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A aura dos livros perdidos

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Por Andrea Aguilar Ernest Hemingway, o trauma da perda dos primeiros escritos foi impulsão para sua obra? Os manuscritos perdidos tornaram-se um tema literário (ou metaliterário) recorrente, uma estrutura narrativa com a qual se tem construído um bom número de obras, e que escondem um número variado de escritores, como Cervantes. Como se um intricado jogo de espelhos que borra as fronteiras entre realidade e ficção ou como simples isca para impulsionar a trama de uma história, o capital criativo e as possibilidades de fabulação que se chama por desaparição (algo romântico, intuito desesperado, fruto do acaso, fato irremediável) de uma obra estão mais que provadas. Num plano mais terreno, encontra-se a erudita paixão acadêmica por incunábulos perdidos e demais peças impossíveis do grande puzzle literário. Também a ágil recuperação de livros “perdidos” em caixões ou sótãos empreendida por agentes, editores e parentes de insignes escritores tem se demonstrado como um ex...

É isto um Prêmio Nobel de Literatura?

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Por Pedro Fernandes Quando saiu o Prêmio Nobel de Literatura 2016 escrevi, ironicamente, no Twitter: “Quer dizer então que o clube de leitura da Academia Sueca não leu nada neste último ano? Só estiveram ouvindo Bob Dylan”. A frase, antes de encerrar uma posição contrária ou um lamento sobre o desperdício de um prêmio, possui duas questões: uma, a convenção cristalizada desde a invenção da escrita de que a literatura é um artefato construído pela escrita e, logo, exercício para leitores; outra, a não tão firme linha que, também com a invenção da escrita, separou poesia da música embora da música nunca tenham separado a poesia. Entre gostar ou não gostar de para quem o prêmio foi dado e compreender as questões que ele reinaugura para leitores e, sobretudo, o pequeno grupo estudantes da literatura – essa selva de egos – há uma distância muito grande. Recordo uma consulta realizada pelo jornal português Sábado ao escritor António Lobo Antunes sobre seu ponto de vista ac...

Christopher Marlowe, de rival a coautor com William Shakespeare?

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William Shakespeare foi puro fogo. Seu nome de batismo lhe serviu de álibi para a identidade de suas conquistas, antes e depois de deixar sua companheira e sua primeira filha, Susana, em Stratford-upon-Avon e empreender uma vida de idas e vindas em Londres. A dupla vertente de um diminutivo – Will – que significa determinação ou vontade em inglês, lhe proporcionou muito jogo criativo. Tratava-se de um superdotado em duplos e triplos sentidos. Tanto como haver declarado amores de todas as vertentes, gostos e tendências em suas obras e sonetos com grande sucesso de vendas e de público. A homossexualidade masculina na época elizabetana não produzia apenas escândalo. Era castigo, contra a lei dos homens e a ira de Deus emanada dos púlpitos. Mas na sociedade, pelo menos em parte dela, diz Stephen Greenblatt em sua biografia Como Shakespeare se tornou Shakespeare não causava repulsa. Compreendia-se mais a atração de um homem por um homem que por uma mulher, principalmente se fos...

A convergência dos ventos, de Nuno Júdice

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Por Maria Vaz Há dias em que os ventos convergem e, entre chuvas de dúvidas, lá nos levam a perder em palavras soltas, que nos respondem ou ampliam indagações. Sim: há palavras aglomeradas em estrofes em que – ainda que não nos revejamos totalmente em termos existenciais – trazem os ventos que nos levam a convergir para aquilo que vamos sendo. Sem esquecer essa mutabilidade do verbo ‘ser’: uma mutabilidade, tantas vezes, com bases fixas. Ontologias ou intelectualidades à parte, aquilo que extraímos do nosso interior não passa de uma narrativa subjectiva – com todas as críticas que a redução ao real-objectivo formalizam –, uma obra permite-nos sempre vislumbrar um pouco do seu autor de acordo com a nossa mundividência. Não obstante, procurarei enunciar as notas objectivas daquilo que ressalta na obra A  convergência dos ventos . Assim, podemos dizer que os ventos convergiram para questões e temas que perpassam a existência de todos os seres emocionalmente intensos. É ...

Boletim Letras 360º #192

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Ce c ilia Meireles. Toda a obra da poeta será editada em 2017. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Falta menos de um mês para encerrarmos as inscrições para a promoção sobre os dez anos do Letras. Saiba todos os detalhes e não fique de fora aqui . Entre os brindes estão todos os livros do Valter Hugo Mãe publicados em 2016 pela Biblioteca Azul (incluindo o novo romance) mais a edição lindíssima com a obra completa (e inéditos) do Raduan Nassar publicada pela Companhia das Letras. Segunda-feira, 17/10 >>> Brasil: A poesia de Noémia de Sousa Sai pela editora Kapulana uma edição com a obra poética da chamada de "mãe dos poetas moçambicanos". É a primeira vez que a obra da poeta é publicada no Brasil. Sangue negro , que é produto raro mesmo em seu país, onde só teve duas edições, após a morte da autora reúne poemas que circularam na imprensa e em fotocópias. >>> Brasil: Os oitenta anos de Moacyr Scliar As celebrações começam em ma...

O quinze, de Rachel de Queiroz

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Por Rafael Kafka A jovem Rachel de Queiroz quando do período em que escrevia O quinze.  Arquivo do Museu Histórico de Quixadá. O quinze é longe de ser um romance grandioso se o compararmos com outras obras do regionalismo modernista brasileiro, como Vidas secas , ou mesmo obras da própria autora, Rachel de Queiroz, em momentos mais tardios de sua carreira, como Memorial de Maria Moura . Todavia há nele alguns elementos do ponto de vista formal e conteudístico os quais devem ser levados em conta no presente texto. A começar pela temática da seca sendo abordada por uma jovem de apenas 20 anos de idade na ocasião utilizando-se de memórias da grande seca que assolou o nordeste brasileiro em 1915 – ano que dá nome ao romance de estreia de Rachel, que pelo volume poderíamos facilmente dar o rótulo de novela, mas é mesmo um romance por em suas poucas páginas se utilizar de diversos focos narrativos. Devido ao fato de ser um romance estreante em fase tão juvenil, percebemos...