Postagens

Amor, casais e casamentos em William Shakespeare (3)

Imagem
Por María Méndez Peña William Shakespeare com Anne Hathaway e os filhos. Ilustração alemã do século XIX. Casamento de Anne e William Deixamos para o fim a leitura sobre o casal e o casamento formado por Anne e William. Presumivelmente, a decisão de Shakespeare de viver a maior parte de seus anos longe da companheira ajuda a ampliar o contexto de certas questões e detectar outros dados sobre sua vida e sua obra: talvez ele não desejasse se fazer conhecer, nem procurou ser totalmente compreendido; talvez, olhando para trás, percebeu que seu casamento era um erro desastroso quando tinha apenas dezoito anos e que também pagava pelas consequências, sendo escritor e marido, e assim escreveu frases como: “casar-se por obrigação arrasta para o inferno”; “casamento apressado, raramente floresce”. Outra conjectura: talvez tenha dito a si mesmo que seu casamento com Anne estava fadado ao fracasso, parecendo um poço profundo de contínuas amarguras. Segundo Joyce, Shak...

Correspondência trocada entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena entre 1959 e 1978

Imagem
  Por Maria Vaz “Filhos e versos, como os dás ao mundo? Como na praia te conversam sombras de corais? Como de angústia anoitecer profundo? Como quem se reparte? Como quem quer pode matar-te? Ou como quem a ti não volta mais?” Este poema foi escrito por Jorge de Sena e dirigido a Sophia de Mello Breyner Andresen na sua obra Peregrinatio ad loca infecta , corria o ano de 1969. Em boa verdade, as missivas publicadas resultam do esforço de Mécia Sena e de Maria Sousa Tavares, filha de Sophia. Com esta materialização de amizade vertida em verso e prosa celebra-se mais do que a poesia ou do que o diálogo levado a cabo por duas figuras incontornáveis do mundo da poesia em Portugal e de extrema relevância e importância indesmentível para toda a lusofonia. Além da forma, da motivação da troca da correspondência, do tom muito mais informal e pessoal do que a formalidade de alguns poemas em que a erudição intelectual de ambos não os conseguia trair, o que salta a...

Uma temporada e meia no inferno: Um dia na vida de Ivan Deníssovitch

Imagem
Por Joaquim Serra O espaço em Um dia na vida de Ivan Deníssovitch (1962) é um peso importante para a compreensão da obra. O mesmo acontece em obras do mesmo segmento, como o monumental Contos de Kolimá , de Varlan Chalámov – este somou quase vinte anos nos campos –, Memórias do Cárcere , de Graciliano Ramos, e o mais recente Estação Carandiru , do médico Drauzio Varella. Ivan Deníssovitch está inserido na tradição de obras acerca do cárcere russo, como o fez Dostoiévski em Recordações da casa dos mortos e Anton Tchékhov em Ilha de Sacalina , este com um profundo ideal humanista, considerou escrever sobre a condição dos prisioneiros para direcionar os olhos do mundo àqueles perdidos de humanidade. Ivan Deníssovitch Chukhov cumpre os últimos anos dos oito a que foi condenado (o próprio Soljenítsin ficou detido por cerca de oito anos).   Só sabemos depois de muito como o protagonista foi pego e preso primeiramente em um campo do norte, o recorrentemente citado Ust-Ijma...

Boletim Letras 360º #346

Imagem
Findamos a semana com três sorteios. Três leitores, do Instagram, Facebook e Twitter, ganharam, cada um, um exemplar de Melancolia , de Carlos Cardoso (Editora Record). A campanha assinala a publicação do novo trabalho do poeta brasileiro, distinguido como um dos acontecimentos na cena literária deste ano. A seguir, o leitor encontra as notícias que passaram durante a semana pelo mural do Letras no Facebook, as dicas de leitura que apresentamos costumeiramente há algumas edições deste Boletim e outras recomendações.    António Lobo Antunes chega aos quarenta anos de sua obra com novo livro, distinções e homenagens dentro e fora de Portugal. Segunda-feira, 30 de setembro Livro reúne parte da correspondência de Efratia Gitai, uma mulher do século XX, de opinião própria, libertária, com posições feministas e ideais socialistas . “Em tempos como estes, não temos escolha a não ser ir em frente e continuar vivendo”, diz Efratia em uma de suas cartas. As cartas r...

Leitor modelo e aluno modelo: conceitos dos quais devemos nos livrar

Imagem
Por Rafael Kafka Ilustração: Michael Drive Umberto Eco possui um texto bastante interessante no qual ele trabalha a ideia do leitor ideal, ou modelo, se o leitor preferir. Por meio de uma série de reflexões críticas a um modelo estruturalista de entendimento da obra literária, Eco mostra que o texto literário é um conjunto de estratégias de leitura usadas pelo escritor e percebidas pelo leitor em seu ato de desbravar o referido texto. Nesse sentido, nunca há um contato pleno entre autor e leitor da obra, pois entre eles há as palavras que servem de mediadoras e elas, por natureza, são polissêmicas. Tal polissemia é gerada pela condição humana, fenomenologicamente explicada como uma miríade de visões e formas de sentir a realidade. O leitor ideal é uma utopia pessoal de cada escritor, o qual se utiliza de uma série de recursos e espera que esse leitor entenda plenamente as suas demandas expressivas dentro do produtor que entrega, em constante processo de inacabamento...