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Memórias de Lázaro, de Adonias Filho

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Por Pedro Fernandes Adonias Filho. Foto: Brigitte Friedrich Memórias de Lázaro marca a estreia de Adonias Filho no romance. Antes do livro, o autor era conhecido por sua presença na crítica literária, outro ramo da sua obra que se desenvolveu amplamente e nos legou publicações dedicadas à obra de Cornélio Pena, Tasso da Silveira, o romance brasileiro de 30 e outros temas indispensáveis para pensar seu lugar e seu tempo. A vertente crítica e ensaística, aliás, ultrapassa a do romancista — em quantidade de obras, porque em qualidade, o escritor se revela, a julgar por este livro de 1952, primoroso. Trata-se de um romance que, se os conterrâneos do romancista ou não, nossos contemporâneos, conseguissem o milagre da humildade de reconhecê-lo não cairiam em erros tão grosseiros nas suas produções que só por escuso interesse, excesso de camaradagem e claro desconhecimento de obras como Memórias de Lázaro são designadas excepcionais e aceitas como tal por um público quase sempre alienad...

Eddington, de Ari Aster

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Por Naief Yehya A era da pandemia de Covid oferece uma ambientação ideal para inúmeras distopias e pesadelos apocalípticos, bem como uma excelente metáfora para uma variedade de catástrofes. O isolamento, os contágios, as máscaras, o vírus, a pausa na vida social e econômica, os embates ideológicos e a politização das medidas de controle e mitigação deixaram cicatrizes profundas nas sociedades, que ainda não se revelaram completamente.  Ari Aster lançou sua carreira com os perturbadores Hereditário (2018) e Midsommar: o mal não espera a noite (2019), que o consolidaram como um jovem mestre do terror. Depois desses vieram a frenética e edipiana “odisseia neurótica” (Aster dixit ) Beau tem medo (2023), com a qual se lança ao humor negro mais volátil. Seu terceiro longa-metragem, Eddington, retoma a ironia brutal do anterior, mas se concentra na disfunção cataclísmica da política e da cultura estadunidense, particularmente após as fraturas no tecido social intensificadas pelo trauma...

O filho do cometa Halley

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Por José de la Colina Mark Twain. Arquivo Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.   1 As datas existem para serem esquecidas, escreveu Jorge Luis Borges, e talvez ele tivesse razão, porque na maioria das vezes minúcias cronológicas apontam para eventos triviais que servem apenas para entreter o leitor habitual de jornais com aniversários, horóscopos, palavras cruzadas e histórias em quadrinhos. Mas às vezes pode-se dizer que coincidências na fluidez do tempo buscam moldar ou definir um destino humano. É o caso das datas inicial e final entre as quais transcorreu a vida do apreciável escritor estadunidense Mark Twain. Em 30 de novembro de 1835, na Flórida, Missouri, um certo Samuel Langhorne Clemens, a quem a imortalidade literária só reconheceria pelo pseudônimo de Mark Twain, nasceu na exata coincidência do aparecimento do Cometa Halley. Isso lhe permitiria dizer mais tarde, meio sinceridade e brincadeiras, que era “um visitante misterioso e talvez sobrenatural vindo de outros...

Nova geração em Vidas tardias, de Brandon Taylor

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Por Vinícius de Silva e Souza  Vidas tardias , o segundo romance de Brandon Taylor veio a mim por indicação da generosa escritora Fabiane Guimarães, quando leu o esboço de um romance no qual venho trabalhando e apontou similaridades. De fato: um grupo de jovens, pós-graduandos, vivendo a efervescência da juventude entre relacionamentos e questões profundamente contemporâneas. No entanto, após determinado ponto (e nem é algo tão longe assim), Taylor começa a demonstrar uma certa redundância no que arquiteta com seus personagens. Pior: desliza no vale da banalidade. O início é surpreendente e arrematador. Nos deparamos com Seamus confrontando colegas no grupo de estudos, e questões facilmente encontradas no Twitter (não consigo chamar de X) saltam aos nossos olhos. Acompanhar sua rotina e certo abuso que sofre é instigante, mas não sei dizer se é porque o personagem assim também o é, e o que é contado, ou se apenas porque estamos no início do livro, dispostos a tudo que vier pela fre...

Boletim Letras 360º #653

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DO EDITOR   Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . J. M. Coetzee. Foto: Víctor Sainz   LANÇAMENTOS   Do ganhador do prêmio Nobel, este breve e impactante romance explora a natureza enigmática dos relacionamentos e como encontros fortuitos podem alterar nossos destinos .   Em seis capítulos curtos, O Polonês narra a história de Witold Walczykiewicz, um célebre e controverso pianista conhecido por suas interpretações de Chopin. Durante uma passagem por Barcelona, ele se apaixona por Beatriz, uma elegante patrona das artes que o ajuda a organizar um concerto. Apesar de Beatriz, uma mulher casada, inicialmente rejeitar os avanços de Witold, a relação entre os dois evolui de forma inesperada. Após um breve romance rapidamente interrompido por ela, Witold sai de cena, mas deixa 84 poemas escritos para “Beatrice” em sua língua natal. A mulher se impõe, então, a tarefa de criar um senti...

Ana mon amour

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Por Eduardo Galeno  Ana C., em 1978 A palavra se move . Ela traduz um movimento recíproco entre linha (sintagma) e velocidade. Essa velocidade não é, necessariamente, escalar; também pode ser vetorial. À medida que se move, deixa os rastros e, deixando, percorre do exato da presença ao seu desaparecimento iminente. Muitas vezes se cansa: como se vê, é um cansaço com a voz baixa, mas clara: um murmúrio esgotado e extremamente desvairado. Certeza, a claridade é a claridade original do que já foi, do que vai deixar de ser e do que aparecerá nos remendos do movimento. Sair para fora da identidade é seu resumo, sua astúcia. Deslizamento arriscado no princípio ( principício ) ou derrisão descontente no fim. Então pulula, se apoiando em excluir tanto a unidade quanto a dialética, encontrando, na sua mais alta glória anárquica, a maré da vigilância violenta. A palavra movente, assim, não reconhece nenhuma paisagem ou cultura, muito menos se enfeita de joias que não são as suas. O único pon...