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O excesso que vive: Mac e seu contratempo, de Enrique Vila-Matas

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Por Guilherme Mazzafera Mac e seu contratempo (Companhia das Letras, 2018, tradução de Josely Vianna Baptista), o mais recente livro do barcelonês Enrique Vila-Matas lançado no Brasil, é, em verdade, meu primeiro contato com sua obra. A honestidade é o point d’honneur do resenhista. Como decorrência deste fato, sou incapaz de pontear em que medida tal romance, erigido sobre “o obscuro parasita da repetição que se oculta no centro de toda criação literária”, não configura ele mesmo, em relação à obra pregressa de seu autor, um exemplar do que tão minuciosamente esmiúça. Em linhas gerais, Mac Vives Vehin, o protagonista, é um advogado (ou seria construtor de imóveis?) entrado nos sessenta que se vê de repente desempregado. O caráter repentino do destino, supostamente motivado por uma citação inadequada de Wallace Stevens, impele-o a dedicar-se ao aprendizado da escrita por meio de um diário secreto. Nada de novo sobre o sol (aliás, senti falta do Eclesiastes no rol ...

O moderno

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Por Enrique Vila-Matas Charles Baudelaire por Augusto Brouet “É preciso ser absolutamente moderno”, disse Rimbaud. E um século e meio depois ainda sofremos as consequências. Essa frase, além de intimidadora, comenta Calasso em La Folie Baudelaire , fez inumeráveis vítimas, numerosos “escritores quase sempre medíocres, mas totalmente decididos, como tal a seguir o slogan que os havia cegado”. Nos últimos tempos recebemos constantemente notícias de pessoas que não sabem que é inútil dizer que são inovadoras, porque a longo prazo, se são revolucionárias ou tecnoplásticas, serão julgadas pelo tribunal digital do tempo, sempre implacável. Charles Dickens ou Franz Kafka nunca presumiram mudar a história da literatura – nem a história de nada – e sem dúvida a mudaram. É uma prova de que para transformá-la não é necessário dar o último grito. O futurista Julien Gaul presumiu colocar tudo de pernas para o ar e hoje ninguém tem notícias dele. Se minha geração viu morrer...

Fortuna de Giovanni Boccaccio

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Por Alberto Manguel Giovanni Boccaccio e os floretinos que fugiram da peste. A Fortuna, como os contemporâneos de Boccaccio bem sabiam, faz com que, na posteridade, nossa pessoa seja poucas vezes a que nós imaginamos. Boccaccio se definiu além de tudo como poeta, estudioso das línguas, pensador e só em última instância como narrador: a ficção importava para ele menos que a filosofia e a história, ou importava apenas como veículo para a filosofia e a história. Foi um precursor iluminado da grande literatura renascentista e pode escrever tanto no latim de seu amado Cícero como na nova língua toscana que compartilhou com Dante e Petrarca. Este último foi seu mestre e o incentivou a conhecer os clássicos pagãos, mas Dante foi seu ídolo. Como crítico literário, e o autor de sua primeira importante biografia, estabelecendo o método de leitura da Comédia (à qual deu o epíteto de “divina”, empregado ainda hoje pelos especialistas na sua obra), que consiste em analisa...

Os pensamentos íntimos de Flaubert

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Por Matías Battistón Num velho manual que compila diversos fragmentos da literatura francesa, Causeries et exercices français , publicado pela Universidade de Cambridge em 1954, figurava uma chamativa anedota sobre Flaubert. Tudo está apresentado para que o leitor tome o texto por apócrifo e assim se mostra talvez mais revelador: isso porque, se uma anedota verdadeira tem origem no mero fato de ter acontecido, uma anedota apócrifa muitas vezes nasce do esforço de ser chamativa. A história se atribui ao crítico de arte Théodore Duret, com quem Flaubert se encontra uma tarde com Ivan Turguêniev. Por um desses acasos, o escritor estava escrevendo nesse momento uma carta ao prefeito para fazer um favor a um compatriota russo recém-chegado a Paris. Antes de se despedir, queria apelar pela última vez à boa vontade da autoridade. Turguêniev aproveita então para consultar Flaubert: – Que digo? “Apelo à sua cortesia” ou “Apelo à sua generosidade”? Flaubert balbucia: ...

Boletim Letras 360º #311

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Aproveitamos esta ocasião para noticiar que a chegada de fevereiro traz a expectativa pela nova edição de Grande sertão: veredas  e com ela a da realização de nossa segunda promoção de 2019. E queremos lembrar que até o dia 15 desde mês estão abertas as inscrições aos interessados em fazer parte do grupo de colunistas do blog. As informações sobre estão disponíveis neste endereço .  Sabe-se que há originais de J. D. Salinger que serão inéditos e publicáveis. Mais detalhes ao longo deste Boletim.  Segunda-feira, 28/01 >>> Brasil: Três novos títulos na coleção Tintim No universo dos quadrinhos, poucos autores conseguiram marcar tão profundamente a memória afetiva do leitor como Hergé, pseudônimo de Georges Prosper Remi. Tintim, seu personagem mais famoso, já foi publicado em dezenas de idiomas, virou filme, desenho animado, seriado de TV e peça de teatro, e continua encantando o público. Mais de 30 anos após a morte do autor belga e para celeb...

11 Livros que são quase pornografia

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Ilustração: T. Hanuka O sexo sempre esteve presente na literatura, embora nem sempre de maneira explícita. Há escritores que mergulharam em sua própria sexualidade como se a arte pudesse ser campo para um exercício psicanalítico e findaram por revelar a partir dessa intimidade o lado mais escuro sobre. Esta lista apresenta um conjunto de livros nos quais os escritores se desnudam, livros que dispensam o pudor para narrar cenas de elevado tom. Christine Angot, até o presente uma romancista francesa quase desconhecida no Brasil embora tenha sido autora de um livro chamado Pourquoi le Brésil ?, tem sido lida como uma das principais figuras que se filiam à tradição da qual faz parte nomes como o de Anaïs Nin. Em 1999, ela publica L’Inceste , a obra pela qual sempre tem sido lembrada, por se tratar de uma narrativa que recupera a relação incestuosa entre um pai e uma filha. Les Petits , outra obra sua, já inicia com uma felação sob o chuveiro que termina numa penetração anal an...