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Fumiko Enchi e um cadáver lançado ao mar

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Por Benjamín Barajas Fumiko Enchi. Foto: Asahi Shimbun   Fumiko Enchi (1905-1986) foi uma das escritoras mais aclamadas da literatura japonesa no século XX por seu estilo “sutil, delicado e preciso”, que lembra os ritmos suaves do lendário haicai, bem como a elegância de um voo capturado na fina cerâmica ornamental típica das cerimônias do chá servidas por uma gueixa contemplativa e melancólica.   Ela é autora de, entre outros romances, Os anos da espera (1957) Máscaras (1958) e Um conto da falsa fortuna (1965). No primeiro, trata da vida de uma família tradicional japonesa durante o período Meiji (1868-1912), auge do poder patriarcal, semelhante ao que ocorre atualmente nas culturas da Península Arábica.   Nesse contexto, transcorre a vida de Tomo Shirakawa, uma esposa exemplar, abnegada e submissa, a serviço do arrogante e mulherengo Yukitomo Shirakawa, oficial da guarda política imperial, treinado em artes marciais e um carrasco moderado dos membros do Partido Libe...

Salvatore Quasimodo: nômade da morte

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Por Maria Teresa Meneses Salvatore Quasimodo. Foto: Mario De Biasi.   O filho do ferroviário   Gaetano Quasimodo, chefe da estação Ferrovie dello Stato em Ragusa, cidade ao sul da Sicília, recebeu ordens de viajar a Messina para restaurar a rede ferroviária, que havia sido desativada após o devastador terremoto de 28 de dezembro de 1908. Por 37 segundos, o terreno do Estreito de Messina (que abrange as províncias de Messina e Reggio Calabria) tremeu com tanta força que ceifou a vida de aproximadamente cem mil pessoas que foram pegas pela catástrofe enquanto dormiam. Depois o violento despertar às 5h20 da manhã, muitos dos que haviam corrido aterrorizados, buscando o céu aberto da praia para escapar de serem esmagados pelos prédios da cidade, sucumbiriam minutos depois, afogados por grandes ondas que se elevavam a quase dez metros de altura em ambos os lados do Estreito. Toda a dor do mundo estava concentrada em Messina.   Nos versos de “Milão, agosto de 1943”, outras ruí...

Boletim Letras 360º #641

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Cruz e Sousa. Desenho de J. M. Garnier. Arquivo da Biblioteca Nacional. LANÇAMENTOS Obra reúne toda a poesia de um dos principais nomes do simbolismo no Brasil .   A poesia reunida de Cruz e Sousa coloca sob a luz contemporânea o principal expoente do Simbolismo brasileiro, vértice da literatura hoje considerada “negra”, isto é, feita por poetas negros e que trata de sua condição na sociedade, com introdução e organização do poeta e dramaturgo Marcelo Ariel. A edição publicada pela Assírio & Alvim Brasil traz na íntegra seus livros, a partir de Missal  e Broquéis , publicados em 1893, seus poemas iniciais, inclusive Julieta dos Santos  ― pouco conhecido, escrito em homenagem à atriz mirim em cuja companhia dramática ele trabalhou ― e as obras deixadas por ele inéditas: Poemas Cambiantes  e Campesinas . Você pode comprar o livro aqui . Jon Fosse em dois formatos: na edição comum e numa edição exclusiva e limitada reunindo materiais extras .   Em Man...

O carnaval de D’Annunzio

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Por Christopher Domínguez Michael Com L’Imaginifico. Vita di Gabriele D’Annunzio (2018), Maurizio Serra — que escreve em francês e italiano indistintamente — completa um dueto soberbo, precedido por Malaparte. Vite e leggende (2012), 1 em que esta dupla incomparável de iconoclastas e réprobos italianos do século XX alicança um ápice biográfico dificilmente superável. Isso se deve ao envolvimento quase íntimo de Serra, precisamente com aqueles que ele chamou de “estetas armados”, como Stefan George e Filippo Marinetti, com irmãos inimigos como Pierre Drieu la Rochelle e André Malraux, e com outros estetas menos belicosos, como os irmãos Heinrich e Thomas Mann, ou Italo Svevo. Diplomata — ex-embaixador italiano na UNESCO — Serra também é autor de Il Caso Mussolini e, recentemente, de Munique 1938: la paix impossible (2024).   Tanto se disse e escreveu sobre Gabriele D'Annunzio (1863-1938) que, diante de uma biografia como a de Serra, resta ressaltar que um mundo como o dele, apa...

A história do amor de Fernando e Isaura, de Ariano Suassuna

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Por Pedro Fernandes Ariano Suassuna. Foto: Arquivo O Globo .   Nos anos 1950, a versão de Tristão e Isolda reconstituída pelo filólogo francês Joseph Bédier circulou entre o grupo frequentado por Ariano Suassuna, o mesmo que cultivou o terreno fértil a partir do qual brotou o Movimento Armorial. Ao que parece, Francisco Brennand se sentiu motivado a compor uma série de ilustrações para o amor impossível de provável origem celta, interesse logo transferido para o amigo que naquela altura confessara o desejo de escrever um grande romance no porte da Pedra do reino , o livro de uma vida que o escritor paraibano não viu se cumprir inteiramente conforme foi sonhado.   Antes de se lançar ao esforço da grande obra, Brennand sugeriu que Suassuna se experimentasse com uma imitação de Tristão e Isolda , retrabalhando suas personagens e o motivo da narrativa, transpondo-os para o sertão nordestino. Em 1956, a proposta estava concretizada e seduzido com a conquista, o escritor pensou e...

A revolução de Pasolini

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Por Herminio Requejo Schoendorff Enrique Irazoqui e Pier Paolo Pasolini, bastidores de filmagem de O Evangelho Segundo São Mateus . Foto: Domenico Notarangelo.   “Sou um descrente com uma fé que me atormenta.” Esta frase, proferida pelo cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini, resume, como nenhuma outra, sua motivação artística e seu impulso vital. Ele a proferiu após ser condenado a quatro meses de prisão, acusado de “vilificar a religião do Estado” por seu curta-metragem La ricotta . Nele, um homem pobre, contratado como figurante em um filme sobre a Paixão de Cristo, procura desesperadamente algo para comer. Faminto, devora impulsivamente a ricota que dá nome ao filme e morre, por excesso ou destino, no momento da crucificação. No tribunal, Pasolini se defendeu: não se tratava de uma zombaria da religião, mas de uma denúncia da hipocrisia de uma sociedade que se proclama cristã enquanto ignora os marginalizados. “Não me interessa provocar. Interessa-me mostrar a verdad...