Postagens

O extraordinário e o subtil em Saramago

Imagem
Por James Wood O filósofo Bernard Williams escreveu um artigo, “O Caso Makropulos”, onde argumentava que a vida eterna seria tão entediante que ninguém a conseguiria suportar. De acordo com Williams, a monotonia que define um ser eterno representaria um infinito deserto de experiências repetitivas que o levaria a uma existência esvaziada de qualquer definição. Essa é a razão que leva, na peça de Karel Capek, da qual Williams retirou o seu título, Elina Makropulos (com os seus 342 anos de idade) a deixar de beber o elixir da eterna juventude, o que faz desde os seus 42 anos, optando por morrer. A vida precisa da morte para se realizar; a morte é o período negro que define a sintaxe da vida. Em “As Intermitências da Morte” (...), José Saramago, um escritor de longas e ininterruptas frases, produziu uma narrativa que funciona como uma experiência na área de Capek/Williams. (O romance não faz alusão a nenhum dos dois). À meia-noite de uma véspera de Ano Novo, num país sem nom...

70 anos de Vidas Secas

Imagem
Por Fabiano Mendes   Obviamente, o título deste artigo se refere ao livro de Graciliano Ramos, escrito em 1938. No mesmo ano em que se comemora o centenário de morte de Machado de Assis, aclamado o maior escritor brasileiro, comemora-se também os 70 anos de uma obra imortal: Vidas Secas, do alagoano Graciliano Ramos – para muitos igual em valor a Machado, mas que, diferentemente deste último, fundador da Academia Brasileira de Letras, ignorou a ABL e fez-se imortal ao aliar a profundidade de seus escritos a uma vida cheia de marcas das angústias, uma vida que foi até certo ponto também muito seca.   Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo  –  AL, em 1892 e morreu em 1953, no Rio de Janeiro. O conjunto de sua obra acompanha de perto a trajetória de sua vida. Afinal, como ele mesmo sentenciou, só escrevia o que via e só sentia o mandacaru. Assim, suas principais personagens e suas memórias e crônicas, todas de fortíssimo teor realista são o resultado dir...

Machado de Assis, memórias póstumas

Imagem
Por Pedro Fernandes Cena do filme  Memórias póstumas , de André Klotzel. Memórias póstumas de Brás Cubas , 1881, é a obra do auge da carreira literária do escritor brasileiro Machado de Assis: assim define sua crítica mais especializada. Autor da fina ironia, da fina análise da alma, da fina análise da sociedade e das relações sócio-burguesas, tudo isso me leva apropriar-se do título da obra de Machado para retomar alguns aspectos da vida do escritor que neste setembro de 2008, centenariza-se . Pode não ter tido o reconhecimento merecido ainda em vida – e até teve para sua época –, mas a obra de Machado de Assis é marco na literatura brasileira e eterniza-se ao lado dos grandes clássicos literários. Isso porque o escritor inaugura na língua portuguesa brasileira um estilo novo de se escrever romance num estilo novo de se usar a língua escrita. Machado, um mulato, foi uma criança pobre, neto de escravos alforriados – o Brasil só libertaria seus escravos em 1888, com a lei...

Era uma vez no oeste, de Sergio Leone

Imagem
Italiano resgata a grandeza dos westerns  clássicos com história de vingança influenciada pela ópera É curioso que um dos principais artífices do mais americano dos gêneros seja um italiano que nunca fez muita questão de aprender uma palavra de inglês. Apaixonado por westerns desde a juventude, Sergio Leone, fez fama com a trilogia spaghetti , composta por Um Punhado de Dólares (1964, refilmagem de Yojimbo , de Akira Kurosawa), Por uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966), todos estrelados pelo então pouco conhecido Clint Eastwood e rodados na Itália. Sobretudo nos dois primeiros, a ação é ininterrupta e há pouco espaço para diálogos. Todos fizeram bastante sucesso nos Estados Unidos, o que levou a Paramount a oferecer ao diretor um grande orçamento para rodar um filme. Leone não queria fazer outro western: planeja trabalhar na adaptação de um livro que, anos depois, resultaria em Era uma Vez na América (1984), mas aceitou diante da possibilidade de c...

Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

Imagem
Limites da razão e do poder são temas centrais de um grande filme que teve produção carregada de problemas O épico de Coppola costuma ser tratado como um filme de guerra ou como crônica sobre a malsucedida ocupação norte-americana no Vietnã. Mas seu próprio ponto de partida, a novela de Joseph Conrad, O Coração das Trevas , mostra que sua ambição não se resume a retratar uma guerra. Trata-se mais que tudo de um mergulho na alma humana, nos limites da loucura e do poder, na superação de obstáculos. Uma versão cinematográfica do texto de Conrad havia sido planejada por Orson Welles, mas nunca saiu do papel. O projeto que acabou sendo feito por Coppola circulou antes por vários estúdios, produtores e diretores (inclusive pelas mãos de George Lucas). Não poderia haver alguém mais adequado do que ele, acostumado, desde  O Poderoso Chefão (1971), a rodar trabalhos grandiosos. Só que rigorosamente nada deu certo durante a produção. As filmagens qu...

William Faulkner

Imagem
William Faulkner nasceu no estado do Mississipi em 1897 e naquela região viveu quase toda sua vida; foi desde sempre um aficionado pela leitura, mas não chegou a concluir a formação básica. No início dos anos 1920 decidiu que seria escritor e começou a trabalhar em empregos diversos para garantir o sustento: ajudante de banco do avô, carteiro, contrabandista de rum, bombeiro, carpinteiro, pintor de paredes... funções que lhe permitiam ganhar o suficiente “para papel, cigarro, comida e algum uísque”. Nesse período, o escritor dedicou-se a expandir outros talentos, além da escrita, como o desenho e a pintura. Foi também a época em que se entregou à leitura e através do amigo Phil Stone, que mantinha relações com nomes como T. S. Eliot, Robert Frost e Ezra Pound, começou na medida que lia esses autores a se corresponder com eles. Talvez por isso, os primeiros exercícios de escrita seus tenha se dado pela poesia. Esse momento de uma vida de incerteza levou Faulkner a querer ...