Boletim Letras 360º #715
DO EDITOR
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| Clarice Lispector e Maury Gurgel Valente. Washington, 1955. |
LANÇAMENTOS
As cartas de Maury Gurgel Valente para Clarice Lispector.
Em 1943, mesmo ano em que estreou no romance com Perto do coração selvagem, Clarice Lispector uniu seu jovem coração selvagem ao de Maury Gurgel Valente, colega de turma na Faculdade de Direito. Dezesseis anos e dois filhos depois, Clarice decidiu voltar ao Brasil. Queria dedicar-se inteiramente à escrita, livre das obrigações de mulher de diplomata, e viver no país onde se criou, perto da família e dos amigos. Com o ex-marido, manteve até o fim uma relação afetuosa. O carinho de Maury por ela atravessou os anos, como revelam as Cartas de amor infinito, muitas delas ternamente endereçadas a “Claricinha”, e outras ao filho Paulo. Publicadas agora pela primeira vez, as cartas lançam novo olhar sobre a vida e a obra de uma das vozes mais singulares da literatura brasileira. A obra tem edição de Teresa Montero e sai pela editora Rocco. Você pode comprar o livro aqui.
A poesia erótica de Bertolt Brecht.
Poemas eróticos percorre quatro décadas da poesia erótica e amorosa de Brecht, de 1914 a 1955: dos primeiros versos de Augsburgo aos sonetos do exílio, passando pelo Devocionário doméstico, pelos Salmos, pelos Sonetos de Augsburgo ― em boa parte inéditos até 1982, retidos pelos herdeiros em razão de seu conteúdo sexual ― e pelas canções da Ópera dos três vinténs. São 92 poemas, aqui em edição bilíngue, acompanhados de notas que reconstituem a história de cada texto. Organizado e traduzido por Alexandre Krug, com posfácio de Eliane Robert de Moraes, o livro é publicado pela Hedra. Você pode comprar o livro aqui.
A face marginal de Paris na Belle Époque.
Marco da ficção de Charles-Louis Philippe, Bubu de Montparnasse revela a face marginal da Paris da Belle Époque. O romance narra a ruína de Berthe, jovem levada à prostituição pelo cafetão Bubu, sob o olhar de um alter ego do autor. Sem moralismos, a obra disseca a miséria e a exploração urbana com precisão documental. Clássico da temática social, o livro foi celebrado por T.S. Eliot como um retrato genuíno e trágico da experiência moderna. O livro sai pela editora da Unesp com tradução de Adriano de Paula Rabelo. Você pode comprar o livro aqui.
Ninguém vive sozinho. Descobrir o outro para descobrir a si.
Um homem vive sozinho nas montanhas, em um vilarejo abandonado perdido no meio da floresta. Seus dias são monótonos, dedicados à rotina de subsistência. Suas interações se dão com plantas e animais — andorinhas, vaga-lumes, a massa vegetal em constante transição —, únicas testemunhas de suas angústias e de sua solidão. Seja qual for a razão pela qual o homem buscou isolamento, seu intento foi bem-sucedido. Contudo, há uma ruptura inesperada, a prova cabal de que ele não está sozinho: um pequeno ponto de luz passa a brilhar, noite após noite, à mesma hora, infalível. Como seria possível? Não resta mais ninguém naquelas montanhas e nenhuma hipótese parece fazer sentido. Por fim, o homem atravessa a floresta no inverno e descobre uma criança vivendo sozinha nas montanhas. Quem é a criança? Como pode viver sozinha? Por que ela parece pertencer a outra época ou lugar? Que mundo noturno é esse que ela habita? Como pode ela inspirar tanto afeto naquele homem? Ele se aproxima cada vez mais tentando desvendar o segredo da existência do menino e de sua própria vida, neste texto terno e metafísico. A luzinha sai pela editora Mundaréu. Você pode comprar o livro aqui.
O novo romance de Banana Yoshimoto no Brasil.
O novo romance de Banana Yoshimoto no Brasil.
Depois da morte inesperada do pai, a jovem Yoshie abandona a casa onde vivia e se muda para Shimokitazawa, um bairro boêmio e aconchegante de Tóquio. Ali, entre cafés, pequenos restaurantes, livrarias e lojas de discos, ela tenta reconstruir a própria vida — não para esquecer o passado, mas para aprender a conviver com ele. Em Moshi Moshi (interjeição dita no Japão ao atender o telefone), Banana Yoshimoto transforma o luto em uma delicada investigação sobre a memória e seus efeitos sobre o corpo. A ausência não é apenas uma ideia: manifesta-se no cansaço, no sono, na fome, nos hábitos e nos gestos cotidianos. Diante dela, faz-se necessário recuperar o equilíbrio sem acreditar que exista um possível retorno ao que era antes. Afinal, controlar a vida é uma ilusão: as mudanças chegam, as pessoas partem, os vínculos se transformam. Ao lado da mãe, também marcada pela perda, Yoshie percebe seu desejo, humano, de preservar pessoas, lugares e sentimentos exatamente como são. Mas a impermanência se impõe, silenciosa e inevitável. É justamente ao aceitar que nada dura para sempre que a jovem começa a descobrir novas formas de estar no mundo, colhendo momentos de sutileza — à semelhança de Hirayama em Dias perfeitos — e dispondo atenção ao corpo que respira, às pessoas que estão ao nosso lado, aos pequenos prazeres de um dia comum. Porque, se nada é definitivo, talvez seja justamente essa fragilidade que torne a vida tão preciosa. Com sua prosa límpida e sensível, Yoshimoto fala sobre o fluir do tempo sem transformar a dor em sentença. Shimokitazawa torna-se espaço de passagem e residência, partida e encontro, de reconstrução; um lugar onde o futuro voa livre e o passado continua presente, gravado em cada pedra na calçada, cada janela de casa, salientando que viver também é aprender a abrir mão daquilo que julgamos ter controle. Publicação da Estação Liberdade. Tradução de Karen Kazwe Kawana. Você pode comprar o livro aqui.
Um coveiro se confessa.
Em Memórias de um coveiro, o autor Osmair Camargo Cândido, conhecido como Fininho, apresenta um relato sincero e profundamente poético sobre a rotina de quem trabalha com a morte. Atuando durante décadas no cemitério do Araçá e em outras necrópoles paulistanas, Cândido narra com precisão o serviço pesado nas covas, das exumações aos rituais de despedida, e revela os bastidores de um cotidiano marcado por escorpiões, tempestades e episódios inusitados com os mais diversos personagens. Longe de se limitar ao macabro, a obra utiliza a lâmina da nossa finitude para esquadrinhar a própria sociedade brasileira, expondo com crueza a desigualdade, a hipocrisia das elites, a segregação social e o racismo perpetuado desde os tempos coloniais contra os trabalhadores braçais. Homem negro, graduado em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie — a mesma instituição onde trabalhou como faxineiro —, Cândido constrói sua trajetória entre o esforço físico exaustivo e a vida intelectual refinada. Sua escrita une o sombrio ao filosófico, combinando reflexões sobre impermanência, luto e solidão com memórias afetuosas da infância, da música de João Bosco e Aldir Blanc, e da profundeza das relações pessoais que o sustentaram nos momentos de maior penúria. Sua perspectiva única transforma o coveiro, tido como espectador invisível, em um pensador agudo, capaz de observar a essência humana livre de suas vaidades. Trata-se de um testemunho original e comovente acerca da dignidade humana, da memória e do valor da vida. Ao mesmo tempo que Cândido dá voz a uma categoria historicamente marginalizada, ele convida o leitor a encarar a inevitabilidade da morte não como uma derrota, mas como uma lente de aumento para compreender as contradições, as dores e a beleza passageira da nossa existência. Publicação da editora Fósforo. Você pode comprar o livro aqui.
Mais dos ensaios de James Baldwin.
“Ainda creio que uma vida sem reflexão não merece ser vivida, e sei que a autoilusão, a serviço de uma causa medíocre ou sublime, é um preço que nenhum escritor tem condições de pagar”, escreve James Baldwin na introdução de Ninguém sabe meu nome. E prossegue: “O tema do escritor é ele próprio e o mundo, e isso exige cada gota de resistência que se possa reunir a fim de olhar para si mesmo e para o mundo”. Ao longo dos treze ensaios reunidos em publicação original de 1961, James Baldwin amplia e aprofunda temas já presentes em Notas de um filho nativo, lançado seis anos antes. Ao discutir o racismo, a segregação racial, a violência policial e outros aspectos que estruturam a sociedade estadunidense — observados tanto de dentro quanto à distância, durante a temporada que passou na Europa —, o autor compõe um retrato contundente e singular de si próprio e de seu país. Publicação da Companhia das Letras; tradução de Jorio Dauster. Você pode comprar o livro aqui.
As memórias de uma das mais vivazes intelectuais do século XX.
“Não é um livro de memórias. É um livro de memórias.” Com estas palavras hesitantes, Beatriz Sarlo inaugura seu autorretrato dos afetos e leituras que a formaram. “Será possível escrever minha própria história?” — essa pergunta que é também um desafio leva Beatriz Sarlo, nome inescapável da intelectualidade argentina, brilhante comentadora política e crítica literária sem igual, a voltar seus olhos para o passado, na tentativa de recriar o fio de sua própria trajetória. A ideia da incompreensão, que costura essas memórias, se estende para além das dificuldades com as obras literárias da infância, pairando sobre a tentativa de dar ordem a uma vida atribulada, que nunca se adequou aos rótulos, pois em todas as esferas de sua vida, Sarlo sempre rejeitou a adesão completa a credos e seitas, tornando-se uma estranha a todo grupo que a seduzia. Mais do que um exercício memorialista, Sarlo procura as zonas de sombra, tudo aquilo que não conseguiu compreender e que permanece enigmático, articulando reflexões fascinantes que se equilibram entre a autobiografia e o ensaio. Não entender: memórias de uma intelectual sai pela Companhia das Letras. A tradução é de Elisa Menezes. Você pode comprar o livro aqui.
REEDIÇÕES
O retorno da trilogia biográfica de Maksim Górki.
O cultuado Maksim Górki usou as agruras da própria vida como matéria para suas obras-primas: Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades. São livros perspicazes que mostram como ele transcende o rótulo de autor oficial do realismo soviético. Esta trilogia narra a traumática infância de Górki, marcada pela pobreza, a violência dos castigos físicos, passa pelos anos de formação, seus trabalhos precários, como de lavador de pratos, e as leituras que o moldaram. Por fim, acompanhamos a busca por conhecimento — inclusive político — fora dos meios universitários, aprendendo a observar a vida com uma tristeza peculiar. Reeditada pela Penguin/ Companhia com a tradução direta do russo de Rubens Figueiredo e Boris Schnaiderman. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
Prosa do mundo 1. A nova coleção da Cosac Edições é uma conhecida (e queridinha) do público. Sairá com o nome de Literatura, mas os moldes seguem a da extinta Cosac Naify. O primeiro volume é a reedição de Moll Flanders, de Daniel Defoe.
Prosa do mundo 2. Estão previstas na nova casa obras de autores encontrados na antiga coleção, como Bertolt Brecht, Samuel Beckett e Isaac Bábel. Mas, também novos nomes. Entre eles o poeta Dambudzo Marechera e a romancista Qurratulain Hyder.
Prosa do mundo 3. De Marechera sai ainda neste ano, A casa da fome; e da escritora indiana, Rio de fogo, no primeiro semestre de 2027. A coleção é guiada por Alexandre Barbosa de Souza, que também trabalhou em parte da Prosa do mundo na antiga Cosac.
Yo. O curto título é da última grande obra de Serguei Eisenstein que ganha edição ilustrada, comentada por Naum Kleiman e traduzida por Irineu Franco Perpetuo pela Ars et Vita. Trata-se de um registro nada convencional da autobiografia do cineasta.
PRÊMIO LITERÁRIO
Meridiana, de Eliana Alves Cruz, foi reconhecido na categoria Romance, e Boris e Marina, de Alberto Martins, em Poesia do Prêmio Jabuti 2026. No Conto e na Crônica foram premiados, respectivamente, Massaranduba, de Abáz e Viagem ao país da crônica, de Humberto Werneck. O resultado completo pode ser lido aqui.
DICAS DE LEITURA
1. Fogo pálido, de Vladimir Nabokov (Trad. Jorio Dauster, Alfaguara Brasil, 288p.) Um enigmático professor se apodera de um poema escrito nos últimos dias de vida de John Francis Shade e partir daí inicia um périplo sobre exílio e literatura. Um romance que desconstrói a forma convencional de narrar com inventividade e humor. Você pode comprar o livro aqui.
2. Flores matinais colhidas ao entardecer, de Lu Xun (Trad. Yu Pin Fang, Editora da Unicamp, 240p.) Nome singular da literatura moderna chinesa, este livro reúne dez de seus textos escritos em 1926 que perfazem um vívido retrato da infância e juventude do autor e do cotidiano do final da dinastia Qing até o início da República da China. Uma introdução ao leitor interessado na obra completa do escritor. Você pode comprar o livro aqui.
3. Bella mia, de Donatella Di Pietrantonio (Trad. Patricia Peterle, Relicário, 216p.) A luta íntima de uma mulher que precisa reinventar a vida depois que se vê obrigada a assumir a responsabilidade materna quando a morte repentina da irmã no devastador terremoto de L’Aquila em abril de 2009. Você pode comprar o livro aqui.
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
Celebramos neste dia 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia e queremos lembrar aos leitores deste espaço o nosso compromisso com a leitura e a divulgação da poesia — brasileira ou não. Entre as iniciativas mais recentes, está o Observatório da Poesia Contemporânea. Desde o começo do ano, o projeto coordenado pelo professor e poeta Jonas Leite já nos colocou em contato com mais de uma dezena de obras da poesia de língua portuguesa. Eis o convite para acessar, ler e compartilhar. É por aqui.
BAÚ DE LETRAS
Foi no dia 28 de outubro de 1726 que os primeiros leitores entraram em contato com As viagens de Gulliver, que se tornaria um marco da literatura de língua inglesa e na história do romance. Sublinhamos os seus bem-vividos três séculos com esses dois textos do nosso baú: uma tradução deste ensaio de Javier de Lucas que sublinha a constante atualidade do livro; e essas notas de Pedro Fernandes publicadas aqui em 2011.
DUAS PALAVRINHAS
A poesia é necessária, mas o poeta, será?
— Em Amar se aprende amando, de Carlos Drummond de Andrade
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* Todas as informações sobre lançamentos de livros aqui divulgadas são as oferecidas pelas editoras na abertura das pré-vendas e o conteúdo, portanto, de responsabilidade das referidas casas.

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