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O deserto e sua semente, de Jorge Baron Biza

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Por Pedro Fernandes Jorge Baron Biza. Foto: Arquivo Clarín Com quantos bons livros se faz um escritor? Jorge Baron Biza reafirma que um é suficiente. O deserto e sua semente , seu único romance, foi publicado pouco antes do suicídio que fechou um ciclo de horrores iniciado desde quando o pai e a mãe desenvolveram o mesmo destino. A morte do pai se desenrola depois de atacar a mulher com ácido, episódio que se encontra na gênese do livro em destaque. Aos sedentos do nosso tempo transbordante de autoconfissões, um aviso: as tintas autobiográficas não limitam o desenvolvimento ficcional. Baron Biza reafirma com este romance o que há muito sabemos e é dessas certezas firmadas como a terra é redonda: vida e obra são extensões distintas, embora não exista obra literária em que uma porção da vida nela se infiltre; seus materiais derivam das múltiplas possibilidades do vivido. Depois de uma longa estadia entre os cuidados médicos em Montevidéu, Eligia procura o que a medicina poderia oferecer ...

“As mortas”: horror e humor made in México

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Por Ernesto Diezmartínez  “À memória e ao gênio de Jorge Ibargüengoitia”, diz a dedicatória que aparece no final do sexto e último episódio de As mortas (México, 2025), a primeira série televisiva dirigida por Luis Estrada, fiel, conscienciosa e até laboriosamente baseada no romance homônimo escrito pelo escritor de Guanajuato e publicado em 1977. É uma homenagem simples que soa sincera e, suspeito, até pessoal.  É provavelmente uma coincidência, mas a obra-prima inicial e insuperável de Estrada, a sátira anti-PRI A lei de Herodes (1999), compartilha o mesmo título — embora a premissa seja completamente diferente — do hilário conto escatológico de Ibargüengoitia que deu nome ao seu livro de contos de 1967. Há também o detalhe biográfico de que, ao dirigir As mortas , o diretor de Um mundo maravilhoso (2006) seguiu os passos de seu pai, o vigoroso cineasta populista José Estrada, que na época dirigiu a louvável, embora irregular, adaptação de outro romance homônimo de Ibargüe...

Palmeiras selvagens, de William Faulkner: notas de leitura

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Por Vinícius de Silva e Souza Helen Frankenthaler, The Bay , 1963 (detalhe) Li O som e a fúria  em julho de 2022 e, por mera coincidência,  Absalão, Absalão!  no mesmo mês, dois anos depois. Agora, no mês sete deste ano, pego Palmeiras selvagens  na minha estante como se para manter a tradição de todo inverno: ler um grande romance de William Faulkner.  Creio ser difícil dizer qual desses livros me provocou maior fascínio: se as múltiplas vozes fantasmagóricas de  Absalão, Absalão! , se a desordem brutal de O som e a fúria ou a  forte calmaria do mais recente. Sei que força é aqui a palavra da vez. Mesmo que em momento algum as narrativas que constituem esse livro — “Palmeiras selvagens” e “O velho” — se cruzem, esse é o cerne dessa obra mais madura do autor: a força. E não deixa de ser surpreendente como em tão pouco tempo Faulkner foi capaz de produzir uma sequência de romances tão grandiosos. Nenhum desses que eu li escapa da pequena redoma que ch...

Zanguézi, de Velimir Khlébnikov, o futurista dos futuristas

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Por Rafael Bonavina Quando falamos das vanguardas literárias russas (ou soviéticas), talvez o primeiro nome que nos venha seja o de Vladimir Maiakóvski. Essa relação quase imediata entre os dois pode ser explicada, em grande medida, pela importância fundamental que esse autor tem para o desenvolvimento da literatura brasileira desde a segunda metade do século XX.¹ De um ponto de vista mais ligado à crítica literária, temos as declarações de Antonio Candido, em “Notas de crítica literária: um poeta e a poesia” (1943); o manifesto do Concretismo paulista, intitulado “Plano-piloto para a poesia concreta” (1958/1961), assinado pelos irmãos Campos e Décio Pignatari. E muitos anos antes, ainda na década de 1930, Mário de Andrade escreveu seu ensaio “Poesia proletária”, em que toca, de passagem, no nome de Maiakóvski.  A essa altura, o leitor já deve estar se perguntando por que o título fala de um russo com nome impronunciável, se aqui estamos falando de outro russo com nome esquisito. A...

Boletim Letras 360º #657

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras. Pier Paolo Passolini. Foto: Herbert List LANÇAMENTOS O primeiro de três volumes com a obra de Pier Paolo Pasolini para o teatro .  Para o primeiro de três volumes de uma coleção com a obra teatral de Pasolini — suas seis tragédias maduras, elaboradas entre 1966 e o ano de sua morte, 1975 — foram selecionadas as duas inaugurais em ordem de escritura, Orgia  e Animal de estilo . Com a publicação das peças em português, traduzidas por Maria Betânia Amoroso, Cláudia Tavares Alves e Alvaro Machado, dá-se finalmente ocasião para reconhecer Pasolini por mais uma de suas facetas, não menos surpreendente. O livro inclui dois ensaios sobre as obras traduzidas, extensa cronologia do autor e seu “Manifesto por um novo teatro” (1968). Publicação das Edições Cosac. Você pode comprar o livro aqui . Jorge Ibargüengoitia chega aos leitores brasileiros . ...

Luis Fernando Verissimo e a extinção dos seres inteligentes

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Por Afonso Junior “Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.” Cito trecho da crônica de Machado de Assis de 19 de maio de 1888 para lembrar que, diante do absurdo, a coisa mais séria a fazer pode ser o humor. Não se deixe enganar pelo normal. Além disso, as modas acadêmicas e o mercado de páginas podem esquecer tradições, direcionar desejos e “empoderar” gêneros, legitimando sentimentos e enobrecendo certos produtos, se não formos espertos. Em terra de Clarice Lispector, quem faz rir é rei. Viva a diversidade. O humor quase sempre foi visto como um primo do banal e um filhote do inútil (ainda mais num cômico país triste que coloca na Academia, na sucessão de Moacyr Scliar, Merval Pereir...