Eleições com Héracles, ou os doze trabalhos de um povo

Por Afonso Junior




O país em meio ao caos. Um tirano ameaça. Militância digital. Entre Eurípides e o demônio maquiado pela mídia e pelo mercado financeiro. Por acaso estava lendo a peça de Eurípides no momento da avalanche que se abateu sobre o país. Vamos sair deste inferno? Resistir é preciso.

Eurípides, nascido em Salamina c. 480 a.C., era filho de um proprietário de terras e estreou como dramaturgo no ano da morte de Ésquilo (455 a.C.). O tragediógrafo é mais famoso por sua versão da personagem de Medeia, a quem atribuiu o assassinato dos filhos. Sua contribuição maior tem sido vista como a ênfase na psicologia individual, em debates da sua época e no estudo das emoções extremas. Mas outro aspecto pode ser destacado: a reflexão sobre os deuses. 

Assim, em As Bacantes, o deus Dionísio se vinga terrivelmente do rei Penteu que impede seu culto na cidade de seus ancestrais. Platão, que teria em torno de 20 anos quando da morte do dramaturgo, segue esta revisão dos mitos em busca da cidade ideal: “[É preciso] além disso saber que só se pode acolher na cidade aquela parcela de poesia que consiste em hinos aos deuses e encômios aos homens valorosos” (República, Livro X 607a).

Outra contribuição de Eurípides é a de apresentar uma gama variada de estruturas dramáticas, sendo a mais radical justamente sua peça Héracles, representada por volta de 416 a.C. (dez anos antes da morte de Eurípides). A tragédia apresenta duas histórias bastante diversas, contrariando frontalmente a ideia de unidade dramática (causalidade de uma única ação — erro, queda, consequência). 

Quando a peça começa, com sua brevidade e com a visualidade de sua poesia, Eurípides fala de um reino lutando contra a tirania, já que o rei Lico tomara a cidade de Tebas assassinando o rei Creonte na ausência de Héracles (incumbido, em seu último trabalho, de descer à terra dos mortos). Nesta situação, o pai adotivo de Héracles, Anfitrião, sua mulher, Mégara e seus filhos estão ameaçados. “Se esvai o belo em asas morticidas... A morte já nos ronda, ancião, a ambos...”, afirma a esposa de Héracles. O coro de homens idosos de Tebas é ameaçado de ser incinerado junto ao altar. 

O velho pai Anfitrião, que chama a si mesmo de “fantasma” pela fraqueza de sua idade, censura o povo por não defender os filhos do herói, e o coro responde lançando sobre o rei sua resistência heroica:
 
Jamais porás a mão impune em mim,
nem no que acumulei com meu cansaço.
Vai de retro exceder-te em teu rincão [...]
A pólis pensa mal, adoeceu
de conselhos errados e revoltas.
Só assim para aceitar-te como déspota.
(Tradução de Trajano Vieira, 2014).

Lico, que tenta gerar o medo com a força bruta, não deixa de ser um espelho do próprio Héracles, que foi admirado pela tradição como um campeão ao estilo de Aquiles (tendo “existido” antes), um heroísmo “essencialmente voltado para fora”, como afirma William Arrowsmith numa introdução ao final do livro em que aparece a peça ora comentada. 

Justamente o desafio do dramaturgo é pensar o que é heroico na Atenas do século V a.C., como escreve a comentadora Edith Hall, também no mesmo volume. Nesta versão, chegando a tempo de salvar a família, Héracles, no segundo ato, é visitado pela Loucura enviada pela deusa Hera: “As crias cadavéricas já são visíveis diante do pai, que é um traste adormecido, concluído o assassinato dos meninos”. 

Mas, retornando ao primeiro ato, quando Mégara desafia o tirano e afirma ser “insano o afã de combater destino divo”, Anfitrião, que será o único sobrevivente, afirma “persisto em viver”. Lico, logo acima, havia dito “não ser um cadáver”, mas chefe do país, ele, que no segundo ato já não existe. Héracles, vencedor da morte, acabará por exercer o mal que evitou (e questionará os deuses tradicionais). Seria um aviso aos reis? De qualquer forma, a resistência simbólica do coro no primeiro ato é saudada por Mégara, que afirma abraçar a morte que a espreita. Ela está pronta a colocar os adornos funerários nos filhos, a quem Lico promete “os ínferos do abismo”. 

O ato todo é um caso perdido. Ninguém pode vencer a este rei enlouquecido. O material não parece digno de uma peça no sentido aristotélico, mas a angústia do inevitável é tremenda. Lamento e coragem, pouca ação até o “fulgor da volta”. “Quase morremos!”, diz Mégara ao marido no segundo tempo. 
Este Héracles não irá ao Olimpo, como o da tradição, mas será acolhido em Atenas por Teseu que se compadece de sua loucura. “A supressão do motivo da deificação aguça a resistência da humanidade com suas necessidades”, afirma Arrowsmith. 

Diante do mal supremo, opaco ao olhar humano, resistência; esta também é a sabedoria estoica, por isto a peça foi reescrita por Sêneca no tempo de Nero. Eurípides abriu as portas para formas inusitadas, ampliando o que pode ser um discurso poético. 

“Persisto em viver”. Héracles também terá de resistir ao conviver com a culpa. Será seu décimo terceiro trabalho. Eu me vi citando os versos do coro logo após o resultado da nossa eleição presidencial de 2026. Cada um fez o que podia, ganhando na unha a vida de Cérbero. Assim, os mitos são revividos cada vez que a humanidade é confrontada com sua natureza. Um sucesso não garante outro, mas é belo o sol da vitória. “Quase matou a mim, teu pai, teus filhos”, diz Mégara quando chega Héracles. O mesmo dizemos hoje, quando uma ordem normal surge das urnas. 


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Héracles
Eurípides
Trajano Vieira (Trad.)
Editora 34, 2014
184 p.


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