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O amor, saída para o tempo

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 P or Tiago D. Oliveira Só quando terminei a leitura percebi os protestos vindos das panelas em vários prédios ao meu redor. Voltei para o livro, ainda sobre a mesa, e entendi – está tudo ali. Assim, entre a literatura e a realidade, comecei a digerir os versos de O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição , novo livro de Clarissa Macedo, que ainda me levou para deambulações que me desconectaram permitindo-me imaginar como seria se tudo fosse diferente.  Depois de polarizar, calmamente, preenchi a mão direita contra o peito, guardei-me em uma respiração mais profunda – faz anos também que o cheiro do peixe invade as paredes, o catre, os sonhos, /[a minha oração . (“Dança”) – para uma aflição mapeada, desmitificada e combatida com a voz da poeta empunhada – eu continuo: persisto,/ de anzol gasto,/ no exercício de dar de comer à mãe, às filhas, às irmãs ;(“Dança”) – e entendo que a voz dessa mulher, que é filha, irmã e leitora de seu espaço/ tempo, é o...

Sobre Tolstói e Machado: duas concepções da natureza

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Por Davi Lopes Villaça Em seu livro Tolstói ou Dostoiévski , George Steiner aponta uma série de semelhanças entre as narrativas de Tolstói e as epopeias de Homero, buscando demonstrar o estilo épico do escritor russo. O crítico reflete sobre a relação entre autores e personagens, que se reflete em Homero na própria relação entre deuses e homens: “O criador está onisciente e presente em toda parte, mas ao mesmo tempo é desprendido, impassível e incansavelmente objetivo em sua visão. O Zeus homérico dirige a batalha da firmeza de sua montanha, segurando os pratos da balança do destino, mas sem intervir. Ou, ainda, intervindo, somente para restaurar o equilíbrio, para garantir a mutabilidade da vida humana contra a ajuda milagrosa as excessivas conquistas do heroísmo. Assim como no distanciamento do deus, na visão clara de Homero e Tolstói há crueldade e compaixão. Eles enxergavam com esses olhos vazios, ardentes e diretos, que nos observam através das fendas dos capac...

Boletim Letras 360º #372

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DO EDITOR 1. No Twitter @Letrasinverso lembramos, durante a semana, sobre duas coisas. Primeiro, falemos sobre a necessidade de, quem puder, ajudar as pequenas livrarias, livreiros, editoras independentes durante o longo período que atravessamos. Uma estratégia é variar as compras de livros do mês, colocando na lista de imediatos aqueles livros de editoras independentes que por vezes ficam para depois e comprá-los ou diretamente na editora ou na livraria adotada. E variar isso, mês após mês. 2. Várias editoras e livrarias independentes têm ampliado suas presenças na web sempre com novidades que facilitam o acesso aos livros: e-books para download gratuito, antecipação de pré-vendas, frete grátis, promoções etc. São estratégias de divulgação do trabalho desenvolvido por elas. Se o leitor não consegue apoiar financeiramente adquirindo o livro pode ajudar, comentando, curtindo, compartilhando os materiais divulgados. Pense que isso serve para ampliar os limites de atenção e at...

João Cabral de Melo Neto em Barcelona

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Por Ernesto Hernández Busto No verão de 1947, o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto chegou a Barcelona para servir como vice-cônsul de seu país. Nesse mesmo ano, ele se tornou amigo do pintor Joan Miró e, nos meses seguintes, se relaciona com vários representantes do grupo de vanguarda catalão que, no ano seguinte, em setembro, se uniria à revista Dau al Set (Modest Cuixart, Antoni Tapiès, Joan Brossa Joan-Josep Tharrats, Joan Ponç). Até essa data, Cabral já havia publicado três de seus livros de poesia – Pedra do sono (1942), Os três mal-amados (1943) e, especialmente, O engenheiro (1945) – consumando o trânsito entre suas primeiras preocupações surrealistas e uma posterior revolução formal da linguagem poética brasileira, onde poderá incorporar as mais radicais conquistas estéticas do século XX. Apenas durante os primeiros anos em Barcelona, ​​ele publicará duas outras obras fundamentais: Psicologia da composição com a fábula de Anfião e Antíodo (1947) e o ex...

Nadja, de André Breton

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Por Pedro Fernandes André Breton. Foto: Gisèle Freund Nadja parece que foi escrito em 1927. A probabilidade contraria a afirmativa recorrente na história literária que registra o ano seguinte como a data verdadeira da existência desse livro se justifica pela voz do próprio autor. Não é o caso de uma afirmativa sobre, mas algumas das notas acrescentadas ao texto primeiro trazem a data de 1962; além disso, ele diz no texto acrescido depois de concluir uma revisão do romance que o retoque do material se dá trinta e cinco anos depois. Sim, a obra foi publicada em 1928; a versão revisada, em 1964. Um ano a mais ou a menos, a incongruência não será nem a primeira nem a única de uma obra literária. Mas, em se tratando da vanguarda a qual se filia, esse tratamento não deixa de fornecer algo de interessante. Suspensa a possibilidade autêntica do registro factual do seu aparecimento, o livro se apresenta, qual a história que relata , enquanto um objeto autônomo ou um acontecim...

A viúva, de Pierre Granier-Deferre

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Por Maria Louzada Simone Signoret tinha 50 anos na época. Alain Delon estava com 36. Duas lendas do cinema francês se encontram em La Veuve Couderc , de 1971, filme baseado em livro de uma lenda literária: Georges Simenon. Simone vinha de outro sucesso,  também  baseado em Simenon, Le chat , ao lado de Jean Gabin, dirigida pelo mesmo Pierre Granier-Deferre deste aqui. La Veuve Couderc  foi escrito por Georges Simenon, aos 35 anos, em abril de 1940. Outro famoso escritor, o francês Andre Gide, considerava este livro de Simenon como o “ápice da arte”; achava que possuía semelhança com: L’étranger (O estrangeiro), de Albert Camus (publicado em 1942). Um canal, barcaças, uma ponte levadiça, um rio com altas e velhas casas de cada lado contracenam com Alain Delon e Simone Signoret. Ela é uma mulher do campo, amadurecida pela vida e sofrimentos passados, amarga, cabelos grisalhos à vista e um corpo longe dos dias de sua juventude. Mas ainda desejável...