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Machado de Assis, a segunda vida

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Por Pedro Fernandes Há cem anos, feitos exatos às 3h20min da madrugada deste dia 29 de setembro – não tão exatos porque não vivemos num tempo absoluto – o Rio de Janeiro e o País perdia seu filho mais ilustre, Joaquim Maria Machado de Assis, mais conhecido como Machado de Assis. Desde quando sua esposa morreu, quatro anos antes, que o escritor já não era mais o mesmo, ainda que freqüentasse diariamente a Academia Brasileira de Letras, que ajudara a fundar em 1896, e da qual fora eleito presidente primeiro e perpétuo, ainda que aparentasse o prazer de viver ao lado dos amigos, Machado já se esvaía por dentro. Vista fraca, infecção intestinal, uma úlcera na língua. Tudo culminaria com sua morte. “Estou à beira do eterno aposento” – disse Machado pouco antes de morrer. No enterro, o cortejo fúnebre que acompanhou o corpo do escritor se compunha de figuras ilustres e do povo; atestava a fama que Machado havia alcançado. Anos mais tarde seus restos mortais eram levados para serem se...

Jorge de Lima

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o mar se esvai, aquele monte desaba e cai silentemente. Bronzes diluídos já não são vozes, seres na estrada nem são fantasmas, aves nos ramos inexistentes; tranças noturnas mais que impalpáveis, gatos nem gatos, nem os pés no ar, nem os silêncios. O sono está. E um homem dorme. (Jorge de Lima In Invenção de Orfeu , canto III, fragmento) A recepção da obra de Jorge de Lima é tão múltipla quanto a sua produção. Enquanto para os admiradores confessos se trata de um dos melhores poetas da literatura brasileira, para os não-iniciados o autor de Invenção de Orfeu ainda é um mistério a decifrar. Quando o assunto é revirar a cumbuca onde fervem os textos de Jorge de Lima, descobre uma colossal possibilidade de leituras, já que na literatura do autor convivem o antigo e o moderno, o regional e o universal, a tradição e o novo, o banal e o sublime. A obra é também o reflexo de um artista em constante mutação, que experimentou estilos diversos, como o parnasianismo, o regional, o barroco, o...

Cíntia Moscovich

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Cíntia Moscovich. “ Poderia ter seus sessenta, no máximo sessenta e cinco anos. Beleza, não; ao menos não se diz de um homem daquela idade que é bonito. Demonstrava, no entanto, a altivez de quem ocupa uma posição. Não era alto, mas o corpo tinha contornos de firmeza. Os óculos de hastes finas eram um halo a emoldurar os olhos cinzentos; os cabelos, raros; a testa alteada como a de um fidalgo. O vinco entre as sobrancelhas tornava-se um exaspero sobre o peso do rosto. ” (O tempo e a memória In Arquitetura do Arco-íris, fragmento) Assim começa um dos contos dessa escritora gaúcha que escreve uma literatura dos que são deixados às margens sociais - podemos assim dizer. Os homossexuais, os gordos etc. são sempre os sujeitos da vez em seus romances e contos. Em sua obra Por que sou gorda, mamãe? publicado em 2006 pela Record, Cíntia coloca-se como narradora em primeira pessoa criando um jogo de fundir a ficção com a realidade.  O romance é estruturado como uma carta ...

Zila Mamede — itinerário e exercício da poesia (2)

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Salinas – do mar à terra da mãe Por Paulo de Tarso Correia de Melo* Partida Quero abraçar, na fuga, o pensamento da brisa, das areias, dos sargaços; quero partir levando nos meus braços a paisagem que bebo no momento. Quero que os céus me levem; meu intento é ganhar novas rotas; mas os traços do vigem mar molhando-me de abraços serão brancas as tristezas, meu tormento. Legando-te meus mares e rochedos, serei tranqüila. Rumarei sem medos de arrancar dessas praias meu caminho. Amando-as me verás nas puras vagas. Eu te verei nos ventos de outras plagas: Juntos – o mar em nós será caminho. (Zila Mamede, Salinas ) *** “Pesada e real, diversa é a praia agora” (Soneto das Variações, Rosa de Pedra) Salinas foi editado em 1958, na “Coleção Aspectos”, do Ministério da Educação e Cultura, após receber o prêmio Vânia Souto de Carvalho, Recife, 1958. Embora Zila Mamede o tenha definido como um livro que mereceu maior cuidado que a pura intuição de Rosa de pedra e lhe rec...

A alma lírica, a alma passarinha de Mario Quintana

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O poeta apresenta-se Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há! Mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade. Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez du peu. Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho qu...

Viridiana, de Luis Buñuel

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Cineasta anticlerical escandalizou a igreja católica, que considerou a obra um insulto ao espírito do cristianismo Em 1936, com as condições de trabalho dificultadas pela Guerra Civil, Luis Buñuel deixou a Espanha e foi para o México, onde realizou pérolas como Os Esquecidos (1950), O Alucinado (1952) e Escravos do Rancor (1954). Apenas em 1961, 25 anos depois do exílio, Buñuel pode voltar à sua terra natal, ironicamente convidado pelo ministro da cultura do general e ditador Francisco Franco. O resultado do retorno, Viridiana , chocou tanto o governo e a igreja que Buñuel novamente precisou ir embora - outra vez para o México e, mais tarde, para a França -, e o filme acabou proibido na Espanha por vários anos. Dá para entender: Viridiana é uma pedrada do diretor (que dizia ser ateu, "graças a Deus") no cristianismo e suas contradições. É uma alfinetada na acomodada adesão católica a Franco durante a guerra. A jovem Viridiana (Silvia Pinal) está prestes a ...