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Cinco poemas de “Altitudes e Extensões (1980 – 1984)”, de Robert Penn Warren

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção e versões)* Robert Penn Warren. Foto: Bettmann LIMITE MORTAL Vi o falcão subir o vento no ocaso sobre o Wyoming.  Ergueu-se da escuridão das coníferas, passando impiedosas Cristas cinzentas, passando a faixa branca, entrando no crepúsculo  De luz onírica e espectral acima da última pureza dos farrapos de neve. A oeste, a cordilheira Teton. Picos nevados terão em breve Um perfil escuro a quebrar constelações. Para lá de que altitude Paira agora o negro ponto? Para lá de que distância olhos doirados Verão novas lonjuras erguerem-se, para marcar um último rabisco de luz?   Ou, tendo provado a finura da atmosfera, será que  Plana sem se mover, numa visão que falece antes De saber que aceitará o limite mortal, E deixar-se ao grande círculo descendente que restaurará A respiração da terra? Da rocha? Da podridão? De outras Coisas tais, e o negrume dum qualquer sonho que agarramos? ESPERANÇA Na orquidácea luz do entardecer, Observa como, d...

Boletim Letras 360º #662

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DO EDITOR Saiba que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajudar a manter o  Letras , sem qualquer custo extra. O seu apoio continua essencial para que este projeto permaneça online. Eugène Ionesco. Foto: Pohlmann LANÇAMENTOS Dois novos livros ampliam a presença do teatro de Eugène Ionesco entre os leitores brasileiros.  1. Encenada pela primeira vez em 1953, Vítimas do dever  é a peça em que Ionesco satiriza o teatro realista ao colocar um inspetor diante de um homem comum, num interrogatório que rapidamente mergulha no absurdo. A busca por um nome esquecido leva o protagonista a questionar sua própria identidade, num jogo de linguagem e poder que escancara a falência do discurso lógico e das convenções dramáticas. O livro tem tradução de Bruno Brandão Daniel, que assina também o texto de prefácio e posfácio mais notas de Gilles Ernst.  Você pode comprar o livro aqui . 2. A cantora careca ...

A ficus e a ficção especulativa de “Floresta é o nome do mundo”

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Por Afonso Junior Mas, naquele tempo, enquanto esteve intacta, tinha montanhas altas e encristadas de terra, e, quanto às planícies a que agora chamamos solo rochoso, tinha-as cheias de terra fértil. Tinha também numerosas florestas nas montanhas, de que ainda hoje há evidências manifestas, pois é nestas montanhas que atualmente existe o único alimento para as abelhas, e não há muito tempo que se cortava árvores nesse local para construir os tetos das grandes edificações — coberturas essas que ainda estão conservadas... Ursula K. Le Guin. Foto: Benjamin Reed No seu diálogo Crítias (111c), Platão já relata um tempo passado (uma Era de Ouro) em que as florestas da Ática viviam livres. Esses dias, um condomínio cortou uma árvore de 70 anos, cuja copa (sem manutenção da prefeitura) atravessava a rua até o prédio da frente, porque todos pagaram indenização depois que uma pessoa foi atingida pela queda de um galho. Eu, no começo, acreditei que a ficus elástica era uma ameaça ao mundo civil...

O retorno d’O mameluco, de Amélia Rodrigues

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Por Renildo Rene Na vida, como na arte, as peripécias caminham às vezes indiscretas, silenciosas, até que se revelem profundamente desiguais para impedir o trajeto feliz. Mesmo após ter se destacado em vida, por suas contribuições à educação e à imprensa do recôncavo baiano, Amélia Rodrigues teve o seu primeiro romance publicado em livro apenas em 2022, quase um século após sua morte. Agora, O mameluco , que estava restrito à sua publicação periódica no jornal Echo Sant’Amarense (onde os capítulos foram publicados em 1882), consegue edição exclusiva — e o seu panorama cálido sobre a nação, remanescente de uma mente que pensa a identidade civil dentro de um projeto autoral, torna-se mais tangível ao leitor brasileiro.   Nesse livro que chega a nós sob esforços admiráveis da pesquisadora Milena Britto e do selo editorial paraLeLo13S, há um quadro de personagens que se inicia com o viúvo português Paulo de Avilez e a sua filha Ramira, educada nos princípios do evangelho de moça pura ...

As três faces de Nosferatu

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Por Emilio de Gorgot  A história do cinema está repleta de cadáveres, e não apenas daqueles com presas. Falo de antigos filmes cujas cópias originais se perderam ou se deterioraram ao longo dos anos a ponto de se tornarem irrecuperáveis. Entre os infelizes finados estão vários filmes de um verdadeiro gigante da cinematografia, o diretor alemão Friedrich Wilhelm Murnau. Sua obra-prima, Nosferatu , também esteve à beira da morte, mas, fiel ao seu tema, retornou do mundo dos mortos. A produção, o lançamento, o escândalo judicial e o quase desaparecimento de Nosferatu poderiam facilmente se tornar o enredo de seu próprio filme. O projeto foi idealizado por Albin Grau, um excêntrico arquiteto alemão obcecado por magia negra e ocultismo. Em seu tempo livre, gostava de usar túnicas cobertas de símbolos esotéricos e portar espadas cerimoniais. Ele se juntou, é claro, a uma sociedade secreta, a Fraternitas Saturni (Fraternidade de Saturno), onde era conhecido pelo evocativo nome de Mestre ...

O tradutor e o oculista

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Por Rafael Bonavina  Vladimir Lebedev Quando sai a nova tradução de alguma grande obra, todos os interessados se apressam para saber se foi bem traduzida. O ritmo acelerado do mercado — mesmo o editorial — exige uma resposta rápida e curta, de preferência que caiba em uma arte para as redes sociais: é bom, há melhores. Porém, e muitos teóricos da tradução concordam, avaliar uma tradução é tarefa extremamente complexa, por isso demanda muito tempo e reflexão para se poder fazer jus ao seu objeto. Em grande medida, essa demora se dá pela própria complexidade da ação de traduzir, esse ato desmedido, como diria o mestre Boris Schnaiderman. Não há muita novidade nisso, mas é importante às vezes contar piadas velhas para públicos novos: o trabalho do tradutor não se limita à sobreposição de uma palavra estrangeira por outra idêntica do vernáculo. Não precisamos ir muito longe para percebermos que em português há muitas palavras para se designar um lugar cheio de plantas (mato, matagal, f...