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A fratura, de Catherine Corsini

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Por Solange Peirão   A fratura , filme da diretora francesa Catherine Corsini, lançado recentemente no Brasil, se estrutura em torno de quatro protagonistas: Rafhaëlle, ou simplesmente Raf, (Valeria Bruni Tedeschi) e sua companheira Julie (Marina Foïs), o caminhoneiro Yann (Pio Marmaï) e a enfermeira Kim (Aïssatou Diallo Sagna).   A interação entre eles acontece em um hospital público de Paris, em 2018, durante a fase mais dramática das manifestações dos “gilets jaunes”. Os “coletes amarelos” fazem alusão às jaquetas fluorescentes dos manifestantes e que são de uso obrigatório para os motoristas na França em caso de acidente.   O estopim do movimento que se alastrou pelo país, mas que teve em Paris sua visibilidade mais expressiva, era o imposto ecológico sobre os combustíveis, anunciado pelo presidente Emmanuel Macron.   Fraturas sociais e políticas   Obviamente que havia muito mais por trás dessa motivação aparente. Trabalhadores questionavam o valor do salá...

A comunidade imaginada elucidada através de “Iracema” e “O cortiço”

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Por Lucas Pinheiro Ilustração : William Santiago.     A procura de uma literatura que caracteriza ou manifesta a comunidade imaginada, ou identidade nacional, foi um objetivo pretendido por diversos escritores no decurso da produção literária brasileira. Dentre os quais destacam-se José de Alencar e Aluísio Azevedo, respectivamente os autores de Iracema , publicado em 1865 e O cortiço , publicado em 1890. À vista disso, este texto se propõe a observar o conceito do que é o “ser brasileiro”, evidenciando determinadas personagens dessas obras.   Análise acerca da construção da identidade brasileira em Iracema   É em Iracema que a construção da brasilidade é divulgada; José de Alencar consegue combinar com maestria culturas e povos distintos: Iracema, a indígena que ama de modo incondicional e entrega-se a angústia escravista do amor romântico e Martim, o português civilizador. Da representação da relação entre os dois, nasceu o primeiro mestiço, criação da brutalidade...

Os poemas de um filósofo censurado por sua posição fascista

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Por Martín López-Vega   É mais fácil encontrar Lucian Blaga (1895-1961) citado como um dos mais eminentes filósofos da Europa de entreguerras do que como poeta. Essas menções geralmente são acompanhadas de referências como a chegada do comunismo na Romênia significou seu silêncio intelectual: a retirada de sua cátedra, bem como a proibição de ensinar e publicar. Todo o seu trabalho depois de 1948 verá a luz postumamente, com exceção de algumas traduções de Goethe ou Lessing. O que nunca é mencionado é o motivo que levou a essa proibição: sua filiação ao fascista Partido Nacional Cristão. Fascista e pouco dissimulado: sua bandeira reproduzia a oficial romena com uma suástica desenhada na faixa amarela central.   Conhecido em seu país por ser o primeiro filósofo romeno a desenvolver um sistema, Blaga foi muito influenciado por Nietzsche e Spengler: seu pensamento é uma viagem às raízes do ser romeno, que ele tendia a glorificar, combinando panteísmo e ortodoxia, e explicar como...

Giorgio Bassani. O jardineiro e o inferno

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Por Manuel Hidalgo Giorgio Bassani. Foto: Mario de Biasi.   Dominique Sanda ainda não tinha completado 20 anos quando, em 1970, fez O Conformista , com Bernardo Bertolucci, e O jardim dos Finzi-Contini , com Vittorio de Sica. Deslumbrante. Todos nós, sem exceção, nos apaixonamos por ela na mesma hora — mas sem outra atitude senão contemplá-la e sonhar com ela —, com seus olhos, seus lábios, sua luz, seus cabelos loiros, sua serenidade, paradoxalmente inquietante, porque incitava um mistério a resolver.   Fico, agora, com a Micòl de O jardim dos Finzi-Contini , com aqueles amores juvenis não consumados, com o imenso parque da suntuosa mansão de Ferrara, com as partidas de tênis, com os passeios de bicicleta, com a roupa branca… E com o gosto amargo daquela barbárie fascista que caiu sobre ela e sua família judia sob o golpe do fascismo.   Poucas vezes houve um acordo tão tácito sobre a dupla excelência de um romance e sua versão cinematográfica. Um ganhou o Viareggio, o ma...

Boletim Letras 360º #482

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    DO EDITOR   1. Até a hora de fechamento da edição deste Boletim, contamos seis leitores inscritos para o próximo sorteio entre o clube de apoiadores do Letras, uma iniciativa cuja primeira temporada finda-se agora interessada em ajudar a arrecadar fundos para custeio de domínio e hospedagem do blog online.   2. Quem ainda se interessar, atenção! As inscrições findam no próximo dia 29 de maio. Desta vez, os três livros que compõem o Kit são da editora-parceira Companhia das Letras: o romance O avesso da pele , de Jeferson Tenório; o livro de contos Gótico nordestino , de Cristhiano Aguiar; e o romance Ossos secos escrito pelo coletivo formado por Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado.   3. Para se inscrever é simples. Envia R$25 através do PIX blogletras@yahoo.com.br ; finalizada a operação, envia neste mesmo endereço (nosso e-mail) o comprovante.   4. Outras formas de colaborar com o Letras estão disponívei...

Pérez Galdós não foi o gigante moderno

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Por Domingo Rodenas de Moya Benito Pérez Galdós, Areneros (ca.1905)   Há um valor agregado na crítica que um escritor faz a outro. Não me refiro àquela que se limita à escassa revisão de novidades, mas à que se desdobra em um ensaio de interpretação. Não são muitos os grandes autores que dedicaram parte de seu tempo à elucidação de um universo literário alheio, e entre eles destaca-se com relevância Mario Vargas Llosa. Seus estudos sobre Gabriel García Márquez, Victor Hugo ou Juan Carlos Onetti são excelentes em suas diferentes abordagens, desde a mais acadêmica História de um deicídio (1971) e o quase programático A orgia pérpetua (1975), sobre Flaubert, até A velha utopia (1996) ou A viagem pela ficção (2008) sobre José María Arguedas e Onetti, respectivamente. Em todas essas aproximações brilha o intérprete penetrante que oferece o espetáculo de uma leitura travada corpo a corpo. Vargas Llosa trabalha com obras que por algum motivo o desafiaram, sejam monumentos romanescos c...