estados Unidos

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Por Eduardo Lago David Foster Wallace David Foster Wallace é o melhor cronista do mal-estar da sociedade estadunidense na época entre os séculos XX e XXI; tinha 46 anos quando foi encontrado na noite de 12 de setembro enforcado em sua casa em Claremont, Califórnia. O corpo foi descoberto pela companheira do escritor, Karen Green, que imediatamente entrou em contato com a polícia local. O mundo só soube da morte do escritor um dia depois e foi motivo de extensa comoção na comunidade literária dos Estados Unidos. Uma das notas mais persistentes ouvidas depois da notícia torna-se pública, foi o pedido do escritor que o internassem numa unidade de vigilância hospitalar porque não se sentia capaz de controlar sozinho sua pulsão suicida. Foster Wallace foi uma personagem muito querida tanto pelos estudantes e colegas da Universidade de Pomona, onde ministrava aulas de escrita criativa, como por seus companheiros de profissão. Talvez uma das características mais chamativas de...

Joseph Roth

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Um dia de maio de 1939, um homem agonizava no Hospital Necker de Paris consumido pelo álcool e desaparecendo num delírio. Veio-lhe a morte; foi enterrado no cemitério de Thiais numa pequena cerimonia assistida por judeus e católicos, comunistas e não-comunistas, republicanos e monárquicos. Em sua lápide ficou registrado sua procedência e sua profissão: “Escritor austríaco morto em Paris”. Aquele homem se chamava Joseph Roth e foi um dos nomes mais importantes de seu país no século XX.   Pouco antes de morrer havia terminado de escrever um romance curto a que deu o título de A lenda do santo bebedor . Nela escreveu “Deus dê a todos nós, os bebedores, tão leviana e bonita morte”. Uma morte de absinto e embriaguez. Noutro de seus romances mais celebres, Marcha de Radetzky , definiu melhor que ninguém a necessidade de álcool àqueles que “bebem com sede de alma, que é a sede do bebedor”. Joseph Roth foi o escritor dos exilados. Nasceu em 2 de setembro de 1894 em Brody, um...

O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

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Tema tabu na cultura ocidental, a morte é tratada com ironia inédita no cinema, misturada a uma visão realista sobre a idade média Ingmar Bergman estava mesmo inspirado em 1957. Nesse ano, o cineasta sueco lançou dois de seus melhores filmes, Morangos Silvestres e O Sétimo Selo , bem diferentes entre si: o primeiro é uma descrição realista e contemporânea de um dia na vida de um professor que revê sua vida ao viajar à cidade natal, para receber um prêmio. Já O sétimo selo (vencedor do prêmio do júri em Cannes) se passa da Idade Média. O cavaleiro Antonius Block (Max von Sydow) volta das sangrentas cruzadas com a própria fé abalada, e encontra seu país devastado pela peste. Acompanhado de um escudeiro (Gunnar Björnstrand), Block observa a destruição prevista na Bíblia (o título do filme é tirado do livro do Apocalipse) e dá de cara com a Morte, que veio para levá-lo também. Por que uma alegoria e por ser focada na Idade Média, é fácil acreditar que O Sétimo Selo tenha men...