Boletim Letras 360º #714
DO EDITOR
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| Benjamin Wood. Foto: Marc Sethi |
LANÇAMENTOS
Livro com o qual Benjamin Wood foi reconhecido com Booker em 2025 chega aos leitores brasileiros.
Thomas Flett é um camaroeiro de vinte anos que mora com a mãe — o pai ele nunca conheceu; o avô, de quem herdou a profissão, já não está vivo. Seus dias são todos iguais: acorda às cinco da manhã, leva a carroça para a costa, pesca camarões e volta para vendê-los na cidade. Às vezes encontra Harry, seu melhor amigo, e Joan, irmã dele, por quem tem uma paixão reprimida. Nas nuvens, acima da rotina restrita, do cheiro de vísceras de peixe e de banha queimada no fogão, Thomas sonha em ser músico de folk. Quando um cineasta hollywoodiano chega a Longferry à procura de uma locação para seu próximo longa-metragem, imaginar uma vida diferente parece, pela primeira vez, ao alcance. Sensível e atmosférico, Arranha-mar é um romance de formação sobre sonhos que se revelam e se perdem na neblina — e sobre o que fica quando as ilusões se dissipam. Com tradução de Carolina Kuhn Facchin, o livro é publicado pela editora DBA. Você pode comprar o livro aqui.
Mais um clássico de Virgílio ganha nova edição e tradução.
Mais um clássico de Virgílio ganha nova edição e tradução.
Públio Virgílio Marão foi um poeta romano do período augustano. Ele compôs três dos poemas mais famosos da literatura latina: as Bucólicas, as Geórgicas e a Eneida. A primeira obra é uma coletânea de poemas pastoris escritos no tempo da sua juventude. Por volta de 37 a. C., o poeta começa a frequentar o círculo literário de Mecenas, época em que compõe a sua segunda grande obra, as Geórgicas, dedicada ao mundo agrário. Por fim, influenciado pelos ideais do “cesarismo” e por seus desdobramentos políticos desde a juventude, Virgílio compõe a Eneida, seu poema épico, que narra o mito de fundação de Roma, permanecendo até hoje entre as maiores obras da literatura mundial. Nas Bucólicas, temos um conjunto de dez poemas com personagens como Títiro, Melibeu, Córidon e Menalcas que povoam os seus versos, preenchendo-os com os amores, rivalidades e, fundamentalmente, com o canto em meio a uma natureza estilizada. Como a estruturação desses poemas se divide em muitas camadas, não faltam reflexões metapoéticas sobre o próprio caráter do gênero bucólico — que remonta aos Idílios de Teócrito de Siracusa (séc. IV-III a.C.) —, além de um diálogo constante com as condições sócio-históricas de Roma. Aspectos como as guerras civis, as tensões do final da república e a ascensão político-militar de Otaviano (o futuro imperador Augusto) também pontuam a obra. Ecoado desde a Antiguidade por sucessivos epígonos literários, o ambiente idealizado da “Arcádia” de Virgílio ajudou a forjar um modelo universal de felicidade na literatura do Ocidente. A edição bilíngue da Mnema tem tradução, introdução e notas de Matheus Trevizam e posfácio de Alexandre Hasegawa. Você pode comprar o livro aqui.
Podemos, enfim, conhecer a prosa libertadora e inventiva de Cristina Peri Rossi em nosso idioma.
Em uma grande casa familiar, onde várias gerações convivem sob o peso das tradições e de uma autoridade patriarcal, tudo parece obedecer a uma ordem imutável. Avós, pais, tios e tias perpetuam rituais, hierarquias e violências. Mas há algo que escapa ao controle dos adultos: as crianças. Com sua imaginação indomável, seus jogos e sua irreverência, os primos desafiam as regras daquele universo e ameaçam colocar abaixo não apenas a casa, mas tudo o que ela representa. Publicado em 1969, O livro dos meus primos, primeiro romance da uruguaia Cristina Peri Rossi, é uma obra de extraordinária liberdade e invenção literária. Em uma narrativa que rompe com as convenções do romance tradicional, misturando poesia, fantasia, humor e crueldade, a autora transforma a história de uma família em um retrato mordaz das estruturas de poder e das forças que se insurgem contra elas. Entre a rebeldia da infância e os movimentos revolucionários que agitavam a América Latina, Peri Rossi constrói uma história sobre a força subversiva daqueles que se recusam a obedecer. Vencedor do Prêmio Biblioteca de Marcha, concedido por um júri formado por Juan Carlos Onetti, Ángel Rama e Jorge Ruffinelli, o romance já anunciava a originalidade de uma escritora que se tornaria uma das grandes vozes da literatura latino-americana, reconhecida com o Prêmio Cervantes em 2021. Publicação da Bazar do Tempo. Você pode comprar o livro aqui.
Um mergulho nos feitos da psiquiatria no século XX.
Este livro incisivo e vertiginoso mistura ensaio, pesquisa histórica, entrevistas e narrativa de si para reconstruir a história silenciada de Betsy, bisavó da autora, internada e submetida à lobotomia nos anos 1950. A narrativa dessa violência mergulha nos feitos da psiquiatria no século XX através de cartas, arquivos, fotografias, entrevistas e fabulação, trazendo à luz, além da vida apagada de uma mulher, a força poderosa da escrita e da necessidade de quebrar o silêncio sobre o que nos assombra, para que não volte a se repetir. Meu nome verdadeiro é Elisabeth, de Adèle Yon, é publicado pela editora Todavia. Tradução de Julia da Rosa Simões. Você pode comprar o livro aqui.
Uma história de busca entre as cinzas da Guerra Civil nos Estados Unidos.
Uma história de busca entre as cinzas da Guerra Civil nos Estados Unidos.
Louisiana, 1869. A Guerra Civil terminou, mas os irmãos June e Coleman, ex-escravizados, ainda não encontraram a liberdade que lhes foi prometida. Há dois anos foram separados quando o antigo proprietário, o sr. Harper, levou June numa aventura descabida ao México, na tentativa de escapar da nova realidade do Sul pós-guerra. Coleman, um jovem autodidata e instruído, permaneceu a serviço da família Harper por não ter para onde ir. Ao receber uma carta inesperada que convoca a ele, Florence, a filha, e também a esposa do sr. Harper, acredita que suas preces foram atendidas e finalmente vai rever a irmã. Eles não têm ideia das verdadeiras intenções do patriarca e do que os espera. Amizade é uma história de busca: Coleman e June querem se reencontrar, Florence quer achar o pai. A jornada pelo deserto os leva a pessoas e lugares diferentes de tudo o que conheciam. Despojados da estrutura e da ordem que antes regiam suas vidas, todos precisam descobrir quem realmente são, o que estão dispostos a fazer para sobreviver e, no fim, alcançar aquilo que consideram ser a sua liberdade. À medida que os personagens percorrem separadamente uma paisagem perigosa e árida para encontrar o caminho de volta um para o outro, aprendem que a liberdade nem sempre é concedida e, às vezes, é preciso conquistá-la à força. Publicação da editora Instante com tradução de Rogerio W. Galindo. Você pode comprar o livro aqui.
Este volume reúne, pela primeira vez no Brasil, os escritos socialistas do artista, designer, escritor e editor inglês William Morris.
Mais conhecido por suas estampas e a arte do livro, Morris foi leitor de Marx e uma figura importante do socialismo inglês, defendendo posições revolucionárias em direção a uma sociedade não apenas igualitária, mas capaz de fruir o prazer estético, algo que caracterizava a produção de sua fábrica de artes decorativas. Os dez textos reunidos em O prazer do trabalho, proferidos entre 1879 e 1896, portanto anteriores à Revolução Russa, são conferências e ensaios em que ele se dirige a uma elite ilustrada para lembrá-la de que, na história da humanidade, pessoas simples sempre fizeram arte e produziram objetos e desenhos de uso cotidiano, e que somente num sistema em que o trabalhador é alienado de sua produção se perde essa relação prazerosa com o trabalho. Na sociedade almejada por Morris, trabalhadoras e trabalhadores são livres da opressão, têm tempo para o descanso, se reconhecem em sua produção artística e moram em construções confortáveis e esteticamente agradáveis. Para Morris, o trabalhador deve usufruir de um modo de vida simples e livre, podendo gozar da alegria do trabalho atravessado pela arte. Com tradução de Humberto do Amaral, introdução de E. P. Thompson e posfácio Silke Kapp, o livro sai pela editora Ubu. Você pode comprar o livro aqui.
O manifesto fundador de um audacioso projeto literário de Patrick Chamoiseau.
“Nem europeus, nem africanos, nem asiáticos, nós nos proclamamos crioulos. Isso será para nós uma atitude interior, ou melhor: uma vigilância, ou melhor ainda, uma espécie de invólucro mental no interior do qual se construirá nosso mundo, em plena consciência do mundo.” Proferido como conferência no Festival Caribenho de Seine-Saint-Denis em 1988 por Jean Bernabé, Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant, e publicado na França no ano seguinte, o Elogio da crioulidade logo foi mundialmente reconhecido como o manifesto fundador de um audacioso projeto literário. Sucedendo-se ao movimento da Negritude — centrado nas figuras de Aimé Césaire e Léopold Senghor — e celebrando o pensamento de Édouard Glissant, o livro proclama uma identidade caribenha mestiça em suas próprias fundações. Sua proposta estética anuncia as bases do que viria a ser uma literatura antilhana, escrita em língua crioula, mas sem abrir mão da língua francesa, celebrando assim a diversidade e o potencial criativo do universo caribenho. Em prefácio inédito à edição brasileira, que elabora a passagem da crioulidade à Relação, Chamoiseau atualiza e reflete sobre o papel desse texto-manifesto com o recuo do tempo: “Os manifestos costumam falar em voz alta. Hoje, precisam aprender a ouvir as vozes que eles não souberam acolher”. Fica o convite para que o Elogio da crioulidade seja lido à luz do nosso tempo, como lugar de encontro entre as experiências crioulas no Caribe e as especificidades do pensamento brasileiro. Com tradução de Henrique Provinzano Amaral, prefácio à edição brasileira de Patrick Chamoiseau e entrevista com Raphaël Confiant por Vanessa Massoni da Rocha, o livro sai pela Editora 34. Você pode comprar o livro aqui.
As memórias de Beatriz Sarlo, uma das mais significativas intelecutais da América Latina no século XX.
“Não é um livro de memórias. É um livro de memórias.” Com estas palavras hesitantes, Beatriz Sarlo inaugura seu autorretrato dos afetos e leituras que a formaram. “Será possível escrever minha própria história?” — essa pergunta que é também um desafio leva Beatriz Sarlo, nome inescapável da intelectualidade argentina, brilhante comentadora política e crítica literária sem igual, a voltar seus olhos para o passado, na tentativa de recriar o fio de sua própria trajetória. A ideia da incompreensão, que costura essas memórias, se estende para além das dificuldades com as obras literárias da infância, pairando sobre a tentativa de dar ordem a uma vida atribulada, que nunca se adequou aos rótulos, pois em todas as esferas de sua vida, Sarlo sempre rejeitou a adesão completa a credos e seitas, tornando-se uma estranha a todo grupo que a seduzia. Mais do que um exercício memorialista, Sarlo procura as zonas de sombra, tudo aquilo que não conseguiu compreender e que permanece enigmático, articulando reflexões fascinantes que se equilibram entre a autobiografia e o ensaio. Não entender: memórias de uma intelectual sai pela Companhia das Letras. A tradução é de Elisa Menezes. Você pode comprar o livro aqui.
REEDIÇÕES
Livro de Renata Wolff ganha nova edição.
Ana e Paulo se casam em circunstâncias pouco tradicionais. Na festa, Carolina e Sérgio se conhecem e namoram contra as convenções. Nestas histórias, entrelaçadas por personagens que vão e vêm, se revelam os instantâneos de delicados, mas pungentes, confrontos entre a expectativa e o inesperado, o resgate e a ausência, o desejo e o concreto, o apagar das luzes e a vontade de continuar dançando. Segundo Natalia Borges Polesso, “os contos se integram pela delicadeza com que tocam relações familiares, relacionamentos não normativos, corpos não normativos, identidade de gênero e violência.” Fim de festa é reeditado pela editora Dublinense. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
Mais de Machado na Antofágica. A casa publica, agora, Memorial de Aires. O último romance do Bruxo do Cosme Velho sai com artes de Pedro Meyer e textos de Camilla Apresentação, Ynaê Lopes dos Santos, Pedro Meira Monteiro e do próprio Meyer.
Revista 34 pelos 34 anos da editora 34. 34 Letras foi o nome do periódico que deu origem à casa editorial em 1989. Agora, o oitavo número da publicação histórica ganha reedição. Entre os destaques, uma entrevista com João Cabral de Melo Neto.
Daniel Toca. A editora Moinhos prepara a publicação de Disúria do escritor mexicano. Premiado, o romance estruturado como diário ficcional e visual, se desenvolve a partir de uma acontecimento inusual para a literatura: um cão adoece e perde a capacidade de urinar. A tradução é Silvia Massimini Felix.
Efeito Nobel. A Bazar do tempo viu esgotar no mesmo dia do anúncio do Prêmio Nobel para Anne Carson os três livros dela de seu catálogo. Mas, Eros: o doce-amargo, A beleza do marido e Antigonick já ganharam nova edição.
O regresso de Marlon James. O catatau de mais de seis centenas de páginas que cobrem os anos 1980 e 1980 — um dos ápices da violência homofóbica na Jamaica — The Disappearers, sairá no próximo ano pela Intrínseca. É um romance já incensado pela crítica lá fora.
A vida invisível de Eurídice Gusmão. Para marcar os dez anos da primeira edição do romance de Martha Batalha, a Companhia das Letras apresenta uma nova edição incluindo texto inédito da autora.
E Thomas Mann. Lotte em Weimar é o próximo título da coleção com a obra do escritor alemão. O romance ficcionaliza o reencontro de um Goethe quase septuagenário com a grande paixão de sua juventude, a moça que quatro décadas antes fora imortalizada no Jovem Werther. A tradução é Mauricio Cardozo com posfácio de Alexander Honold.
PRÊMIO LITERÁRIO
Paulliny Tort é reconhecida com o Prêmio Machado de Assis.
O galardão da Biblioteca Nacional do Brasil premia Os imortais. O romance publicado em 2026 imagina a trajetória de um clã de neandertais em um cenário hostil, marcado pela fome e pelas intempéries. A obra de Tort se destaca pela originalidade criativa e estilística na articulação entre tema e forma. Na categoria Poesia, o Prêmio Alphonsus de Guimaraens destaca O jardim das oliveiras, de Adélia Prado; no Conto, o Prêmio Clarice Lispector reconhece Recapitulações, de Maria Valéria Rezende. O Prêmio João do Rio, para a categoria Crônica, foi para Lugares para chorar no Recife e outros, de DJ Dolores e o Prêmio Mário de Andrade, da categoria Ensaio, para a biografia de João Guimarães Rosa escrita pelo jornalista Leonencio Nossa.
DICAS DE LEITURA
1. A festa, de Ivan Angelo (Arquipélago Editorial, 124p.) O Brasil entre os anos 1930 às portas do século XXI contado de maneira inusual pelo prisma de várias figuras comuns que se encontram no aniversário de um tal Roberto Miranda. Você pode comprar o livro aqui.
2. Espaço aéreo, de Claudia Cavalcanti (Fósforo, 96p.) Entre um voo do Rio de Janeiro a Paris, uma jornalista, enquanto lê uma matéria acerca da queda do avião Af 447, avança pelo caro tema morte e do luto com elevada dose de humor. Você pode comprar o livro aqui.
3. O canto dos insepultos, de Jesmyn Ward (Trad. Camila Von Holdefer, Carambaia, 312p.) Situado entre o romance de formação e o romance de viagem, o livro acompanha a história de Jojo, um garoto de 13 anos, e sua irmã mais nova, no interior de família marcada pelas forças negativas contra a população negra no sul dos Estados Unidos. Você pode comprar o livro aqui.
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
Clarice Lispector em ópera nos Estados Unidos. Macabéa, baseada no romance A hora da estrela estreia no Miller Theatre da Universidade Columbia, em Nova York. A grandiosa produção musical tem composição assinada por Suzanne Farrin, libreto de Sergio Chejfec e regência do maestro Eduardo Leandro, do Talea Ensemble. É a soprano Charlotte Mundy quem dá vida à protagonista Macabéa. A ópera deve chegar ao Brasil 2027.
BAÚ DE LETRAS
As principais obras reconhecidas com o galardão da Biblioteca Nacional do Brasil foram resenhadas por esta casa. Um dia depois do anúncio, saiu aqui, o texto enviado por Wesley Sousa acerca do romance Os imortais, de Paulliny Tort.
O nosso colunista Tiago D. Oliveira resenhou O jardim das oliveiras, de Adélia Prado; e o premiado na categoria Ensaio, João Guimarães Rosa: biografia, de Leonencio Nossa, é comentado por Herasmo Braga.
DUAS PALAVRINHAS
Mas a felicidade é ser capaz de ter esperança, ainda que fraca, na felicidade.
— Osamu Dazai
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