Asmática e degredada: transgressões além-tempo em Asma, de Adelaide Ivánova
Por Luan Fontes
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| Adelaide Ivánova. Foto: Acervo da escritora/ Reprodução da revista Claudia |
Em uma construção caleidoscópica de identidade, anunciada no próprio nome da protagonista, Vashti SeteBestas, voz condutora principal de Asma, obra poética da autora pernambucana Adelaide Ivánova, semifinalista do prêmio Oceanos e vencedora do prêmio APCA 2025 na categoria Poesia.
A antiga rainha persa, primeira esposa de Xerxes, é centralizada nos versos de Ivánova e leva o leitor por sua jornada migratória pelo espaço-tempo, reconstruindo e/ou reinterpretando marcos insignes da historiografia ocidental, a partir de uma perspectiva feminina e disruptiva, em que não apenas escancara e denuncia, mas reconfigura as narrativas masculinas opressoras e excludentes, que, por muito tempo, sobrepuseram e silenciaram a voz e a vez das mulheres na memória historiográfica e na construção do mundo ocidental.
Assim se apresenta quando diz seu nome pela primeira vez, já anunciando a natureza dissidente e transgressora de sua jornada, quando escolhe o sobrenome em referência ao monstro bíblico do fim dos tempos, em uma narrativa que rompe com a linearidade temporal ou com a lógica patriarcal ainda viva e pulsante nas sociedades contemporâneas:
[...] A menina entreguei pra vizinha, que prometeu
cuidar e cuidou mesmo, já eu troquei de
nome e de cidade,
primeiro SeteLéguas, depois SeteMares, depois
SeteBestas, já fui Maria, já fui Ernestina,
já fui Glória
agora volto a ser Vashti [...] (Ivánova, 2024, p. 15)
Em Asma, Adelaide Ivánova subverte padrões, expectativas e narrativas das mais diversas maneiras, tanto em temática quanto em estrutura e estilo de escrita. Diria, talvez, que seja um ótimo representante da literatura contemporânea brasileira, pois carrega muito da singularidade e autonomia da escrita do século XXI, ainda que em uma construção quase épica — talvez um épico singular e subversivo, rebelde — em que tempo e história são compreendidos como espaços de imaginação e invencionismo.
A obra poética é construída em versos e carrega a riqueza imagética característica do gênero, mas se beneficia da prosa na contação e construção da história e da jornada de Vashti através do tempo enquanto se transmuta em diversas manifestações do feminino, sejam elas mulheres históricas, artistas pop contemporâneas ou mesmo animais e bestas, incluindo aquelas não-nomeadas ou silenciadas pela história, sentindo suas dores e lamentos na própria pele.
Ao construir uma obra entre o modelo recorrente de uma antologia poética e uma unidade temática pela história que conta, Asma se destaca quanto ao projeto estético. Não se trata de uma prosa em poesia porque a autora não dispensa os versos, a rima ou qualquer outra característica do poema. A jornada de Vashti desenvolve-se em poemas independentes que funcionam como peças de um panorama mais amplo e ambicioso.
Abusando de uma linguagem disruptiva e subversiva, o ponto alto da poesia aqui é a forma como a autora reconstrói e representa nos poemas diversos eventos históricos sob um ponto de vista crítico feminino. Além disso, usa de uma linguagem que é muito própria da oralidade pelo uso da coloquialidade através de gírias, expressões e maneiras únicas que não só carregam muito da brasilidade e regionalidade, como também localizam bem qual o objetivo principal almejado com a obra: colocar os holofotes sobre quem viveu muito tempo na escuridão e questionar o quão problemáticas são essas representações.
A autora mistura símbolos e imagens resgatadas dos documentos históricos e das narrativas historiográficas com os de seu próprio repertório e experiência de mundo, sejam tanto de uma coletividade nacional quanto de uma cosmovisão regional, especialmente pernambucana. Lendas históricas e conhecidas na cidade do Recife, como a La Ursa, dividem espaço e são apropriadas pela antiga rainha persa, em seu processo de metamorfose que vai além da metáfora enquanto conceito linguístico, mas eleva a representação a um outro nível, à medida que se coloca não como espectadora ou narradora, mas como agente ativa e detentora da experiência contada.
É a estrutura dos poemas que guia o leitor pela obra, favorecendo a conexão entre os poemas e a organização de uma história que é contada sem perder a riqueza poética, mantendo o ritmo cativante até o final. A obra é dividida em seis partes que exploram fragmentos da história de Vashti, como o capítulo segundo que trata da prisão não apenas física como também espiritual, individual e coletiva. Isso contribui para a coerência da obra de tal forma que se torna impossível perder-se em meio a tantos momentos históricos reunidos, o que seria um problema possível dada a proposta do livro.

Asma, o termo-título da obra é explorado em diversos poemas, de formas diferentes. A doença inflamatória crônica carrega em sua própria gênese uma condição de comorbidade incurável, que acompanha a vida da pessoa que a possui, agravando-se de tempos em tempos de acordo com o ambiente. Nas aparições poéticas de Vashti, ela é explorada dessa mesma forma, e a compreendo, primordialmente, como a alegoria da opressão e violência sofridas pelas mulheres ao longo da história, das múltiplas maneiras que ocorreram e nos múltiplos espaços e tempos em que podem ser constatadas.
De modo geral, a doença se torna também mais uma das camadas e das metamorfoses da personagem, sendo uma marca constante e um lembrete de vida, uma sentença de morte que nunca chega, mas que está à espreita, a violência que está cravada em seu(s) corpo(s):
Quando deixei Roterdã
mula de seu Adriaen
muitos séculos atrás
num acordo que hoje se assemelharia
ao sistema de kafala
mas que naquela época tinha outro nome
a privatização das nossas terras
e a mercantilização das nossas relações
causaram tanta pobreza
tanta fome
tanta morte
tanta miséria
que quando subi naquela nau
serva por dívida pensei
“pior do tô não fico”
“pior do que tá não fica”
“queria chupar uma pica”
brincadeira não foi essa a ordem dos
pensamentos
mas pensar pensei
é que não queria perder a chance de
escandalizar o júri
com essa rima
riquíssima (Ivánova, 2024, p. 27)
Nesses versos de um poema da primeira parte do livro, quando Vashti é julgada por um júri grego, ela conta os supostos crimes e o mal que lhe fizeram, que passou impune e sem questionamentos. Nesse momento em específico, quando parte da sua terra e começa sua jornada de degredo, explica o tipo de acordo feito e as consequências para si, mas não apenas.
O que salta aos olhos nesses versos é o contraste entre antiga rainha e, como ela mesma se define, “serva por dívidas”. Essa disparidade posta aqui em poucas palavras é a questão principal a ser analisada através da figura de Vashti. O feminino em uma situação favorável em contraste com esse mesmo feminino em circunstâncias miseráveis, sempre em uma posição inconstante e incerta, à mercê das vontades e caprichos dos homens, que têm o poder de mudá-las de estado a qualquer momento.
São mulheres e fêmeas sempre em um lugar outro, sempre à sombra dos desejos masculinos e disponíveis para cumprirem suas vontades, da maneira que lhes seja conveniente. Mais que isso, esses corpos são tratados como instrumentos, moedas de troca, em uma condição perpetuamente condenada à servidão, como um ser bestial que nem sequer é reconhecido como sujeito. Um feminino definido pela presença ou falta do masculino, sem a possibilidade de existir em seus próprios termos.
Apesar disso, o posicionamento contraventor da personagem diante de sua situação é a marca mais sólida e forte da poesia de Asma, visto que desde sempre ela rompe com as convenções e enxerga a situação de maneira irônica, de certa forma até cômica, mas nunca sem deixar de ser crítica. O uso da linguagem informal e periférica, quando pensamos em uma regionalidade, aparecem aqui como uma ferramenta de comunicação universal, que questiona e problematiza a situação sob outra ótica, utilizando ferramentas muito mais criativas não só para contar como também para reestruturar uma narrativa histórica cristalizada sob um ponto de vista patriarcal e opressivo:
[...] O açúcar é doce, mas o da cana é trabalho amargo,
como o xadrez pr'onde te mandam, revolto ou quieto,
pobre não pode ficar na sua nem na dos outros,
se tá parado será tratado como suspeito,
se em movimento será taxado de criminoso
Andar não pode, ficar parada pode tampouco,
ficar nadando (sem fazer nada) não é bem-visto,
em todo canto é quase sempre a mesma história:
não incomoda aquela que não faz perguntas
a que reclama será tachada de baderneira
a que recusa trabalho horrível, de vagabunda. (Ivánova, 2024, p. 173)
Outro ponto muito importante nessa obra é como o feminino é representado e explorado em diferentes contextos e em diferentes formas de ser-mulher. Nesses versos, como exemplo de muitos outros, o feminino aparece marcado pelas perspectivas econômicas e sociais, como a violência sofrida — e não apenas à violência de gênero, as estruturas sociais capitalistas não podem ser excluídas ou separadas da discussão.
Uma poesia que explora a violência e questiona a maneira como as mulheres foram representadas ao longo da história não poderia ser construída de outra forma — com um recorte feito apenas por gênero, sem tocar em pontos como raça e classe social — pois, se assim fosse, nada mais seria que um outro dispositivo patriarcal de silenciamento e apagamento. O que Ivánova compreende bem é que múltiplas são as pessoas e, assim, múltiplo é o feminino. Portanto, ele não pode ser entendido sempre da mesma maneira, nem tratado como uma manifestação única quando existem tantas mulheres e pessoas alinhadas ao feminino com problemas e reivindicações tão diferentes e singulares.
No mais, diria que Asma é uma obra não apenas transgressora em seu fazer poético, mas insubordinada e disruptiva em sua própria maneira, incomparável a qualquer outra. Nos versos de Ivánova, encontramos as mulheres do mundo, mas também o mundo por/sobre as mulheres, o mundo do feminino e vice-versa. É uma leitura para todos e uma experiência que precisa ser compartilhada e discutida, porque representa problemas de todos, representada em uma escrita divertida, criativa e extremamente deleitosa.
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Asma
Adelaide Ivánova
Editora Nós, 2024.
200p.


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