Entre o crime, o remorso e o castigo
Por Michel Goulart da Silva

Em 1866, ao longo do ano, o escritor russo Fiódor Dostoiévski publicou os capítulos de uma de suas principais obras. Com o tempo, o romance Crime e castigo se tornou um clássico da literatura mundial como um denso estudo psicológico da violência e o impacto da sociedade na mente humana.
A narrativa se desenvolve em torno de Raskólnikov, um jovem estudante que vive na pobreza e procura formas de tentar sobreviver. O desespero dessa condição o leva a assassinar Aliona Ivánovna, uma velha agiota que emprestava dinheiro a juros altos, e sua irmã mais nova, Lizavieta, que entra inesperadamente na cena do crime e é morta por Raskólnikov, para não deixar testemunhas. Os desdobramentos dos assassinatos, depois de perpetrados, ocupam a maior parte da obra, em especial destacando as consequências do crime para o homicida.
Esse enredo pode parecer sem originalidade, em meio à massificação de histórias de investigação policial nas últimas décadas. Contudo, Crime e castigo, ao centrar sua narrativa na psicologia do protagonista, se coloca muito à frente da maior parte das histórias policiais realizadas antes ou mesmo depois de Dostoiévski.
Como o fez em outras de suas obras, aqui, o escritor russo mostra um retrato do sofrimento dos setores mais pauperizados da sociedade, em particular na segunda metade do século XIX em seu país. Sem se comprometer com as descrições pretensamente realistas, feitas por alguns de seus contemporâneos, Dostóievski explora a subjetividade de seus personagens, fazendo o leitor sentir de forma bastante viva o sofrimento dessas pessoas.
Com Crime e castigo o autor desenvolve um estudo da personalidade de um assassino. Muito antes da análise comportamental tão em voga nas muitas de séries policiais da televisão, ele se diferencia de autores que se limitam à exposição do raciocínio lógico ou da análise de evidências; também nos mostra como aquela sociedade degrada física e psicologicamente as pessoas como lemos com Raskólnikov.
O estudante fantasia sobre possuir uma espécie de direito para matar. Em um texto, Raskólnikov define as pessoas como “ordinários” e “extraordinários”. Porfíri, responsável pela investigação do assassinato, assim resume as ideias do jovem: “Os ordinários devem viver na obediência e não têm direito a infringir a lei porque eles, vejam só, são ordinários. Já os extraordinários têm o direito de cometer toda sorte de crimes e infringir a lei de todas as maneiras precisamente porque são extraordinários” (p. 268).
Raskólnikov inclui a si mesmo entre os “extraordinários” e pessoas como a mulher morta nos “ordinários”, mostrando tanto uma ambiguidade moral como uma autoimagem um tanto quanto delirante. Ele explica que os “ordinários” são “as pessoas conservadoras por natureza, corretas, que vivem na obediência e gostam de ser obedientes”, enquanto os “extraordinários” são “os destruidores ou inclinados a isso, a julgar por suas capacidades” (p. 269).
Ainda para Raskólnikov, “se um deles, para realizar sua ideia, precisar passar por cima ainda que seja de um cadáver, de sangue, a meu ver ele pode se permitir, no seu interior, na sua consciência passar por cima do sangue” (p. 270).
Outro aspecto marcante da obra é a descrição do sofrimento provocado pela culpa, que ocupa largas páginas do livro. O uso do suspense é uma forte marca, com Raskólnikov temendo ser descoberto e preso. Em meio a isso, vemos a subjetividade dilacerada de um criminoso sendo descrita em detalhes raramente vistos na literatura até então.
No final, em um momento de desespero, depois de confessar seus crimes — coisa que faz primeiro a Sônia Marmeládova e depois ao delegado Iliá Pietróvitch — Raskólnikov reflete:
“Não, eu precisei das lágrimas dela, eu precisei ver o susto dela, ver como o coração dela bate e se tortura! Era preciso que eu tivesse me agarrado ao menos a alguma coisa, retardado as coisas, olhado para um ser humano! E ousei confiar tanto em mim, sonhar tanto comigo! Eu sou um indigente, sou uma nulidade, sou um patife, um patife” (p. 531).
Crime e castigo é uma verdadeira obra-prima, que mostra um dos momentos mais brilhantes de Dostoiévski. Essa obra, ainda que não possa ser necessariamente vista como uma ficção policial, mostra lições para a escrita dessas histórias de tal forma a ser ainda na atualidade marcante e poucas vezes alcançado.
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Crime e castigo
Fiódor Dostoiévski
Fiódor Dostoiévski
Paulo Bezerra (Trad.)
Editora 34, 2016 (7ª ed.)
Editora 34, 2016 (7ª ed.)
592p.
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Referências
Dostoiévski, Fiódor. Crime e castigo. Tradução de Paulo Bezerra. 6 ed. São Paulo: Editora 34, 2009.
* Michel Goulart da Silva é doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).
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