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Normopatia ou normose: quando ser normal é o problema. Traços da farsa social acusada na literatura

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Por Marcelo Moraes Caetano Ilustração: Andrea Ucini   A normose é a estagnação em práticas e pensamentos que muitas vezes são incentivados e aplaudidos pela maioria da sociedade: aquilo que é “normal”, em muitíssimos casos. “Normal” a partir de que perspectivas? Da perspectiva do caos. “Normal” do ponto de vista dos comportamentos e dos pensamentos que guiam pessoas e sociedades, ainda que ao caos. “Normal” do ponto de vista de algo que pode até ser sido bom e eficaz num momento do passado das sociedades, mas que hoje já não faz sentido – o que ocasiona o caos. “Normal” do ponto de vista de apenas uma parcela (às vezes ínfima) da sociedade, sem estender seus benefícios a camadas mais vastas e diversas dessa mesma sociedade, criando o caldeamento necessário – para o caos. Esses “normais” estagnantes e caóticos, que impedem a instauração e a manutenção da paz, são exatamente a NORMOSE. O sufixo -OSE significa basicamente desgaste, tanto nos conceitos biológicos e fisiológicos, como...

Nem todas as baleias voam, de Afonso Cruz

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Por Pedro Fernandes Afonso Cruz. Foto: Vitorino Coragem.   Certamente não foi Julio Cortázar quem pensou o romance como um jogo de montar, mas foi quem executou com maestria a ideia quando escreveu O jogo da amarelinha . Quer dizer, o escritor apenas demonstrou estruturalmente o que é, afinal de contas, em menor ou maior grau toda a prosa romanesca. No seu caso, ao transferir para o leitor parte significativa da responsabilidade por este trabalho reafirmou a ideia segundo a qual toda obra se constitui entre a escrita e a leitura. A maneira inusual fez com que todas as obras que vieram depois, e que admitem esse tratamento inventivo logo nos destaque para o feito do escritor argentino.   Muito distante do que fez Cortázar, porque o plano narrativo aparece determinado pelos fios internos da narração, mas muito próximo pela ideia do jogo de montar, Nem todas as baleias voam é desses romances que nos surpreendem a cada passagem. E aqui duplamente: pelas inumações poéticas que ir...

Umas palavras sobre uma breve fase de um grande poeta: Ferreira Gullar e o Centro Popular de Cultura

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Por Fábio Roberto Ferreira Barreto Em março de 1962, vinha a lume o Anteprojeto de Manifesto do Centro Popular de Cultura ; embora suas atividades cronologicamente tenham se iniciado em 1961. Para rememorar o CPC, bem como para comemorar minha estreia como colunista no Letras in.verso e re.verso , escrevo sobre o poeta Ferreira Gullar e sua fase cepecista. Roberto Freire e Ferreira Gullar durante o lançamento de Cultura popular em questão  no CPC da UNE, 1963.   Apesar de não se enquadrar, Ferreira Gullar em um quadro: fase cepecista   Ferreira Gullar não é poeta que se enquadre. O estudioso João Luiz Lafetá, em “Traduzir-se – ensaio sobre a poesia de Ferreira Gullar”, afirma: “dentro do clima esteticista da Geração de 45, passou pela ruptura do Concretismo e do Neoconcretismo, pelo discurso populista do CPC [Centro Popular de Cultura] e pelo demorado, ainda inconcluso, processo atual de travessia de uma situação difícil para a criação poética”. Alfredo Bosi, vincu...

Aprendizagem da dúvida: Tensões entre desolação e fé no romance “Hóspede por uma noite”, de Shmuel Agnon

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Por André Cupone Gatti Shmuel Agnon. Arquivo: Casa Agnon   I. Se o século XIX, com a sua variedade de novas ideias, e com o seu irrefreável ânimo progressista e moderno, fragmentou a tradição judaica em facções das mais diversas possíveis e, desse modo, a tornou mais vulnerável ao descarrilado avanço da História, o século XX fez dessa mesma tradição um arruinado e obsoleto poço de desalento frente à barbárie de violentos eventos históricos, dos quais sobressaem as duas mais desumanas guerras de que se tem notícia. O esfacelamento do humano, tal como a gratuidade da destruição, faz do século XX um século órfão de certezas e transbordante de dúvidas que dificilmente, ou nunca, serão resolvidas. Imersa nesse cenário de incertezas, a herança material e espiritual dos judeus da Europa, no período entre-guerras, assistia à própria ruína. Os shtetl, redutos habitacionais dos judeus na Europa do leste, após a Primeira Guerra Mundial, encontravam-se fisicamente destruídos, habitados por ind...

Literatura e história: entremeios

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Por Guilherme Mazzafera Ilustração: Martin Jarry. A suposta concretude e acessibilidade dos meios históricos, estes contextos dos textos examinados por estudiosos da literatura, são elas próprias produtos da capacidade fictícia dos historiadores que estudaram estes contextos. Os documentos históricos não são menos opacos do que os textos estudados pelo crítico literário. O real, na ficção, é sempre uma questão de crença – cabe a nós como leitores validar e confirmar. É uma crença que nos é exigida e que podemos recusar a qualquer momento.  A ficção se desloca na sombra da dúvida, sabe que é uma mentira verdadeira, sabe que a qualquer momento os seus argumentos podem falhar. A ficção é um sucedâneo transitório da vida. O regresso à realidade é sempre um empobrecimento brutal: a comprovação de que somos menos do que sonhamos. Entender, tal como ver, é captar isto sempre em relação àquilo. Navegamos por meio da acumulação de experiências, mas nossa jornada pode estagnar devido a noss...

António Ramos Rosa. Quatro poemas de “Delta (seguido de Pela Primeira Vez)” (1996)

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Por    Pedro Belo Clara Estar na montanha na imóvel ondeação com uma lua delgada como uma navalha De narinas dilatadas com as veias e os ossos numa profunda paz Que as palavras venham através do basalto e das lâminas aceradas do xisto na sonolenta aspereza dos muros Somos parte da trama silenciosa nesta ascensão da vagarosa força fibra a fibra até à alta profundidade vegetal Estamos no cerne do presente respirando a densa vibração de um tranquilo silêncio e somos a expansão imóvel da montanha     ***     Quando o corpo é um sorriso aberto ao sol o alento dança e o coração estremece como um peixe livre Pertencemos a um corpo de claridade nua com a viva delicadeza vegetal com a transparência do desejo na languidez de um leito de lentidão aérea e voluptuosa inocência   Toda a terra se torna um país amoroso e a boca fascinada é concha e água no instante amado As fontes da palavra jorram de um ventre branco ou dos cabelos que navegam entre nuvens e veias Nã...