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Sobre a obra de Laxe

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Por Ángel María Fernández …embora ame e estime sua pátria, julgando-a digna de todo afeto e apreço, considere bastante acidental ter nascido nesta parte do globo, ou em seus antípodas, ou em qualquer outro lugar.   — José Cadalso   Vive-se ultimamente uma epifania cinematográfica a cada ano em Espanha. A obra de Oliver Laxe se soma à de Albert Serra e, intencionalmente ou não, levanta a bandeira dos francesismos à espanhola. Talvez seja a França que levanta a bandeira para os artistas que estima e, assim, inveja aos espanhóis por sua espanholidade. Não sei ao certo, mas pouco importa. Já faz algum tempo que o nacional pouco significa, por mais que as forças do poder se esforcem nesse sentido. Talvez esse esforço justifique por que ele está escapando por entre seus dedos. O chamado cinema espanhol deixou de sê-lo, e temo que o mesmo esteja acontecendo com o cinema francês e os demais. Ainda mais quando a Europa se assume como um país, essa utopia em andamento, mesmo que haja ne...

Os livros proibidos

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Por Raúl Rojas Pedro Berruguete. São Domingos de Guzman e os albigenses (detalhe)   Numa série de livros que transformaram o mundo, não poderíamos deixar de fora o antilivro, a obra que, ao longo de suas inúmeras edições, decretou quais escritos não deveriam ser lidos. Refiro-me ao Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos), que era uma espécie de calabouço para livros inventado pela Santa Inquisição. Retomar os nomes de autores cujas obras foram “indexadas” é como ler um “quem é quem” da filosofia, da ciência e, claro, de outras religiões.   Tudo começou em 1542, quando o Papa Paulo III fundou a Sagrada Congregação da Inquisição Romana e Universal para combater a heresia e também os inimigos do Papa e da Igreja. Não foi uma invenção nova: já existiam inquisições nacionais ou regionais, como, por exemplo, a Inquisição do Santo Ofício, fundada em 1478 pelos Reis Católicos da Espanha como um tribunal eclesiástico. O tristemente célebre Tomás de Torquemada (...

Entre a cruz e a foice: estudo do ensaio “Sonhos e fantasias”, de Dostoiévski

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Por Rafael Bonavina   Como se sabe, Fiódor Dostoiévski manteve uma coluna chamada Diário do escritor de 1876 até a sua morte em 1881, e alguns textos ainda foram publicados postumamente. Nessa seção, o escritor publicava diversos tipos de textos, como ensaios, críticas literárias, comentários políticos e filosóficos, respondia às cartas dos leitores (reais ou fictícios) e polemizava com os escritores de outros jornais, tanto conservadores quanto liberais. Também é no Diário do escritor que alguns dos seus contos mais conhecidos são publicados pela primeira vez, como o célebre “Sonho de um homem ridículo”.   Os textos não-ficcionais apresentam uma característica que nos será muito interessante, pois contrariam uma lógica fragmentária ao lidarem com as questões candentes do seu tempo. Ou seja, o autor de Crime e castigo não se detinha sobre um único assunto sem se desviar dele, tratando-o como um objeto isolado; pelo contrário, Dostoiévski tece reflexões sólidas que transitam...

Boletim Letras 360º #647

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    DO EDITOR   Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . Joan Didion. Foto: Tyler Anderson   LANÇAMENTOS Livro póstumo de Joan Didion . Em novembro de 1999, Joan Didion começou a frequentar um psiquiatra e, por vários meses, descreveu suas sessões em um diário destinado a seu marido, John Gregory Dunne, que não podia estar presente. Didion gravou cada detalhe de suas conversas, que abordavam temas como alcoolismo, adoção, depressão, ansiedade, culpa, e as complexidades do relacionamento com a filha, Quintana. E, em meio a tudo isso, também relatava como esses assuntos estavam inevitavelmente interligados a duas grandes questões que permearam sua vida: o trabalho e o legado que deixaria para trás. Um relato visceral que revela facetas pouco conhecidas de uma das maiores autoras e jornalistas do século XXI, Para John  convida o leitor a mergulhar em uma jornada íntima ― construí...

Com Marco Aurélio, o que dele nos aproxima

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Por Afonso Junior   O fundador do estoicismo, Zenão de Cítio, teria nascido em torno de 333 a. C.; Marco Aurélio nasceu em 121 de nossa era. Quase quinhentos anos, portanto, e muitas diferenças. Dos livros escritos pelos primeiros estoicos nos resta quase nada — das centenas de escritos de Crisipo, restam os títulos e alguns fragmentos. Do estoicismo romano, entretanto, temos abundante material de Sêneca, as conversas de Epicteto recolhidas em dois livros, e os diários de Marco Aurélio. E, como veremos, algo mais...   Uma das diferenças é que esse estoicismo de Marco Aurélio, ainda que fundamentado em uma tese sobre a ordem cósmica e em uma moral baseada na physis , nos parece muito diverso do estoicismo grego — com seus complexos argumentos sobre o logos, as representações que nos aparecem em um mundo de fenômenos, nossos juízos, a conflagração final e os princípios sem forma (ativo e passivo) que são base dos elementos do mundo. Tudo isso aparece em Marco Aurélio, mas de for...

Temporada de furacões, de Fernanda Melchor

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Por Henrique Ruy S. Santos Fernanda Melchor. Foto: Hector Guerrero   Quando muito se fala da “urgência” de uma determinada obra literária, é comum perceber que se trata da sinalização a uma suposta imediaticidade dos assuntos abordados por um livro, partindo do entendimento de que determinados temas dialogam de maneira mais próxima com as experiências atuais de certos grupos. As “urgências” se multiplicam para toda a sorte de públicos-alvo enquanto o termo se esvazia e, aos poucos, revela sua faceta muito mais de ferramenta publicitária do que de qualificação crítica. A tão alardeada urgência é muitas vezes apenas o apego desesperado aos tópicos da moda, independentemente da relevância social desses tópicos. E repare que digo “relevância social”, e não “literária”, porque o cerne da questão é justamente este: a boa obra constrói a própria urgência e a própria relevância, a despeito de suas escolhas temáticas. A imediatez (a ausência de mediação, para trocar em miúdos), tão louvada ...